quarta-feira, 21 de setembro de 2011

strip


Estava escuro quando começaram a se despir. Ele não via um palmo à frente do nariz mas sentia na ponta dos dedos o corpo dela inteiro. Ela estava de olhos fechados e braços cruzados por sobre os seios, envergonhada. Ainda não estava pelada. Nem ele.

Ouviu um clique e sentiu que em suas mãos havia duas pontas de tecido. Sutiã, pensou ele, mas ela não disse nada. No escuro completo nada se via, então ele se conformou com a ideia do sutiã aberto e pronto, passou para a próxima etapa. Carinhou a barriga dela e desceu com as mãos aos quadris, beijou a cintura e com os dedos velozes tirou o botão de sua casa. A casa em que estavam não era dele nem dela.

Mal sabiam onde estavam. Talvez na China antiga, talvez em Mercúrio, mas estava imenso escuro pra que pudessem saber.

Não importa, ela pensou, ainda segurando os seios com os braços cruzados. Ele beijava suas coxas e aos poucos puxava a calça pra fora da cama, pra longe do quarto, jogava as roupas no quadro que havia pendurado na parede de trás do lugar.

Ela sorriu. Do sorriso veio um riso abafado, que ele ouviu. Olhou para ela esquecendo das calças por um instante e então viu, radiantes, os olhos dela a brilhar.

O quarto já não estava escuro, não totalmente. Deitada, com os olhos abertos olhando pro teto e alumiando metade do quarto ela sorria, as mãos cruzadas por sobre os seios. Ele viu que no peito trazia um sutiã preto, ainda vestido. Olhou para o quadro que balançava, notou que as roupas estavam no chão perto dele e correu até lá. Ela continuava na cama, sorrindo, rindo, com os olhos brilhando de luz olhando pro céu.

Mexeu rápido nas roupas ao chão, cueca, camisa, a blusa vermelha que ela trazia com IcoraçãoNY escrito, as meias dos dois, três meias, pensou que uma delas se havia perdido e seria bom que encontrassem antes de ir, pulseira, colar, sapatos, a calça dele, a dela não que ainda estava vestida até os joelhos, e pronto. Achou novamente o tecido que tinha estado em suas mãos, tecido de pontas do clique que ouvira, o tal sutiã.

Não era. De um jeito engraçado aquilo era venda, um pano que, pelo visto, tapava a visão da menina. Ela olhou para ele, que agora era nu e iluminado, e ainda sorria. Ele também. Vá saber, pensou, de repente era isso que ela queria. Que eu precisava. Que ela também. Tirar essa venda dos olhos pra poder enxergar bem...

Voltou para a cama, ela fechou os olhos e o quarto de novo estava no escuro.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

passo...
...passo
passo...

“passa aqui!”
é o que grito
é o que grita
ela.

passo e tomo o mundo,
o rumo,
o curso,
o rio.
passo...

passei por ruas,
vielas,
e as vi
nuas
meninas em janelas
por todo o litoral.
...passo

num mar de sal
submerso
nadando ao céu
feito verso que não pára de soar.
passo...

e ela,
menina,
pernas do mundo,
passará.

天


Ele dizia que os dois deviam achar o céu logo que pudessem, antes de esperar que o céu descesse ou que eles subissem ao Céu. Ela dizia que sim, que bem que achava isso, mas nunca se sabe no fim das contas se é isso que dá pra fazer.

Ele dizia que sim, era só caminhar pelo céu com o pé na terra e a cabeça em algum lugar dentro do coração, pra evitar de pensar no que quer que fosse. Ela dizia também que era ali que ela mesma pensava, com o coração na cabeça e a cabeça no coração.

Ele tinha certeza que os dois achariam o céu. Ela não tinha certeza, mas seguia sentido a ele porque, na pior das hipóteses, podiam parar no caminho e olhar pro céu lá no alto com estrelas e nuvens e flores vermelhas voando caindo de não sabe onde pousando de leve nos pés da criança na beira do mar.

Ela sorria quando sorria uma criança nas margens do caminho, ele sorria quando ela sorria e sorria também quando sorria a criança e ela não via por estar a olhar pra outro lado. Mas mesmo olhando pro lado de lá ela sorria.

E toda criança sabia que as flores caindo do céu vinham de árvores no alto das nuvens.

A gente é que esquece.

sábado, 17 de setembro de 2011

paêbirú


ouvem-se as letras caindo enquanto o som toca no som é o som de outro tempo. Há fogo folha água luz estrela um firmamento negro e a meia-lua minguante da noite de hoje é a lua nova de algum outro dia.

samba-se o passo na areia e o sol na janela balança com o vento a veneziana. O raio de sol amarelo e quente inventa o balanço do vento que vem e o vento se esquenta no sopro da areia também.

duas flores agora se brotam aos pares então já são quatro flor a brotar. Uma floresta se faz de três flores três árvores quatro riachos e cinco pardais.

O som do sol que vai longe acorda o sono daqui e se estende às costas de mim

a luz do dia nascente nascendo ao meio do dia em dia que ele se põe.

baixou

a lua brilha e mingua entre as vastas nuvens
e estrelas brilham juntas trás daqueles montes
deitado mesmo à cama, janelas fechadas,
o som do vento chia e envolve já meu sono

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

crônicas do metro


Ele sentou no metrô bem no ponto final. Dali só havia um sentido pra ir.

Esperou. A última parada demora mais que as outras, o trem se lotando aos poucos com poucas pessoas entrando. Esperou, descalçou os pés e apoiou na poltrona da frente, esticando as pernas.

Entrou uma moça, loira bonita vestida de branco e com os olhos tapados por óculos negros. De sol. Pouca gente no vagão quase ninguém ela foi e sentou bem de frente pra ele, uma poltrona além. Para trás. Na frente exata ele tinha os pés pousados, ela não sentaria aos pés dele, não seria educado.

Tirou os óculos de sol e enxugou o suor da testa. Ele viu que em volta ao nariz, onde os óculos pousam, duas marcas fundas avermelhadas tinham ficado marcadas. Os óculos passaram muito tempo ali, pensou ele, ou o nariz dela inchou, não sei.

Sorriu para ela quando ela olhou, indicou o próprio nariz com a ponta do indicador e ela percebeu o que era. Sorriu também, mei sem jeito. Alisou o nariz e pegou num espelho. Sorriu de novo pra ele, agora que vira as marcas.

Ele sorriu. O trem partia em segundos, pessoas entravam ainda, o trem partiu da estação final rumo ao único sentido possível naquela situação. Ele olhou para ela, que mexia em algo na bolsa, no colo, algo assim.

Ele deixou de olhar. Ela olhou, então. De repente. E ele notou. Ele olhou de volta, ela continuou. Os olhos se olharam, ele sorriu, ela também, dessa vez sem ninguém sorrir primeiro, antes do outro. Os dois sorriam e uma estação depois ainda se olhavam.

Ele saltou em uma estação qualquer antes dela, que foi até uma estação qualquer depois dele. Ninguém sabe pra onde, ninguém sabe quando, ninguém sabe nada.

