domingo, 5 de julho de 2020

O ovo normal

Começou com um ovo. Na rua, o carro passava chamando ao megafone, enquanto aqui dentro dormíamos eu, minha gata e a água da chuva que havia meses se infiltrava pela fresta.
A fresta era uma falha sobre a janela, no batente, que não estava lá quando chegamos mas pouco a pouco foi se formando. O senhorio disse “Culpa da chuva!” e nem contestei. Melhor que pensasse assim e não “Culpa sua, cobrarei no aluguel!”. Acontecera, em outra casa. Não que a fresta fosse a mesma, mas...
O megafone chamava da rua, eu pensava se ia ou não ia debaixo de chuva, maior aguaceiro, buscar uma bandeja de ovos para garantir a semana. A gata me olhava meio duvidosa, meio dormindo, e a fresta chovia. Resolvi, bem, por que não?
Naquele tempo eu ainda tinha uma capa de chuva, herança de meu avô. Era bem velhinha, bem velhinha, mas de um tempo engraçado quando as coisas eram feitas para durar. Meu avô, segundo minha avó, pescara muitas e muitas pescarias com aquela capa carcomida, numa cor meio de mar. Vesti a capa já saindo pela porta, molhando um pouco o pijama no processo. Não se brinca com o carro do ovo que passa: ou a gente corre, ou nunca que alcança o carro.
Lá ia eu, então, e lá voltava: bandeja de ovo na mão, o aguaceiro ainda aguando as plantas todas de meu quintal, o telhado da casa, a varanda inteira molhada, eu molhado, a capa de chuva encharcada e a janela, pelo lado de fora, também deixando vazar a fresta. Um pouco maior, parecia, do lado de fora que por dentro. “Dá nem pra tapar,” pensei, sabendo que dava nem pra tapar enquanto a chuva não cessasse.
Com cuidado para não derrubar os ovos, tirei a capa e a pendurei na entrada, ao lado da porta. A bandeja, coloquei sobre a mesa da sala, que na verdade era a cozinha também, e um pedaço do quarto. Casa de arquitetura estranha, velhinha, bem velhinha, mas veja bem, ainda em pé depois de décadas. Quem sou eu para reclamar da casinha de vovô?
Voltei para o quarto e deitei outra vez, um pouco molhado, molhando o colchão. A gata se estirou e pulou fora, indo à ração, depois à água, depois à porta, olhando o quintal onde choviam cântaros e um ou outro passarinho ainda cantava em meio ao sonho sob as telhas do quintal.
A fresta parecia maior, olhando agora. Não que entrasse mais água, mas o espaço entre o reboco e a janela parecia. Maior, como se fosse pouco a pouco se desgastando. A olhos vistos eu ia vendo, meio molhado, a gata sumida sob a chuva, bandeja de ovos na sala, ia vendo a fresta se alargando. Tomando certa forma. Ovalada, assim, digamos. Notei que bocejava, mas já ia a meio sono.
Quando acordei, a gata se enrodilhava em meus pés. Encharcada. Parecia a própria chuva sobre o colchão. Como se fosse nuvem carregada. Dormia, a gata, e eu despertava num quarto sem luz. “Ué!?” pensei. O celular sem bateria não me deu lanterna, e corri os olhos pra janela. A fresta, e só a fresta, iluminava a água que ia escorrendo parede adentro. Eu não enxergava a janela, não sei por quê, mas a fresta estava lá, frestíssima, aberta, oval, aguando a parede e o chão. Acumulando água e cal, tijolo e lodo sobre o assoalho pouco encerado da minha casa.
Não que eu enxergasse o chão, tampouco, não. Mas a água escorrendo ia assim, trazendo um reflexo de luminosidade. Eu via a fresta rebrilhando o quarto, mas não via o quarto, e sentia a gata encharcada a meus pés, mas não via os pés. A chuva continuava aos potes, feito macondo. Pensei em me levantar para comer algo, talvez um dos ovos que eu trouxera pra dentro... naquele dia, mais cedo? No dia anterior? Ou fôra meu avô que correra lá fora a comprar, na carroça, uma dúzia de ovo a Seu Zé?
Aquele cacarejar que acompanhava a chuva, o quê? Algo molhado se remexia a meus pés, ciscava, um miado esquisito. Meus olhos abertos viam apenas a fresta, uma fresta, a água escorrendo, acumulando-se, eras e eras, onde eu estava? Ouvia lá fora o marulho e o rumor das penas ao vento, a fresta ia crescendo, ovalando, chamando aqui dentro alguma ação, como que um sonho. Senti meu bico, frágil e jovenzito, forçar a fresta como se fosse tudo, como se fosse a única coisa possível. Tudo que eu podia fazer era forçar aquela fresta, lutar contra a água, sair ali para um mundo novo. O que me esperava?

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Mar de Viração: crônicas de uma ficção, parte II

Em “O Naufrágio do Aqueronte”, primeira novela de “Mar de Viração”, a convalescença é um personagem. Enquanto a leitura singra o mar atrás de futuros, em alguma cabine alguém convalesce, ouvindo música para os ouvidos e palavras de uma criança para o coração. Margarida, a menina que abre o Naufrágio, vai pouco a pouco ajudando a fechar as feridas da escrita.

Essa história foi gestada em um momento de quebra, e talvez pela quebra ela tenha gerado saúde. Ou tentativas de saúde, máximo que qualquer criação humana permite. Poucos anos antes eu morava além-mar, e minha volta ao Brasil trouxe junto uma volta a realidades que andavam distantes: velhice, adoecimento, uma avó aos poucos definhando, o barco tendo que seguir apesar disso, a família tendo que se entender justo por isso.

Não admira que Daniela Delias tenha escolhido o início do Naufrágio como uma das epígrafes de seu “Nunca estivemos em Ítaca” (Editora Patuá, 2015), livro-síntese de poemas em que estar ou não estar são estágios relativos. São passos – e entendimentos – da jornada.

Epígrafe em "Nunca estivemos em Ítaca", de Daniela Delias (Patuá, 2015)

O começo de “Mar de Viração”, assim, foi dado ao mundo antes mesmo de agora. E, pensando bem, graças a todos os deuses foi assim: desde há muito eu duvidava – e talvez duvide um tanto – do processo de publicar efetivamente uma história, de fazer a escrita, que às vezes chamamos literatura, circular. Mas publicar também é uma espécie de tradução, mediação, criação de pontes entre mundos possíveis – vistos, vividos, inventados, varia.

Aprendi isso antes mesmo de publicar, aliás, com pelo menos dois grandes nomes da literatura e da tradução deste país ao qual voltava no Naufrágio, e a quem sou eternamente grato pela ternura e amizade. Marcia Heloisa, minha preceptora nos caminhos da tradução – a quem devo inclusive uma das profissões a que me dedico – dizia desde nosso princípio: permaneça escrevendo, continue seguindo, vá fazendo o texto em forma de dom, de doação, de Dana (como chamamos a entrega no budismo, a caridade, a generosidade irrestrita). Siga seguindo a vida e, a propósito, como dizia um grande livro que Marcia traduziu, “NÃO ENTRE EM PÂNICO!”

Alberto Lins Caldas, poeta gigantesco, certa vez me disse quase o mesmo: você (eu, no caso) é de escrever histórias. De contá-las. Deixe que as editoras editem, que os circuladores circulem, que o caminho se encaminhe de carregá-las. Não sei propriamente se sou, mas ainda assim continuo escrevendo – tenho continuado, possivelmente continuarei. Escrevendo, traduzindo, ouvindo o som das palavras todas, até das que não chegam.

É uma espécie de fé, essa existência.

--


Mar de Viração será publicado no segundo semestre de 2018 pela Editora Moinhos. Aproveitem o ensejo para acompanhá-la nas redes sociais:

https://editoramoinhos.com.br/

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Mar de Viração: crônicas de uma ficção, parte I


Agora que teremos Mar de Viração publicado pela Editora Moinhos, ao que tudo indica antes de dezembro de 2018, pensei poder falar um pouco desse livro. Pra mim mesmo, ao menos, se as crônicas dessa escrita não interessarem a mais ninguém.
De partida, defina-se o que é o Mar: três conjuntos de histórias, escritas em momentos diferentes, mas na sequência de meses entre fim de 2013 e fim de 2014. “Naufrágio do Aqueronte”, “terra húmyda” e “Santos'agrados” são seus nomes.

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Foto: Thomas Kodaky
O Naufrágio foi inicialmente publicado como folhetim, e embora possa ser conto eu a considero uma novela. Mas talvez seja um romance em forma de bonsai. Não sei, deixo aos críticos e teóricos literários do hipotético futuro, pois eu mesmo já larguei minhas credenciais de teórico há algum tempo.
Naufrágio do Aqueronte é uma história que contém outras histórias dentro, mas poucas, pinceladas, contadas por personagens nos entreatos da grande história, desse naufrágio. A primeira cena é Margarida, uma menina, olhando o molhe e as águas molhando suas pedras, antes de embarcar no navio. E é no navio que se passa praticamente toda a história. Afinal, se naufrágio...
Em tempo: Daniela Delias, poetíssima, usou o começo do Naufrágio como uma das epígrafes de seu ótimo “Nunca Estivemos em Ítaca”, saído há alguns anos pela Editora Patuá.

Já terra húmyda nunca foi publicada, e o pouco que se sabe desse livro, isso sim uma novela, mas também contação de estórias, apareceu numa nota de jornal. Em 2013, fim de ano, o pernambucano Jornal do Commercio pediu a escritores que comentassem o ano literário, em retrospectiva. Micheliny Verunschk, que dispensa apresentações, assim apresentou a história: “Acompanhei, recentemente, a escrita vertiginosa da novela "terra húmyda", de Leandro Durazzo, autor radicado em Santos, SP, e ainda inédito em livro. Sem dúvida, uma das melhores coisas que li nos últimos tempos.”
Em 2013 eu passava alguns meses em Santos, terra natal. Dali “terra húmyda”, portanto: novela que conta de andanças, casas, matas, buscas e quebras – de expectativas, de esperanças, mas também de ilusões. E, vejam, se há algo de que me convenço é isto: ilusões quebradas são mais saudáveis que quaisquer outras.