Subindo as escadas ele pensou se a veria de novo, um dia.

Ela, no trem, tocava de leve a marca ao nariz e sorria, pensando se um dia o veria de novo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

trinta e umésima


Há formigas fantasmas andando no meu corpo. Meu quarto tem formigas de verdade. Cozinha, se o lixo é esquecido sob a pia, não só formigas como formigões. A casa toda se coça por onde elas passam.

Depois de meditar por mais de uma hora, às vezes um pouco menos, a perna formiga. Levanta-se devagar circulando o corpo, com a mão se puxam os pés, que formiga, metade da perna dói e a outra não sente nada. Nada. Metade da perna dói e a outra só volta a existir aos poucos.

Sinto-me porco quando a mosca voa em mim. Parece que não tomo banho ou tenho qualquer coisa, talvez um pacto com o capeta, Senhor das Moscas e da Imundície das Profundezas. Mas tomo de três a mais banhos por dia, ça chuva ou faça sol. Especialmente quando faz sol.

Hoje, desde criança procuro nos cantos da casa algum doce ou ovo de páscoa ou qualquer dessas coisas que atraiam formigas. Não vejo uma bala sequer, nem pra elas nem para mim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

tratado de muriçocologia


Há quem saiba o que é muriçoca,
carapanã,
pernilongo,
tudo tudo a mesma coisa, mas em partes diferentes
de um país.

Meu país, o brasil,
todos sabem muito bem.

Como chamará em portugal?
Talvez pernilongo também?
Talvez?
Muriçoca duvido um pouco;
carapanã, nome díndio,
duvido muito.

Vejo agora o dicionário e se chama
não, não chama,
não encontro o dicionário.

mas o mosquito muriçoca
pernilongo
que me acordou agora
antes das 6 da manhã
me tirou foi tanto sangue
que eu juro que esta é
de todo o mundo inteiro
a maior carapanã.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

e já lá se vão 30


A lua cheia é grande e nasce ao fim da minha rua. Não sei se ela alumia ou a lâmpada pública, mas bate uma luz em mim e no muro há sombra. Eis que a sombra se agita e quase me pega no susto, mas eis também que o susto bota a sombra em seu lugar.

Na janela do andar, do segundo, um gato arranha a cortina por dentro do vidro. Não sei se o gato caía caso o vidro se abrisse, não sei. O vidro está fechado e o gato arranha a cortina no alto, dependurado na contraluz.

Faço as contas de quanto falta para nunca mais faltar nada. Complicada. Muitas vírgulas na divisão.

Lê-se um livro em algum lugar, em outro lugar se faz sexo, num terceiro ainda um terreiro de umbanda batuca a canção de uma avó. Lê-se um sexo enquanto num terreiro reza-se um terço inteiro. Livra-se então dessa dó, seja lá do que for.

A lua cheia é grande e aqui já vai alta, mas lá onde me interessa a lua até já desceu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

mexicana

- Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser reformulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

(Italo Calvino, As cidades Invisíveis)

Morde o pêssego e pensa na menina. Ela é de outra terra, de longe, ele também. Mas os dois da mesma terra ficam cada qual num canto. Os dois da mesma terra em terras longe.

Quando a conheceu estava de partida. Ele. Ela não, ela ficaria. Mas ficaria num ponto tão distante do destino quanto da terra natal. Dele. Entende? Ele a conheceu quando partia de A a B, enquanto ela permanecia. Em C.

Era como se um estivesse no Brasil e a outra, sei lá, Japão. Longe.

Mas ambos da mesma terra, eram.

E se iam reconhecendo um pouco, de pouco em pouco, enquanto lembravam do que ficara nas infâncias do pensamento. A cada estação de trem, a cada metrô, de ponto a ponto da linha ferroviária do mundo todo os dois se lembravam, como quem acha dois euros no troco da máquina de café.

Ambos os dois contavam histórias, mas ele calava mais. Ela falava, chutava areia na praia ou no deserto do Egito antigo. Ele só lia livros, olhava as ruas e caminhava. Ela falava, mas também nem sempre.

Tinham uma coisa com livros antigos, sentimentos antigos e com velhos espíritos. Mas nenhum dos dois sabia bem o que tinham.

Não sabiam, mas falavam do mesmo jeito. A cada palavra nova a cada história um pedaço dela saía de trás da cortina azul. Ele não tinha cortina mas parecia estar sempre de costas, então cada frase nova girava-o um pouco mais. Ela descortinando, ele encarando de frente o futuro de sabe deus quê.

independência ou 29


Almoço. Baião de dois com queijo típico português. Meu grito do Ipiranga nas beiradas de Lisboa.

Minha avó deu a meu pai um colar de ouro, de estrela, benzido em pai de santo. Num exu, bem da verdade. Isso faz tempo. Hoje o colar é meu, meu pai me deu antes de eu seguir. Era Exu Seu Tiriri, o exu, dos primeiros amigos que tive que eu lembro. Ele e meia dúzia de crianças mortas. Ou desencarnadas, como queiram.

Hoje ando por aqui com a estrela amarrada no peito. Umbanda andando em território português. Típico, eu sei, feito o queijo. Além disso tem ciganos, indianos, a comunidade de África e metade da China aqui. Andando pela rua de noite, pegando vielas sem muito sentido, cai-se em bairros mais ou menos proscritos por serem migrantes. Imigrantes, de fora. As casas antigas malacabadas, fachadas descascando em torno da janela de onde sai um pai gritando ao filho que de bicicleta vai pra longe algo como "volte aqui", mas em hutu. Não sei se era "volte aqui", mas devia ser. O menino logo voltou.

Lisboa à noite é sem turistas, ao menos pela semana e ao menos fora das zonas turísticas de festa à noite. Cidade de imigrantes que ocupam vielas velhas onde nasceu o fado, Pessoa, onde morreu Amália e onde ainda talvez um dia chegue Dom Sebastião. O Desejado.

Independência ou morte, certa vez disse um português. Gritou à beira rio quando voltava da cidade onde Nasci. Santos, vocês sabem. Hoje, em terra dele, ouço pela janela pouco mais que um ou dois carros, vizinha gritando qualquer coisa que não entendo e o barulho imaginário do rio lá do outro lado.

Supõe-se que hoje eu sou livre.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

vigésima oitava


A senhora na fila reclama da fila. "Como podem demorar tanto para entregar um papel, como podem?". Na vez dela, demora. A senhora é à minha frente, então espero. "Não pode esta foto com óculos escuros", diz a atendente. "Ah, pode! Ah, pode!" e saca a senhora de dentro da bolsa a carteira de identidade, motorista ou sei-lá-quê. Uns anos mais jovem, papel amarelado, óculos escuros. "Viu? Trate de aceitar". A moça aceita.

E diz a menina médica jovem ao velho, no meio da rua, "O senhor já fez exames de audição? Pois estamos aqui nesta clínica fazendo de graça, pois sim? Então, já fez os exames?". E o velho, "Hein?". "Exames de audição", ela diz, "estou lhe oferecendo". "Ah não, não, eu ouço muito bem".

Existe uma rampa na muralha do castelo. Ela sobe um pouco até o alto do arco de entrada e vira à direita. À esquerda também prossegue, mas olhando da bifurcação logo se vê que à esquerda o caminho acaba logo. Quinze passos e uma cerca. Ou menos. Toda gente segue ao arco, sobe no muro e tira as fotos do Tejo lá embaixo, escuro ou claro depende do sol. Virei à esquerda. Quinze passos, ou menos, parei na grade e vi, pra além dela, dois pavões. Enormes. Ciscando, andando, ao sol, claros, quietos, azuis e verdes e tudo mais, a se coçar com o bico e a comer as ervas do recinto.

Recinto rimava, aqui.

À direita, as pessoas tiram fotos. Ninguém vê os pavões.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

vinte e sete


Cedo a burocracia me barra. Burro, insisto. Nada. Tudo bem, não sou dos que morrem por isso. Meu atestado de óbito será só mais outro papel.

Metro. Aqui não é metrô. É metro. Medida de comprimento de uma cidade nem tão comprida. Cedo, caminho. Não paro de andar desde que cheguei, a cidade é o que os pés do homem andam, sem mais nem menos. Afora isso nada existe. Minha cidade são meus caminhos.

Do litoral do Brasil até o interior, depois outro litoral depois outro interior, Europa já, depois outro litoral, depois outro interior depois mais um litoral. Europa de novo agora. Como estações de metro uma após a outra, todas linhas do mesmo mapa. O mundo é uma zona urbana mesmo que em meio ao campo. Dos litorais aos interiores tudo que resta é paz. Meu corpo são dois meus pés.

Na pausa para um café sento à sombra que, creio eu, vai me acompanhar. No pátio da lanchonete, em minha universidade, um lago artificial brota peixes bambus e u'a única flor de lótus. Lótus. Deus é um piadista. Ou Buda.

Volto de lá e ando. Ando. Com uma mala nas costas eu ando. E subo, desço, e chego. Largo a mala naquela que será, quase já, minha casa. Depois volto. E ando.

Quando janto, defronte a um Buda de madeira, esqueço da reverência. Só lembro ao fim do arroz, quase no fim do prato. O restaurante é escuro e a música triste parece me entristecer.

Mas essa tristeza que sinto é cansaço.

domingo, 28 de agosto de 2011

cena 26


É verão só sob o sol. Na sombra faz um frio que me enregela a alma. A cerveja gelada acompanha o tempo. Estou bebendo meus sentimentos.

Penso te ver caminhando na marina. Na mesa, minha frente, um prato de caldo de cenoura esfria com o clima. Andando pela marina, afinal, tu não está. Teus pés agora devem estar do outro lado do oceano.

Passam pela mesa um pai e sua filhinha. Quatro, cinco vezes. Suponho que serão seis, em breve. Pronto! Passam seis vezes, em pouco a pouco correndo de um lado ao outro, não sei se apostando corrida ou pega-pega.

Como se chamará pega-pega em havaiano? E em holandês? Ontem aprendi a conjugar ser em croata.

Meu prato está frio. Na escada, atrás de mim, vem sentar uma bela portuguesa. As moças de Portugal têm cara de portuguesas, é fácil identificar. Acho bom: se não tivessem elas, quem teria? As indianas?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

cena 25, querido diário


Quando o sol nasce, do outro lado do avião, no mar lá debaixo vejo algo a brilhar. Com a luz do sol, no mar, algo vermelho acena. Um navio, talvez, ou um pedaço de sol que se perdeu.

Lisboa é uma cidade de vielas decadentes e avenidas reformadas. Nas vielas vejo alguma porta aberta e um velhinho português a ler jornal.

Quando o caminho em que ando acaba, começa o rio Tejo. Deixo os chinelos depois de uns degraus e afundo meus pés nessa água. Um tipo de limo ancestral ameaça que eu escorregue. Daqui partiram navios que inventaram o Brasil. Agora eu inventario.

Ouço mais de cinquenta idiomas falados, em todos os lados tem um grupo a mais. É verão, Portugal é quente e os norte-europeus descem pra cá.

No aeroporto chegou, atrás de mim, um avião de africanos. Com roupas típicas coloridas e as línguas, um cheiro de incenso acompanhou o desembarque.

Um sufi passou por mim defronte ao Teatro Nacional. Turbante e barba longa, um sufi.

A maré sobe. Não sei os nomes dos lugares, mas a água ainda molha.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

cena 24 de agosto


chorar é um evento solitário

Sento num descampado para escrever. É a mureta do canal, canal 2, pés na calçada olhando a rua. Às costas, a água suja do canal corre pro mar. À minha direita árvores espaçadas fazem sombra na calçada. À esquerda também. Só exatamente em minha frente é que não há nenhuma planta. Os carros passam e eu escrevo. Isto.

Na janela de um shopping alto, eu pelo lado de dentro, um suco na minha mesa, olho os prédios do lado de lá da avenida. O prédio que eu vejo me olhando é uma casa baixinha, um sobrado, uma casa baixinha velha mas reformada, casa onde havia um pronto-socorro. Quando criança, muitas e muitas vezes fui doente praquela casa, e o doutor do segundo andar me fazia esperar na sala. Criança, olhando pela janela, via o shopping alto que na época não existia. Ali havia um cinema.

Caminho pela praia e molho os pés na água, depois saio dela. A linha que sigo, tortuosa, passa por cima de patas de pássaros. Pegadas de asas estão pelo chão da praia. Sem perceber muito bem, pisando por sobre elas eu meio que alço voo.

Vejo um posto de gasolina que já era um posto de gasolina quando fui adolescente. Lembro de uma vez que, saído da escola, eu e uns amigos andamos até ali. Sem motivo aparente. Na esquina continuamos a conversar, a falar, até que já fosse tarde o suficiente para eu levar uma bronca quando chegasse em casa. Tudo bem. Um amigo ali, naquela tarde, me deu as coordenadas matemáticas do famigerado ponto G. Vocês ficariam surpresos de saber o quanto ele existe...

Numa das últimas ruas, passo defronte a uma casa antiga. Casa em que eu ia criança, casa da vó de uns amigos. Faz tempo. A casa está igual, paredes de azulejos na garagem aberta na entrada. Na casa da vó de meus amigos o portão está enferrujado. Na de minha vó também.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

não sei se esse nó
que sinto no estômago
é ansiedade ou cachaça

não paro de pensar
que não paro de
pensar
que não paro de pensar

meu coração bate mais rápido
mas deve ter sido por eu
ter batido
o dedão no sofá

pensei que estivesse triste
mas o que eu sentia
era frio

sábado, 20 de agosto de 2011


tempo é movimento, ao correr.
descanso, letargia: eternidade.
não há alternativas, na verdade,
que leve qualquer louco a não morrer.

domingo, 14 de agosto de 2011

23, dia dos pais


Pedalando pela praia, desacelero. A menina que vai à frente pedala devagar, insegura, tentando tirar uma das mãos do guidão. É criança. O pai vai na frente e a deixa por conta própria, mas não pedala rápido pra que não se distancie. A menina treme, faz pequenos ziguezagues, treme, por fim grita com a mão pro alto. Uma delas, a direita... não, não, a esquerda! "Pai! Pai! Tirei uma das mãos!". Depois, mais baixo, falando pra si própria, ri. "Tirei uma das mãos... que fantástico!".