Santos'agrados começa pelo título, embora o título tenha surgido apenas depois dos solilóquios escritos: é passagem rapidíssima de um texto enorme, “Os morcegos estão comendo os mamãos maduros”, do experimental Gramiro de Matos (ou Gramirão, ão, ão). Nele – Santos'agrados, não Os morcegos... – ouvimos vozes. Três personagens velhos sábios cansados velhos, um pouco santificados, bastante não, contam histórias e soliloquam. Um vendedor de peixes, um vendedor de mate, um santo canonizado. Não são as histórias que importam, nos solilóquios, embora cada fragmento de conto seja um romance inteiro, até onde sabemos. O que importa mesmo são as vozes, a audiência, a escuta e sobretudo o silêncio que permeia tudo.

Amanhã, talvez depois, talvez jamais, seguiremos nestas crônicas sobre o processo que é Mar de Viração. Feito onda, a ir e vir, bater e rebater, coar e ecoar.


Aproveitem o ensejo para acompanhar a Editora Moinhos:

https://editoramoinhos.com.br/

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

meu altar
agora é um formigueiro. a entranha da madeira dá guarida
às formiguinhas. milhões de muriçocas esvoaçam
pelos ares, o vento agita as plantas e os palmares.
no muro que separa minha vila da vizinha,
por muito tempo houve uma passagem, um portão.
agora não. o muro foi tapado e a passagem, muro novo, destoa
do antigo só um pouco. outro dia, indo à praia, salvando o sol ardente
na carcaça, eu vi um lagartinho escalar o novo muro.
ali, onde antes se podia atravessar, agora é escada.
lagarto indo ao céu é nosso anjo, e sob o meu altar, no entretanto,
formigas, budas, santos vão morando.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Precisamos falhar sobre isso

Nestes tempos de vida social e democracia fragilizadas, se é que existentes, precisamos falar do Buda. Sim, do Buda, mas não o chinês gordinho sentado sobre moedas - esse é um outro tipo de buda, e alguns budistas nem gostam de dizê-lo buda. Enfim... - Temos que falar sobre o Buda e sua realização mais que óbvia - desculpa, Buda, mas fica óbvio depois que a gente aprende - sobre os três venenos: ignorância, apego e ódio. Poderíamos traduzir por outros termos, também: em vez de ódio, raiva. Mas fiquemos com ódio.

Digo, não fiquemos com ódio. A opção tradutória, entretanto, basta. Tem-se falado muito muito muito em ódio - tem-se falado em ódio de uns e de outros, e de formas odiosas, e de formas raivosas mesmo. "Odeio aquele que odeia! Estou do lado certo da história, por outro lado. Posso odiar à vontade."

O Buda diria, e foi isso que ele disse, mais ou menos, a crer nos ensinamentos que a tradição vem passando há mais de dois milênios; diria o Buda que o ódio à ignorância leva, a ignorância ao apego leva, o apego ao ódio leva e assim sucessivamente. Diria também Yoda.

[os três venenos se retroalimentando, no centro de um grande quadro cosmológico budista sobre o ciclo da vida]
Agora vejamos: ódio, apego, ignorância; ignorância, apego, ódio. Cadeias de causalidades, estados mentais, disposições e predisposições do corpo e da ação, da fala, da mente, dos atos, da visão. Porque através desses venenos, diria o Buda, vemos o mundo e agimos nele, ou não agimos, mas ainda o vemos e o classificamos: ódio, ignorância, apego. "Estou do lado certo da história, entretanto, então não há problema."

Exceto, claro, que o ódio, a ignorância e o apego, só pra citar três venenos, são um problema em si.

Longe de mim oferecer soluções - perdão, não tenho a menor capacidade de oferecê-las. Longe de mim oferecer soluções e dizer que não vivo também entre ódios, ignorâncias e apegos. Longe de mim. Mas, de algum modo, mesmo minimamente, mesmo pouco, mesmo às vezes, é bom saber-se envenenado. Porque, sabe como é, como diria o Buda e a democracia direta, cada um saiba de si e, sabendo um tanto, ajude a tocar o barco em que todos, juntos, seguem navegando. Querendo ou não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

querido diálogo I

- É preciso entender o ritmo das águas-vivas - ele dizia - e saber nadar no meio delas.

- Como se fosse possível.

Ergueu os olhos para a descrente, sorrindo um pouco.

- Por que eu mentiria?

- E eu sei lá? Talvez pra me convencer.

- Te convencer de quê?

- De que é preciso entender o ritmo das águas-vivas, saber nadar no meio delas, em vez de ficar na areia segura e seca.

Baixou os olhos, sorrindo um pouco. Ela já cria.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

tripitaka

A Editora Medita lançou, recentemente, meu primeiro livro de poemas. Ele se chama tripitaka, apresenta um porção de textos escritos ao longo das minhas jornadas monásticas e nem tanto, tem um projeto gráfico belíssimo e é barato.