Sento ao pôr-do-sol olhando os morros lá distantes. Estou sobre pedras no canto da praia, no outro canto o sol avermelha. Passa um sujeito e desce pra areia. Um cigano, penso eu, de colete sacola e bolsa barbicha e cabelo comprido. Volto a olhar o céu antes que o sol se vá. No fim das pedras o cigano assenta, com o pé na areia. O sol vai dormir e o cigano acende um cachimbo de madeira.

Crianças correm da areia pro mar, atrás do pai pescador que parou o barco no raso. Crianças sorriem pra água que cai, pro homem do algodão-doce, pra árvore, pro coco verde gelado a 3 dinheiros, muito caro. Crianças passam na noite de lua cheia com vento quente, vento noroeste a gente chama, que traz chuva e me lembra infância.

No teatro me admiro. De toda a beleza coreografada, ensaiada, de textos prontos e marcas dadas, o caminho das pétalas que caem do alto se faz por acaso. Tampouco ensaiada é a pétala que agarra na trança da moça, da bailarina que sai. Tampouco meu choro.

O espetáculo acaba e o choro prossegue.

De repente passa uma criança...

---
*a foto é do tal espetáculo: http://www.donkashow.com/donka.html

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

dois patinhos na lagoa


- Ô paaaaai, posso lavar o cabelo? Ô paaaaaaaaaai...

A criança grita do chuveiro e a voz vem pelo poço do elevador. Morar em apartamento é viver, de um jeito ou de outro, a vida de todos em volta. Alguém bate a porta, alguém bate à porta, um velho morre no andar de cima, o vizinho chora, o cachorro late e a mulher se despede antes de ir embora.

Pisando pra fora do prédio ela muda de bloco, dali em diante sua vida se isola, não é mais pedaço da história do prédio. Não está mais ligada ao homem que morre e o homem sem teto, que dorme encostado na escada da praça, não é nem um nada. Não é nada pra ela. A mulher que saiu do edifício segue sozinha uma história sozinha.

Deitado na escada, na praça, o homem afasta umas pombas e um grilo. Não vive num prédio, não tem seus vizinho num bando de gente: vez disso, ele é consciente da morte do esquilo, das asas batendo de uma andorinha, da grama que nasce, das flores que brotam, da quina da escada que o fode nas costas. Viver na praça é morar, de uma forma ou de outra, no meio da vida de todos em volta.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

(021)


Um funcionário atrás do vidro troca o cartaz que anuncia: a partir de sexta-feira espetáculo inicia no teatro São João.

O caminho de volta à rodoviária é mais breve que o de ida. Meus pés já sabem por onde ir, mas do avesso. Logo chego.

À minha esquerda o mar se agita. À frente, arrebita a bunda de uma bonita moça, ao lado do namorado. Talvez marido. Tatuado e com aparência presidiária. A bunda balança livre.

Uma senhora arrasta a sacola pela calçada. Cansada, parece pedir um vintém. O homem que se aproxima é generoso: cruzando o olhar com a velha na certa dará uma moeda. Um passo antes da idosa, entretanto, seus olhos se enchem de encanto ao cruzar com o olhar de uma moça, do outro lado da rua. A velha se deita com fome, e dorme.

Vejo a rodoviária ao longe. As luzes piscam. Cheiro de bar e urina no chão. Passo. Estou no caminho. O destino é a estrada. Indo embora me sinto em casa.

sábado, 6 de agosto de 2011

vinte ver


Rio de Janeiro. Estado. Peço café. "Açúcar? Adoçante?", "Nada, obrigado". "Nada? Como você consegue?". Não sei. Sou de São Paulo.

Estado.

Andando pela praia primeiro dia à noite, primeira noite, no alto do monte vejo um fogo incendiar. Lá longe. Espero que apague.

Meu chinelo arrebenta e sigo, com pé no chão que fica imundo. A sujeira do mundo inteiro se estende pra que eu pise. A sujeira do mundo condensa em meus pés.

À beira da calçada um cão espera. Deitado, olha para cima de um morro longe, do lado de lá da avenida. Outro cachorro deitado, no mato, espera. No alto do morro. E olha o primeiro cachorro. Estão a esperar que a altura se abaixe.

Tremula no caminho um edifício em construção. A rede que protege da queda de entulhos dança ao vento. Tremula o edifício no caminho, e nada mais preciso.

Mas no tremular do mar, ao lado de onde estou, emerge a tartaruga. Breve, e logo afunda.

sábado, 30 de julho de 2011

aos dezenove ele não vai lembrar


Como estou pedalando, perco o final da frase. É uma mensagem escrita no chão, no meio da rua, em frente a um prédio.

Luana,
me perdoa. Eu te amo muito,
não consigo viver sem você.
César

Não-consigo-viver-sem-você-César é o final que imagino. Não sei se seu nome é César. Nem lembro, aliás, se o dela é Luana. No meio do asfalto o amor se estira.

Faz mais calor hoje que nos últimos meses. O sol coloca um filtro azul na realidade. Sinto que a praia é a cena de um filme aquecido. Nova geração de processadores de imagem.

Sentado olhando pro mar olhando pro livro e lendo, voltemeia passa um menino correndo. Pequeno, dois anos, da direita pra esquerda. Passa um menino correndo desde onde seus pais se encontram. Um dos dois segue atrás, chama, pega o menino no braço e leva de volta. Volto a ler. Pouco depois - um parágrafo - volta o menino a correr e agora é o outro que busca. Menino pequeno falando pras pombas qualquer coisa que eu não entendo.

Que pena. Deve ser mais importante que meu livro ou que o céu quente de hoje.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

dezoito voa


algo se move sob meus pés
que estão deitados sobre o sofá.

mancha nos olhos
a mancha se move
sob meus pés
a mosca

se move estranha
sem asas batendo
e eu me recolho sem bater os pés

- diz-se que, afinal,
qualquer mover pés causa um abissal
furacão
na terra das mariposas -

a mosca resiste ao vento
do pano de prato que faço
pra que ela voe dali

a mosca resiste ao tremendo
terremoto
que, penso eu,
é o arrastar do sofá

a mosca resiste
e sopro
gentilmente
pra ver se

ela cai

e ainda com asas guardadas
a mosca vai gentilmente
como quem não quer nada
andando na sala de estar.

dezessete cm³


Não enxergo mais um palmo à frente do nariz. Não, ao menos, quando o palmo está a uma quadra de distância.

Duas quadras, no entanto, é quão longe desta casa fica o estádio de futebol. Jogo hoje, jogo grande. Vários gols. Eu na sala ouço os gritos da torcida entrando na janela enquanto, trás da porta, vêm gritos dos vizinhos com a televisão ligada.

Há delay. Entre um lance e a transmissão, alguns segundos. Gol!, gritam no estádio. Meu som continua tocando, minha leitura continua lendo... gol!, grita o vizinho. A tv dele faz barulho.

Se eu ouço o delay, eles também. Mas, mesmo ouvindo, o grito de gol vindo do estádio não antecipa o gol dos vizinhos. Emoções já esperadas emocionam do mesmo jeito, ao que parece.

Na cozinha a torneira solta pouca água, que cai em padrões entrelaçados. Há textura na torneira. Ao longo do fio de água as cores não se misturam: a curtos intervalos há azul e há vermelho. O filamento está listrado.

a resposta está na pergunta

O demônio dissera "não olhe para trás". Feu caminhava por horas ouvindo ecoar o conselho, ainda, em algum lugar entre o ouvido e as costas. Nem olhara o demônio falar. Não olhe para trás significa não olhe para trás. E ele não olhava.

O caminho era tortuoso, quente, voltemeia frio, quase sempre desesperador. De vez em quando, entretanto, avistava uns diabos de folga, sentados à sombra fumando um cigarro.

Escorregou numa ponte estreita feito espada. Viu um dedo do pé cair, cortado, e se perder na escuridão do precipício. "Porra!", pensou, mas não falou nada. Aproveitou a queda para engatinhar pelo resto da ponte, cortando as mãos e os joelhos. Pelo menos estava inteiro quando chegou. Sem um dedo mas inteiro.

Mantinha a cabeça voltada para a frente mesmo nos momentos em que algo lhe agarrava os calcanhares. "Não olhe para trás", afinal.

Vislumbrou ao longe a claridade. Um traço fino de luz do dia atravessava despenhadeiros, pedras, névoa, trevas, morcegos, sangue, dor, gritos, copas de árvores retorcidas e uma cortina de seda azul. Sorriu. Parecia a saída.

E era. Saindo da cratera deu dois passos até estar banhado pelo sol. Manteve os olhos fixos no horizonte, sentindo o cheiro do dia que passava pelas nuvens já distantes. Carina chegou logo após e parou a seu lado, vinda também lá do fundo do poço.

- Oi, Feu! Obrigada por vir me buscar.

Deram as mãos e saíram de perto daquele inferno.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

experimento kinsey

quando joão soube que andrea
moça bonita
transava com os homens e então publicava
contando os detalhes e os classificando
ficou cheio de si.

joão era bom, muito bom,
o mestre da transa era joão

então ele foi e propôs
a andrea
que fizessem assim:

"transamos,
você publica,
e se eu for o melhor do mundo,
como sou
e sei que
sou,
não ponha pseudônimo.
Meu nome em maiúsculas basta"

ela publicou, dias depois:

"anselmo dizia ser bom..."

sábado, 23 de julho de 2011

cinco jackson sem pandeiro


a primeira vez que ouvi
melancolia
já faz muito tempo atrás.

foi num filme que eu via
sobre os jacksons five

eles cinco eram pequenos
eu era 'inda menor
e ouvir melancolia
cantada pelo moleque
me fez pensar
melancia

que fazia mais sentido
do que a tal melancolia.

de modo que eu criança
quando sentia tristeza
do tipo tristeza boba
sem motivo ou aparência
achava que melancólico
não ia me cair bem.

eu ficava melancélico

sexta-feira, 22 de julho de 2011

cena 16, de volta


No caminho entre o bar e o voltar ao palco ela me olhava tanto, e eu olhava tanto, que não ter feito nada foi um desperdício.

O cantor chamava as gentes a dançar. No meio da pista, começo da festa, uma criança e um aleijado atendiam o chamado do homem.

No caminho de volta caminho leve, os passos rápidos e a mente cheia. Sinto os pulmões amarrados. Do lado de fora de minha cabeça o mundo segue em perfeita paz. Os carros estacionados não sentem nada demais no fim de noite que chega.

Estou prestes a ir embora e meu cabelo cresce de novo.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

cena 15, neutrox 1

Minha última ex-namorada ensinou que era bom condicionador depois de passar xampu. Xampu abre as fibras, condicionador faz fechar. Era o que ela dizia. Abrir o cabelo e deixar ele ao vento estraga tudo, de dentro pra fora.

A segunda ex-namorada ensinou que era bom, dia sim dia não, usar xampus diferentes. Tinha uma fila no nosso banheiro, no espelho do box: ao usar um xampu da ponta ele ia de volta pro fundo, pro fim da fila. Todo dia, pra não cansar o cabelo.

Minha primeira ex-namorada tinha um cabelo vermelho horrível, não me ensinou nada útil.

Quando criança eu fazia misturas, na hora do banho, na casa da vó. Botava num pote um pouco de cada xampu, condicionador, creme e tudo mais. Dali pra cabeça, e aí esfregar. Horas e horas alquímicas, lá. Eu me divertia.

Hoje, abrindo um sabonete novo, senti cheiro de banho antigo. A água caía que nem o tempo.

sábado, 25 de junho de 2011

cena 14, ulrico mursa


Certa vez vi um mendigo atropelado por um ônibus, em frente a esse estádio. Hoje, caminhando, vi Zé Ramalho levando James Brown no cano da bicicleta.

Na minha frente passam dois meninos, doze, treze anos. Um veste The Beatles, outro The Strokes. Ouço fiapo de conversa: "Você não acha que o Kiss já tinha perdido, nessa época, a..."

Mais à frente são parados por dois mórmons dos States. Loiros de camisa, gravata e mochila às costas. Provavelmente pelas roupas dos meninos, acharam que era campo fértil pra falar. Falaram pouco.

Os meninos, brasileiros, logo que desconversaram, deram mãos, cumprimentaram, seguiram andando pra lá.

Os dois mórmons vão embora, compassados passo a passo, pé direito, pé esquerdo. Dois mórmons americanos perdidos na nossa tarde.

cena 13 santo antônio em dia são joão

Foi desviar o olhar da quadrilha no meio da rua pra ver, no alto, a menina dançar com um bassê. Aquele cachorro salsicha, pertinentíssimo ao clima de festa junina. Porque em São Paulo, como se sabe, comida típica é pipoca e hot dog, talvez milho verde e bastante quentão. E vinho. Quente.

Olhando pra cima, janela de cima, no alto da casa, eu vi enquadrada a cena junina. No canto uma velha apoiada sorria, olhando a quadrilha dançar. No outro, um homem dançava com o bassê no colo. No meio dos dois, central na janela, menina pulava dançando pra lá e pra cá no ritmo velho do arrastapé, do anarriê. Ela e o bassê, no colo do homem.

Num show de viola caipira aprendi que pagode é um som lá do meio do mato, do pasto. Uma toada ligeira sem nada a ver com pandeiro. Antes eu já sabia que pagode é uma torre budista, um templo. Com pandeiro também há pagode.

A festa junina vista da janela era feita no clube de samba.