O míseramesa recomenda entusiasticamente e eu ficaria feliz se todos meus amigos, leitores e interessados tivessem um exemplarzinho em casa. E lessem um exemplarzinho. E recomendassem, e dessem, e torcessem para que ele tivesse sucesso nessa caminhada.

O tripitaka pode ser comprado aqui, por R$ 20,00 (vinte reais, meus caros. É quase nada!)


sexta-feira, 28 de março de 2014

nada demais: retorno

Pra todos  os efeitos, deve fazer um ano que não medito. Quase isso, pouco mais ou pouco menos, e a última vez foi bem longe, em Portugal. Onde eu morava. Agora, aqui na Argentina, ouço o mantra de Ksitigarbha, meu abençoado padroeiro, bodhisattva dos mortos, das crianças, dos infernos.

Explico, breve: bodhisattva é um ser que, no budismo, faz votos para não atingir a iluminação. Isso porque, iluminação atingida, o nirvana alcançado, nunca mais renascimento, nunca mais vida terrena - ou, cosmologicamente falando, nunca mais vida em reino nenhum da existência.

Bodhisattvas, então, são seres que dizem "não". Que param no Caminho para ficar até quando for preciso, para poder estar em todos os reinos da existência em que seres em sofrimento e ilusão estejam precisando de uma mão, uma palavra, um empurrão. Varia. Ksitigarbha fez um voto - grande voto, na minha opinião o maior deles - de ir para os reinos inferiores, infernais, e lá ficar até que não houvesse mais nenhum ser naquele plano.

E lá está, até agora, considerando que o inferno anda sempre abarrotado.

A última vez que eu tinha meditado, pelo menos que eu lembre, na sala de Sapadores, minha casa velha em Lisboa, sentado de pernas cruzadas e cara virada à parede, tocava o mantra dele, Ksitigarbha. Dizang Wang Pusa, em chinês, porque eu tô mais pra China que pra indiano.

De lá pra cá foram oceanos e mares, continentes, mudanças, mortes, renascimentos, respirações, andar por um labirinto, e no fundo da minha mente passava "preciso voltar a isso".

Mas não voltava.

Até que sim, pura e simplesmente. Meu São Cristóvão transportou de lá pra cá um que faltava, e perto do Rio da Prata olhei pra Ksitigarbha, ouvi ao que ele dizia, que diziam dele, e parei. E volto. E soa o manto da voz divina. Ou infernal, depende do ponto de vista.

Simples. Nada demais.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

cena bambanal

As cenas banais perderam os números. Perderam os números, os nomes, um tanto da memória, as cenas banais. Perderam a hora, saíram de tarde, seguiram pra praia sem nada, só berma sem nem um dos pés de chinelo, nenhum. As cenas banais já são algo comum.

Perto do mar, solas quentes queimadas na areia no sol, perto do mar e eu sem óculos, lá longe duas meninas pequenas lindas lindas negras de maiô davam estrelas, estiradíssimas, duas belas bailarinas as duas meninas. Uma, a mais velha ou maior, rodava rodava rodava com as pernas e os braços e as asas na areia, estrela perfeita. A outra, quase. Duas meninas lindíssimas, duas pequenas virando estrelas no mar.

Depois corro, como sempre, corro sempre, corro. Pela beira d'água, espelho do céu, mar, chapinhando água lama nas chapinhas nas crianças nas loiras de bunda grande nos cabra de braço armado nos frescobol. Paro. Uma maça de capinha azul no chão, um telefone, mil de reais condensados. Na água, sendo banhados pelo azul de Iemanjá. Pego. Funciona.

Sento na areia, procuro contatos, faço contato, Irmão, Teu Irmão Se Lascou Aqui, Perdeu O Celular Da Maçã Novinho Em Folha. Porra!, Não, Vou Aí Buscar. Demorou, Tô Na Areia. Estou. Na areia, sentado, queimando os pés no sol fritando as ideias. Atrás, nos coqueiros, uma moça caminha na corda bamba, dança, gira, pula, cansa, sobe de novo e anda.

Ando. Falo. Espero. O cara aparece depois de um tempo, e nesse tempo ainda estou caindo mais que mamãos maduros comidos por morcegos, estou. Mas por pouco tempo. Ando. Ando e ando e volto, mão num coqueiro e noutro, levanto na faixa com a coluna reta como se meditasse, como se fosse um templo a praia em que estou andando, em que estive correndo, em que vi no começo duas meninas negras lindas lindíssimas virando estrelas do mar.

O sol, acima, brilha.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Bonito, isso. Esse teu acabrunhamento. Feliz, fica a contento de nosso encontro. Bonito, isso."

AURELIANA, Dona

---

não escrevo mais poemas.