Monges budistas tocando pandeiro no meio do pasto.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

(cena) 12 sentido terminal

No início do caminho dois ônibus seguiam cheios, um atrás do outro. Era final de campeonato, dois ônibus cheios de torcedores de um time só. Começou o hino no carro da frente, ao que o carro de trás respondeu. Começou a cantar também. O tempo que levava pro hino chegar de um carro ao outro era o delay entre eles. O verso se repetia feito eco, e a torcida seguia feliz.

na volta, no ônibus em que eu tava, uma mulher com o supercílio inchado, tão inchado, que ou havia apanhado ou descendia de neanderthal

e

hoje uma criança pequena voltava pra casa ou ia pra festa, ao lado do pai, vestida xadrez, que nem caipirinha. No ônibus.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

ônzima cena


- Alô? Hm... uáááá! Como? Não. Não tem nenhuma Merlin aqui. Não. Tá. Bom dia...

O que me lembra ontem quando, andando de bicicleta pela cidade, parei no sinal vermelho. Frio, suando, atrasado. Ia eu pra aula de gaita, que era longe. Parei no sinal vermelho e olhei pra trás: vinha uma moça bonita numa bicicleta vermelha, uma moça bonita suada e atrasada, também. Parou do meu lado, cansada, sorriu e me disse OI!. Assim, em caixa-alta, com ênfase e certeza absoluta do que queria dizer. Me disse OI! e seguiu o caminho, com um residual "estou atrasada".

O sinal abriu e eu segui, pelo mesmo caminho que ela. Mas a moça, mais atrasada que eu, já estava distante. Fiquei olhando a bunda dela - sim, se alguém pedala na tua frente a primeira coisa a olhar é a bunda que mexe no compasso dos pedais, você sabe - e pensando "mas quem é essa moça? Conheço? Conhece? Ela falou mesmo como se conhecesse, não?"

E segui pedalando até o outro sinal vermelho. Em que ela parara. Sorri, ela suada, sorriu de novo e disse "estou atrasada. Para o balé, faz muito tempo que eu não vou. E ainda tenho que me trocar. Bom te ver, beijos" e foi. Definitivamente ela me conhecia, talvez vice-versa.

Continuei pedalando. A aula de gaita foi boa.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

cena dez

Sou meio disléxico. Algumas palavras simplesmente não me dizem nada. Houve numa praça, pouco tempo atrás, uma marcha. Pela liberdade. Marcha da liberdade, diziam. Disléxico que sou, não sei o que liberdade vem a ser.

Pessoas bonitas e nem tanto levavam cartazes, indignadas pela falta de liberdade, pela opressão. Numa praça. Pública. Pessoas que já conversavam com a polícia, antes, para manter a ordem, dar número de RG e posar para foto do jornal. Marcha pela liberdade.

No outro canto da praça circular um mendigo dormia. Vi a viatura da guarda municipal subir na calçada, subir as escadas e dizer ao mendigo "FORA DAQUI". A viatura era brava, cumpria ordens e não deixava o homem dormir.

Do lado de lá, pessoas bonitas erguendo cartazes.

O mendigo fedia, tinha muito sono e pouca dignidade, naquele momento. Cheguei perto, entre ele e a viatura, porque eu não sou de levar cartazes pela liberdade.

Do lado de lá, pessoas encenavam alguma coisa. Não pude ver, estava ao lado do mendigo sonolento. A viatura foi embora, olhando feio, o mendigo levantou aos poucos, dobrou coberta, vestiu mais roupa, pegou a mala e saiu pelo frio afora.

- Ei! - disse eu - os caras não te deixam dormir? Fique aí, meu velho. Deite ali do nosso lado. Lá eles não vão te importunar.

- Não. É foda. Deixa. Vou andar pra lá. Essas pessoas aí na praça não iam me querer perto delas.

Sou disléxico, eu disse. Liberdade é um bairro em São Paulo.

anotações para um romance nada romântico em clima de festa junina


o coração bombeava sangue pelas veias
e nas vielas a bomba ensanguentava
as muitas velhas
que eram velhas demais pra não olhar

o caminho daquela rua estava claro
com o clarão de pólvora cheirando a fogos
e crianças rezavam a são joão
para que não se apinhassem mais os corpos

porque o balão que subia aos céus
só por sorte desviava do dilúvio
em que bombas eram gotas que choviam

de joelho sem os pés
o menino vestido de josé escutava o fim da noite




segunda-feira, 13 de junho de 2011

cena banal (da) nona

Eu, minha vó e sua neta ali na sala. Seis anos, a menina, fazia aquele dia. Toca o telefone, ela corre pra atender. Minha prima. "Não, não, ele não. Não, o Waldemar morreu faz anos. Noooossa, faz anos, meu deus, muito tempo mesmo. Meses. Faz meses. Tá, de nada".

Desliga. Eu rio, vó ri, do telefone vem a prima, "Não sei por quê todo mundo liga aqui pra falar com o Waldemar, meu deus, não sei. Tsc, ele já morreu".

Noutro dia ela olha pro relógio. De pulso, novo, talvez ganhou no aniversário. Fica olhando, olhando, e a gente olha pra ela. "Ah! que droga! Esse relógio tá quebrado. Olha, olha os numerinhos: eles não param de mudar".

segunda-feira, 6 de junho de 2011

resposta a João Cabral

o amor não comeu nada
porque estava já sem fome

o amor não tinha estômago para engolir o que lhe davam
esses homens

o amor tentou comer um caldo verde
que era leve e estava frio
mas o estômago ulcerado não deixou

não sobrou nada para o amor

percebendo que a dieta era forçada
decretou-se o jejum
e o amor não comeu nada

jour de belle inspiration


enquanto penso em ti
ouço o som de uma harpa
ecoar em algum canto

não penso mais em ti
senão que gostaria de tocar
a harpa
por mim mesmo

mas a harpa pára
e não penso mais na harpa
só penso em te
tocar

cena banal eight(8)

caminho para a aula de hoje à tarde. É tarde, o sol já vai se pôr. Está se pondo. Passo reto pelo corredor que leva à sala: atrás do prédio o sol se põe. Está naquele momento em que faltam poucos dedos pra afundar no horizonte. Atrás do prédio, pra lá dos prédios, pra trás dos montes, o sol começa a bater azul-alaranjado na copa das árvores distantes. Distantes de tudo, as árvores, e eu sentado atrás do prédio da sala de aula a olhar.

Uma mulher, de repente, aparece. Chegou também para o pôr do sol, percebo, é da mesma sala que eu. Também está atrasada pra aula, mas resolveu que o sol vale mais. Sorrio, sem olhar pra ela, para não perder o fogo queimando o fim do mundo à minha frente. Que bom que não só eu olho o sol...

mas ela aponta pro céu uma câmera digital, bate uma foto e vira as costas, indo embora. Agora ela tem um belo pôr do sol eternizado, e eu chego na sala atrasado, mas tendo a memória de um sol azul.

domingo, 5 de junho de 2011

ais


adoro a diferença sutil entre teus olhos. O arquear espontâneo de uma sobrancelha e o jeito que a outra pálpebra fica semiaberta. Adoro te olhar enquanto tu me olha, com teus olhos estranhos e meio tortos, com teu olho esquerdo a se fechar um pouco. Adoro te olhar. Parece que sempre, sempre, estás piscando pra mim.

sábado, 28 de maio de 2011

sétima cena banalíssima

Toca o interfone, a irmã atende. Não é ninguém. Continuo na sala ao som tocando, martelo agalopado. Escrevo um texto sobre o zen e o imaginal. Toca a campainha. "Quem é?" e a irmã responde, lá de dentro, "Não era ninguém, ora". Mas alguém está à porta, alguém tocou. Vou lá e abro. Num passo à frente, quase dentro da casa, uma menina de roupa de escola em pleno sábado olha pra mim, olha pro teto, olha pra porta, com uma cartolina gigante dobrada nas mãos. "É, oi... é... ahn... AH! Desculpa, desculpa, desculpa... desculpa". "Desculpo", eu falo.