---

de minha parte
não gosto de quem se define
de quem se dá nome
se engessa em certezas em egos
marcados
por cartas já dadas

por exemplo
tivesse eu que me definir, agora, me nomear
diria que sou nem
só pra poder marcar
o que não marca

---

ano
de vagões descarrilados
pássaros em chamas ano de enfado
fado dramas
bananas plantadas ao vento
coração de bananeira trepadeira tempo
cafés servidos ao alto do céu sem fundo
sentimento do mundo dolorosamente quieto
súbito
sutilmente confuso
profusão de espinhas gélidas
de elas e elos e eus

ano descarrilamento fé febre deus

---

hoje nasceu um buraco
nas fímbrias do pensamento
hoje brotou um lamento
no ramo mais alto do arbusto

não acho justo
mas é
natural
que as coisas não fluam

nem tudo é rio

---

por favor
com licença
obrigado
zumbi
headshot

palavrinhas mágicas

---

ô,
black friday, nêgo
lima essa fernanda
e risca o martin também
do nosso samba

---

um retumbante não

---

y os pó
derosos segue
tudo
sambando sobre nosso
túmulo

---

obsessão
não é
poesia

tu
não é
poesia

tu
é

ob
se
ssão

---

ramirão ão ão
já dizia
não
que comeremos os mamãos maduros
da insubordinação

---

poesia, deus e honestidade política
a trindade inexistente

---

por um léxico cerebral tupiorubá

---

Brasil, o bastião da pó-modernidade

---

por um mundo de rebeldes sem calça

---

dos belos substantivos compostos:

orgasmos múltiplos

---

começar
todo santo dia como se não soubéssemos
escrever

acordar com os olhos e ouvidos
atentos

prosseguir todo todo dia até o último
seja quando for
com uma dúvida incrustada no corpo

ser o melhor amigo do cão
quando calar

quando ousar falar
do dicionário

---

homer simpson
o homero
george romero
e zéu britto

eis as combinações possíveis

---

todo poeta
é houdini
literatura é um escapismo forte
é uma esgrima ilusionista
co'a morte

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Quando da confecção de um boneco vudu

tenha em mente tenha em mãos
as seguintes condições:

que não seja, a cara dele,
parecida sequer parecida
com a tua cara, seu costureiro
brujo, feiticeiro, intruso
no sonho alheio

que não se pareçam contigo
também
os olhos alfinetados os braços
sequer a roupa a roupa sequer
quando for costurar um vudu

toma cuidado
que ele não se pareça sequer se pareça
com tu

---

se vossas vozes
fossem
fossas
sentido elas fariam

---

proponho uma proposta
ouve aqui, vê se tu gosta
olha, ouve
proponho uma proposta que nunca se escutou
antes
proponho que arranhemos
céu
ambos
proponho o que nunca dançamos
proponho, ouve, olha
ouça
proponho que se proponha
outra
prosa
proponho mesmo outro começo
veja

tu
mais
eu

terça-feira, 26 de novembro de 2013

o amor é um brownie
feio, duro, ressecado
comprado numa estação de subway
às três da madrugada, no escuro
com moedas tateadas
o amor é um brownie

o amor
é uma cerveja quente e já choca
não!, são duas
duas cervejas chocas e quentes
o amor é a gente

o amor é tomate de fim de feira
mais triste esmagado mais plof
que os tomatinhos da piada
atravessando a rua sem olhar
pra nada
o amor é uma fruta aguada

o amor é o filhodaputa do gordinho que chega atrasado
na fila do ônibus que leva as crianças pro orquidário
o amor é o salafrário do gordinho
que vai apanhar danado no intervalo
na hora do recreio esse gordinho
coitado
vai caber no ralo
o amor é o que chega atrasado

o amor é uma diaba de palavra que ri
toda vez que olho pra ela
toda santa vez

o amor é uma moléstia
é uma febre tifóide
miopia certeira que chega na hora
na hora
da leitura do último poema

[poema II da série (que eu pensei que morreria): o amor é um brownie]
o amor é um brownie
feio, duro, ressecado
comprado numa estação de subway
às três da madrugada, no escuro
com moedas tateadas
o amor é um brownie

o amor
é uma cerveja quente e já choca
não!, são duas
duas cervejas chocas e quentes
o amor é a gente

o amor é tomate de fim de feira
mais triste esmagado mais plof
que os tomatinhos da piada
atravessando a rua sem olhar
pra nada
o amor é uma fruta aguada

o amor é o filhodaputa do gordinho que chega atrasado
na fila do ônibus que leva as crianças pro orquidário
o amor é o salafrário do gordinho
que vai apanhar danado no intervalo
na hora do recreio esse gordinho
coitado
vai caber no ralo
o amor é o que chega atrasado

o amor é uma diaba de palavra que ri
toda vez que olho pra ela
toda santa vez

o amor é uma moléstia
é uma febre tifóide
miopia certeira que chega na hora
na hora
da leitura do último poema

[poema II da série (que eu pensei que morreria): o amor é um brownie]
O Cadafalso

abriram-se as porteiras
do inferno

é o que diziam
o carrasco e a comitiva
que ali ouviam gritos de dor

abriu-se a tampa do
cadafalso
mas nenhum passo
nenhuma queda
sequer brotou
naquela terra
empoeirada

nenhuma bruxa foi
degolada
nenhum ladino teve suas mãos
jogadas longe
nenhum alforje naquele dia
foi devolvido

porque o príncipe de todos os mendigos
morto de fome
roubara a tampa do cadafalso a forca e o gume
da guilhotina

vendeu a piratas na beira do mar
e alimentou a família

---

pelo exército na rua
na tua
rua
nas duas
esquinas
da tua
rua

e que tu não saia por aí desfilando ignorância
como se fosse uma criança no sete de setembro

---

a sina da antropologia no século XXI:

viver em contato com tudo quanto é papo errado sobre o mundo, sociedade, hábitos, posições e dinâmicas políticas, categorias e ações de preconceito, opiniões e achismos fortes
que na internet ganham poder de fato, de teoria incontestável, de verdade analítica.

---

[vai ver tô ficando velho e recrudescendo aos tempos de amor cortês

mas gosto de ver gente casada e feliz

- gosto de ver gente feliz sem casar, também, mas não é disso que falo agora -]

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28 pecados capitais

modernidade, globalização, aprofundamento das desigualdades e da estupidez

7 pecados já não dão conta

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[o poder da edição
de cortar palavras, substituí-las, reescrever frases, eliminar períodos
tirar o ranço preconceituoso de um texto
o travamento
de fazer com que ele flua

ô puta sensação boa]

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pioneiros bandeirantes desbravadores
todo mundo que chega primeiro só faz merda só traz mortes dores sofrimento

ir com calma
chegar depois
não
ter
pressa

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um estudo em concreto: amor, parte (acho que) XIV

o amor não é clichê
o amor é mais
perto do amor clichê parece
david lynch vanguarda pop art inovação tecnológica radical
perto do amor
clichê é nave espacial

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brigada macunaíma
guerrilha muiraquitã

que é melhor ter nenhum-caráter do que ser mau-



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brasil não é o país do futebol
país do futebol é inglaterra
brasil é o país da discriminação

bate um bolão

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[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo três, derivação verbal

"escravidão": substantivo naturalizador de condição

"escravização": substantivo derivado por sufixação. Processo. Substantivo derivado de um verbo (escravizar); de uma ação (escravizar); de um absurdo (escravizar).

Desnaturalizar o discurso. Porque: naturalização = o Mal]

---

[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo dois, adjetivação

"Ao término da Segunda Guerra Mundial, passa a existir um movimento mais amplo em favor do processo de autodeterminação dos povos coloniais." = não.

"povos colonizados"
ou, melhor
"territórios colonizados"

povos coloniais = naturalização do processo de dominação externa
naturalização = o Mal.]

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furar os olhos da ignorância
para que ela não se torne
ponto de vista

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[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo um, tempo verbal (parte II)

"As várias modalidades de animismo são caracterizadas pela crença e adoração de espíritos que estariam presentes nas mais variadas manifestações da natureza."

que "estariam" presentes

ou seja: nazistas "pertencem" a uma raça superior (mesmo que "supostamente superior")

espíritos "estariam" presentes.

entendem?

preconceito. implícito.

nada como o arianismo cognitivo...]

---

[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo um, tempo verbal

"Os adeptos do nazismo acreditam na existência de uma raça superior à qual pertencem (a ariana) e, por tal razão, julgam poder submeter e exterminar as “raças inferiores”."

"Os adeptos do nazismo acreditam na existência de uma raça superior à qual pertenceriam..."

Pertencem = não.
Pertenceriam (se pertencessem) = sim.
Mas não pertencem. Portanto: pertencem = não.]

---

[pensando

ninguém "celebra sua cultura"

quem "celebra" cultura é o de fora, "celebra" cultura alheia

!hey, vamos comer sushi, hoje. Sou tão japonês

quem "celebra" cultura não vive a cultura

no brasil, carnaval não "celebra" cultura
celebra bunda, cerveja, samba, trepada, dormir no meio da madrugada ou nem dormir

quem "celebra" cultura é o colonialista, a globo e o mec]

---

gente
poesia não
existe

eu sei que é um
problema

o que existe é o poema

---

a www
tá cada vez
mais kkk





---

vocês
ó só
cês prestatenção

eu tô já por aqui
até as tampa
eu tô
de ter que repetir

vocês
ó
ouve
ouve
porra
ó

vocês

diacho
fugiram

---

natureza humana
não

pessoa humana
não

condição humana
ok

tipo uma doença

---

as palavras ficam
na ponta
dos pés
e te beijam
e tentam
te beijar
as palavras

diabos
não dá
tu é grande
demais

as palavras ficam
na ponta
dos pés
as palavras
cansam

---

negar o absurdo
do mundo
absurdo

---

[Declaração Universal (sic!) dos Direitos Humanos

"Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão"

ou seja: quando o Estado não garante nada que preste, o homem (e a mulher, e os transgêneros, e etc, mas não atentemos a isso, por ora) tem a obrigação de se rebelar contra a opressão.

a obrigação. de se rebelar. contra a opressão.

pessoalzinho das direita, aprendam: tá escrito. É lei. Vidraças de banco e discurso da mídia não podem parar a Declaração das Nações Unidas. Sinto muito. Legalismo por legalismo, sou mais o que liberta.]