E ela sai miúda, subindo as escadas dizendo "É no quarto andar, é no quarto andar".

quem trouxe você fui eu...


Que sensação estranha é se frustrar
após dez anos de tranquilidade.

Li Tao Ming, mandarim, século VIII

Mal acabara de sair da casa, resolvi voltar. Deixei meu ônibus passar batido pelo ponto e andei, na chuva, de volta ao prédio em que estava. No caminho, ridículo, fui pensando no que dizer ao entrar de novo, depois de ter dito que ia embora.

A chave na mão serviria para mentir “Ah, esqueci a chave em algum lugar, só notei depois”. “O ônibus demorou demais, resolvi ficar um pouco e ir daqui mais tarde, só” também funcionaria. Sem contar com o improviso ou o silêncio, que muito bem fariam o favor de me ajudar. Ora, apenas voltei, qual o problema?

Lá estavam a moça e o dono do apartamento, dormindo jogados quando saímos. A moça. Era por ela que eu voltava, depois de ter ido embora semi-covardemente. Notem: a noite começara por ela, por causa dela, só por isso. Mesmo. E ela foi comigo, no fim das contas, para o fim da noite na casa de alguém. Lá, entretanto, não ficara comigo, mesmo tendo ficado... não ficara, de fato, e não pude deixar de notar que, talvez, mesmo ali ela tivesse já ido embora.

Então, quando fui, pensei que seria justo, no mínimo, deixar a menina dormindo e sumir sem me preocupar. Ela não dera mesmo atenção, não se importara. Ora, ela mal me notara, depois do começo, e foi toda derretimento para o hippie violeiro que chegara lá depois.

Ainda assim não pude ir embora, no meio do caminho. Tive de voltar. A moça estava lá, afinal, era para isso que eu voltara à cidade. Pela moça. Que merda, moça estranha, por quê?

Chegando na porta certa, com a mão sobre a maçaneta, notei que ela não se abria. Desisto. Viro as costas, vou embora. Posso mudar o caminho, mas não discuto com portas fechadas.

domingo, 22 de maio de 2011

cena banal seis

Ormarg caminhava apreensivo. Um amigo seu, Vermorc, arranjara aquele encontro havia duas semanas. Um encontro às escuras, dissera o amigo, um encontro às escuras com uma fêmea que ele conhecera certa vez.

Não era necessária muita insistência para que Ormarg aceitasse o programa: estava sem parceira já há muito tempo, subia pelas paredes se não estivesse em campo de batalha. Vermorc dissera que a fêmea era boa, uma grande, encorpada, bem comos gostam os orcs.

Na beira do mar encontrou Ormarg sua dama. Ela sorriu para ele, virou as costas e garbosamente bateu com o rabo na superfície da água. Era uma orca e tanto.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

des regardes


dizem que o amor é cego
e a beleza está nos olhos de quem
vê

ouve, então,
que és mais bela que a lua
no verão

e eu não via
antes de te conhecer
nem um palmo à frente do nariz

não que agora estou feliz,
ou que meus olhos te embelezem:
és bonita se te veem
ou se se fechem.

sábado, 14 de maio de 2011

quinta cena banal


O homem estava sentado no balcão do bar, com sua cerveja. A mulher bonita e maquiada, num vestido novo, chegou pouco depois e sentou a uma mesa. O homem se espantou com a beleza dela. Ela, por sua vez, pediu um vinho à garçonete. Sentou sozinha.

O homem viu, viu, ficou olhando e pensou, “já que ela está sozinha, vou olhar até o fim desta cerveja”.

E olhou. A mulher percebeu, pelo meio da taça, que o homem a encarava. Ficou sem jeito, assustada, tomou mais vinho e, fim, pensou: “ora, que audácia”.

Na outra taça chamou, com o dedo, o homem balcão do bar. Ele sorriu, sorriu, achou que tinha dado, que ela daria. Chegou à mesa todo sorriso, de orelha a orelha, falou “pois não?”

“Poderia, por favor, tomar vergonha na cara e parar de me olhar?”

cenas banais IV

ouço o menino de um vizinho vomitar até as tripas, em algum lugar aqui no prédio. É madrugada, o menino passa mal. Muito. Grita enquanto gorfa, como se o peito estivesse saindo pela boca, como o estômago, feito o resto todo se desfazendo em água.

Quando mais velhos, na metade da vida, não passamos mais tão mal como crianças faziam. Quando éramos crianças, digo. Passar mal feito esse menino, acordar os pais no meio da noite e ser carregado no colo, colocado no carro, levado ao pronto-socorro onde não te atendiam de pronto, mas ainda assim, no meio da madrugada, acordado, com os pais ali ao lado.

O menino ainda vomita. Parece que nenhum pai acordou. Parece que nem vai, parece que ao menino só resta mesmo a pia, privada e a fraqueza muscular.

Amanhã, o mal estar será o meu.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

terceiras cenas banais


entre gozos, juraram se foder para sempre. Depois, nunca mais se viram. Era patético o quanto de desprezo existia no próprio corpo que esporrava. No futuro essa palavra só seria xingamento: porra, caralho, vai tomar no cu!

Não agora. Entre lençóis, enquanto o outro no chuveiro, o um pensava pelos poros que queria ir embora. Mas não ia. Tinham pela frente pelo menos alguns dias... enquanto um voltava escorrendo água, o outro escorria por baixo da manta pra fora da cama, pra fora da casa, com o pé nu na terra ao quintal.

Num misto de querer e de não, metiam-se os dois por entre as roupas jogadas no quarto, por entre os vasos, por entre si, repetidamente, até que a única alternativa fosse sair, vestir alguma coisa mesmo que desconfortável e sumir na escuridão.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

segundas cenas banais


hoje fiquei horas olhando um passarinho. Horas de pássaro, claro, horas que passam em poucos minutos. Seja como for, o passarinho brincava de beija-flor, voando parado tentando catar com o bico uma fruta. Frutinha. Coitado do passarinho, não pode ir ao mercado comprar com dinheiro e encher o carrinho. Que horror!, não acham? Que horror...