---

supremacia branca
bancada ruralista
bancada evangélica
tecnocracia burocrática

os quatro cavaleiros do agoracalipso

---

triste
é sereurocêntrico no século vinte

---

quis falar de amor
eu quis
ser sincero e verdadeiro eu
quis
mas não cheguei até paris
onde ele está
não fui, não pude

entupi-me até o rim
do amor que vi em holywood

[da série, que inicia agora e talvez não siga: o amor é um brownie]

---

é preciso
ser
preciso

---

desbanalizar o zen
banalizar o zen

calar quando quiser falar
do zen
sentar
quando quiser calar o zen

respirar

e não
encher
o saco

deixar de acreditar que o literato
compreendeu o zen

quebrar essa tendência
essa influência
essa demência
de achar que bem se sabe o que se não

poema curto não é haikai
eu meu avô meu filho não sou meu pai
ler charadinha não é koan

viver a vida como quem
na esquina
descasca sem pressa uma romã

---

No meio do jardim de meu pai, que ele herdou do pai quando o pai morreu, estávamos Rosana e eu sentados num fim da tarde. Passava. O tempo, o papo, a dor, passava entre a gente o vento e eu, levantando, andei ao canteiro de cimento enquanto Rosana não. Rosana respirava. Olhos fechados, respirando, Rosana ressonava, dormia ali no jardim de meu pai, que ele herdou do pai quando o pai morreu, Rosana aproveitava ali naquele momento que eu me distanciava. Respirava.

Havia tempo eu não via o jardim de meu pai, o canteiro de cimento de meu pai, havia tempo demais que não via o que plantara meu pai quando herdara o jardim de seu pai quando o pai morreu, meu avô, o meu. Havia tempo, e agora via, andando ali enquanto Rosana dormia, o vento passava, o tempo soprava, as dores cantavam em harmonia, agora via no jardim de meu pai que meu pai herdara da morte do vô, agora via brotando uma flor. Em couve. Havia brotado uma flor.

Não houve, no resto da tarde, nem Rosana nem vento nem dor nem tempo nem sonho nem cimento nada que se igualasse àquilo. Brotara uma couve no jardim de meu pai que meu pai herdara de meu avô. Brotara e brotava uma flor.

---

p_o__ema

---

o papel do intelectual
na contemporaneidade
é um papel timbrado e assinado
pela capes

---

[tô convencido
é só falar de amor que cês tudo fica igualzin ouriço

tudo atiçado tudo
a gente é um bando de medievo bruto

poema de amor vende mais que cerveja em carnaval]

---

todo corpo é
qorpo santo

---

quando eu disse assim
te amo
eu não mentia
exatamente
eu não mentia
eu só por um acaso
não sabia
quanto dano
um eu te amo
a nós traria

---

crianças
não briguem

adultos
não brinquem

respeitem uns
os papéis sociais
dos outros

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

toda máquina é bicho
animalincompreendido

ser vivo algum é maquinal

---

um estudo em concreto: amor, parte XIII

na calle
na rua
na esteira de concreto que acaso cobre os dias
sem que se cobre sequer um puto
fale-me de amor
que eu
escuto



---

- Meu filho, vem cá, você pode por favor pôr no gráfico?

- Como é que é, velho safado?

---

remendar o asseio das palavras
com a visão penetrante do que falo

remendar o puritano da palavra
com a visão esgarçante de um falo

---

ignorância é um status que se come tu

---

um estudo em concreto: amor, parte XII

todo mundo que fala de amor
o amor entende
todo mundo que fala
o amor atende
todo mundo que cala
ama
como um soco um pontapé uma porrada
na garganta

("O amor é um PM chutando tua costela na manifestação." - Diego Moraes)

---

o erotismo será vossa desgraça
vossa miséria vosso laço vossa forca
o erotismo o jogo o atrito entre a verdade
nua
e a crueza bruta
o erotismo será vossa desgraça

---

um estudo em concreto: amor, parte XI

amor é possibilidade
s

("um exercício

amor é talvez
aquele cometa
que passa
que passa
e você nem viu
a noite nublada
o fuso atrasado
ou talvez só o seixo
a pedra do rio.

[mverunschk]")

---

ela é
o nome do que tange a madrugada
ela é sílaba sagrada fé bornal
cheio de estrelas
ela é pequena para entrar
em todo canto em toda vida
e é grande muito grande para
enchê-las

---

às vezes, devo dizer
às vezes sexo me parece mais
um exercício físico
um triatlo
pentatlo, depende
um exercício físico do que
um algo sacro

sexo é um barato
é um barato
a banalidade é o sagrado

---

[renaturalizar o natural
banalizar o que é banal
deserotizar o sexo
é o que eu digo
deserotizar o sexo]

---

corre o tempo y corre
o rio y corre as hora y
corre a vida y corre a mor
te corre tudo y corro eu

---

nuddismo y orgia
por uma sociedade menos careta

---

ó vocês que querem
fechar do masp o
vão
pra onde o sol não bate
pra onde o sol não bate

---

"Eu vou nadar no mar", ela disse.