Minha primeira profissão foi astronauta. A segunda, marinheiro. Quando tive 12 anos desisti de ambas as duas e pronto, cá estou, nem um nem outro. Nunca fui ao cosmos, pouco estive ao mar. Mas ressoa em algum ponto a questão do sempre estar, astronauta ou marinheiro, longe do lugar. Como se o deslocamento fosse mesmo a profissão de fé que a mim me coube. Sabe? Soube?

sexta-feira, 29 de abril de 2011

cenas banais

alguém na fila do banco cheirava a frango com curry. Do outro lado, cheiro de couro com suor de capacete. Parecia Mad Max indiano, aquela fila. Olhando pro fundo do banco, paredes remendadas com demão de argamassa faziam-me pensar que um assalto cinematográfico nunca poderia acontecer ali. seria ridículo, se rolasse. Sentia mais próximo de estar no Iraque do que qualquer outro lugar.

Olhando bem de perto, as pessoas são horríveis. Somos, sem medo de afirmar, uma das espécies mais feias do planeta. Notem bem, qualquer outro mamífero parece mais simpático. Nunca vi um bicho de pelúcia com cara de humano. Isso deve significar alguma coisa.

Na volta, o gosto do palito de sorvete do sorvete coreano me lembrou de pediatras examinando a garganta.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

um homem com uma flor
caminha através do mundo
crianças
correndo aos gritos
caminham por entre flores
que bela cena
fresca e bela
é observar, da janela,
esse eterno caminhar.
gritos de crianças
purezas de crianças
e flores a passar

quarta-feira, 27 de abril de 2011

altar de ater o tempo

é assim que ele domina o tempo -
num altar de flores
podrecentes.
com flores a morrer é que ele
diariamente
oferenda ao velho tempo que lhe passa
sua graça
e danação;
num altar de flores que apodrecem.

Uma série de deuses

ou Adeuses de sereias

há coisas que
a teus olhos
ainda não brotaram.
uma série de deuses
de crenças
de revelações.
Há coisas que ateus
não vêem.
mas há tempos que crêem,
ateus ou não,
em sinais, em contatos
imediatos
há tempos que a água
com seus sais
- de suor
ou de lágrimas -
há tempos que as vagas
tuas ondas
batem em meu cais.
E isso, amor,
teus olhos já notaram.
Há, apenas o medo de aportar.

terça-feira, 26 de abril de 2011

não sei se há verão


não sei se há verão
de onde vocês vêm
não sei
só sei que, donde venho,
há um vento verso e vário
que, soprando em tais horários,
traz a chuva, o amor
e mais.
não sei se haverás
de saber por onde corro
não sei se ouvirão meus pedidos de socorro,
meus ais...
não sei se atenderão a porta
à campainha,
para abrir a uma visita ilustre
e esperada.
É claro que não sei de nada!
quem saberá?
não sei se há verão pra onde tu caminhas
mas leva minha voz
meus olhos
e esta lanterninha pra iluminar toda tua escuridão.

parole, parole, parole

quando eu digo morte, pensas perda
quando digo amor, pensas paixão
quando falo vôo, avião
quando eu tragédia, pensas merda!

às ideias se dão sentidos vários
as palavras são fogos de artifício
as pessoas são maus incendiários

segunda-feira, 25 de abril de 2011

oração a Nossa Senhora dos Portais, a guardiã do óbvio caminho


Nossa Senhora dos Portais
vivei
e vinde a nós, mortais.
Nossa Senhora,
crêde
que damos a vós nossas horas
e sêdes.
Nossa Senhora dos Portais
dai a mim a chave-mestra,
a tetra
e o umbral.
Protegei-nos do mal, Nossa Senhora do eterno trespassar.
Valei-me, Nossa Senhora,
Nossa Senhora dos Portais
e permita que eu, agora,
entre.
Permita, Nossa Senhora.

agora, 02/11/2008

quinta-feira, 31 de março de 2011

Uma noite de blues em Santos


a Helena e a ela

Na verdade foi tarde. À tarde. Montaram a aparelhagem no meio da calçada, num centro da cidade, beirando a noitinha. Era mais de sete quando a coisa começou. Mário Bortolotto, Fábio Brum e Marcelo Watanabe tocando um blues na guitarra acústica. Violão. E o amplificador amplificando um som que quase nunca rola na cidade.

Era lançamento de livro, "DJ", do Mário, e tinha uma porrada de outras coisas sobre a mesa. "Atire no dramaturgo", "Nossa vida não vale um Chevrolet", "Bagana na chuva", tudo que eu gostei mas não comprei, porque sou um filho da puta dos diabos. Simplesmente é assim. Qualquer hora compro.



E quando vi a moça da TV coordenando a reportagem, entrevistando Mário, ela piscou pra mim. Sim. Mas foi bem natural, pois já a conhecia de antes do jornal. Antes da TV. E foi fiquei feliz de tê-la visto ali, depois de sei lá quantos anos sem. Ver.Justificar

Dizem que a TV deixa as pessoas mais bonitas. Hei de concordar. A menina ficou linda depois de se empregar. E quando a vi na tela nem imaginei, mas ela ali na rua, na loja Realejo, foi sinceramente de causar um blues de espanto. Ou, talvez, eu simplesmente nunca tenha visto direito. Antes. Mas hoje vejo. Ou, pelo menos, vi hoje mais cedo.

Precisava de um blues. E, se querem saber - o que vocês naturalmente não querem, mesmo porque nem há "vocês" aí - precisava dela, também. De a ver. Fora da TV.

domingo, 27 de março de 2011

Canções das Crônicas de Lalonge - II

A batalha já perdida
a batalha já perdida
olhe o exército arrastado
no deserto.

Olhe sua carcaça,
os seus ossos,
sua carne,
a batalha já perdida e a guerra quase.

Onde está o nobre cavaleiro?
Onde o nosso brado de vitória?
Cadê o guerreiro legendário
que a lenda diz trazer a nossa glória?

A batalha já perdida
a batalha já perdida...

sábado, 26 de março de 2011

Canções das Crônicas de Lalonge - I


areia e tempestade
sacodem o acampamento
areia e tempestade vêm com o vento
desde o céu
e todas tendas sentem
o mesmo do que eu

areia e vento voam
em volta disso tudo
ficar é absurdo
e ter que esperar...

as águas caem forte
silêncio aquieta fundo
areia e tempestade
o fim do mundo.

será que ela sabe
que a espero?

sábado, 5 de março de 2011

carnival


ela vem
e ela vai
e ela vem
e ela vai

e vem

e vai

e pára.

aperto as coxas e ela vai
e eu digo “não, não vai,
espera,
porra
eu vou
...”

eu fui.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

poema perdido numa Gramática

saí
e à prima estrela pedi a mão.
a mão de alguém,
não sei,
a tua mão! e mais
além.

pedia a mão e ria
à lua, à míngua,
e ela, minguante,
a mim sorria.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

menino de sucata

No fundo da lata
de lixo
no vício
da dama
que compra
que esbanja
e descarta

um pobre menino
sem pátria
sem vício
sem lata
de cola
sem grana
da esmola

coleta a garrafa
e amarra
na sola da pele
do pé com que joga
a bola

protege do prego
do quente do asfalto
no meio do lixo
em que mora
e trabalha
catando sucata
papelão e lata

menino sem nome
com fome
sem prato
que cresce
aos poucos
achando um barato
o pouco que acha
no lixo
e na lata.