Ele olhou pela janela e viu cavalos, sol por sobre árvores e uma vastidão de morros e montanhas. Pensou sobre a tecnologia, sobre o contato a distância, pensou na distância, pensou no mar que também era dele. Massa d'água.

Ela agora estaria nadando no mar. Ele, ouvindo cavalos relinchos e pássaros no cerrado, fechava os olhos. Pensava na tecnologia, nela a quem não conhecia, em tantas outras, em tantos outros.

Infinitos cantos do mundo, grutas e grotas rios e animais sem nome. Populações inteiras de mortos de fome, outras tantas de obesidade. Estas, em bem menos número, verdade. Pensava depois no que ia pra lá do planeta, pra lá da terra, o que ia lentamente se esgueirando fora da atmosfera, pensava na tecnologia toda que ligava os astros, satélites, espaço.

Uma cidade em forma de nave, no meio do mundo uma cidade. Umbigo do mundo, outra cidade. Ressoando nos ouvidos, sons balidos cordas cantos do norte dáfrica. O centro de tudo.

Eu vou nadar no mar, pensava.

---

face a face

agora pare
e pense
em que pronúncia leste
face a face

fáce a feice?
fáce a fáce?
feice a?

que pronúncia vai
ficar?

---

divar
di.var
(derivação sufixal do sf diva) v.int. 1. Endeusar-se. 2. Apresentar canto notável. 3. Ser Laerte.



---

um estudo em concreto: amor, parte X

("Ame quem te cansa na cama" - Bruno Almeida)

---

não saber quando parar

---

templários do tempo do rei digladiam
se com soldados do choque do rio
em um cenário banal
em um dia
quase igual a todos os
demais

caçadores-coletores fazem frente à
ofensiva de zumbis mortos de fome que
reviram lixo reviram bichos e braços e mortos e

intraterrenos encontram extraterrestres para um chá
das cinco
às dez

---

ou
nuddismo

quebrar as máquinas
co pau pra fora

---

tu lírico
bicho
é poesia para os meus
ouvidos

---

tem gente que todo dia
a consciência nega

---

[toda vez que alguém agradece
à Deus

deus vira mulher

pelo nosso nível de analfabetismo funcional e problemas com crase, creiam
o paraíso é um matriarcado há tempos]

---

um estudo em concreto: amor, parte IX

ela pavimenta meu caminho até o mar. Tira de meus chinelos o chão da praia, dobra minha vista em lonjuras e esquinas. Eu jogo areia em seus olhos, como seu coração na ponta de uma mesa, num bar, cidade vadia e desvairada. O amor é um desvio na mão dupla de uma rua, é uma avenida despedaçada e sem sinal. O amor só faz mal se não existe, ou se é pouco. Ou se tem mãos atadas que não podem despir o corpo.

---

digo simplesmente
foi mal, gente
precisei sair corrido
dois minutos do busão, cheguei a tempo
queria ter ficado com vocês
digo simplesmente
foi mal, gente
daqui a pouco estou

---

um estudo em concreto: amor, parte VIII

quando o assunto é
amor
robôs matam a pau



---

polícia
se fosse
boa
era delícia

---

[contemplando um armário de banheiro da década de, pelo menos, 1970, chego às seguintes considerações:

- o design das coisas, antigamente, era mais honesto. Ganchos, arames, grampos e parafusos ficavam à mostra. As prateleiras são declaradamente de metal, algo como uma chapa de aço escovado presa ao interior das portas. É possível ver as partes que compõem o interior do móvel.

- as coisas, hoje, são falsamente revestidas. Elas são revestidas, eis tudo. Cobrindo ganchos, arames, grampos e parafusos, camadas lisas e bem desenhadas de plástico, curvas e traços clean ou futuristas. Não se veem mais os componentes internos das coisas, não é mais possível acreditar que as prateleiras sejam peças presas ao corpo maior do objeto. Tudo parece orgânico, mas o preço da aparência orgânica é a falsidade da construção]

---

"de citação morreu o burro"

- Armindo Alcântara Wenceslau

---

[um budista de direita não tem por onde se iluminar, sequer tem condições de contemplar a realidade.

tô só comentando]

---

[gente
e se todo mundo filmasse uma transa e jogasse na net?

banalizemos o choque
assim a gente vê se renaturaliza o natural
e ninguém mais se espanta]

---

dançarei nos cangerês do mar na respiração das folhas que se agitam ao vento no trabalho protelado dançarei sobre o trabalho protelado sobre o trabalho alheio sobre meu próprio trabalho dançarei sobre a palavra-moda procrastinação e farei com que a dança se estenda ao fundo das ondas ao fundo das faias ao fundo dos nãos e das dordecabeças

---

nem mercado
nem academia

praia

---

um estudo em concreto: amor, parte VII

"Borboletas-monarcas, descobrindo-se vivas,
Ela embriagada com o vapor da terra, e ele
Embriagado com ela [...]

Ela o ignora
Enquanto ele se acerca, pela direita, pela esquerda, alvoroçando
As asas abertas, bafejando a penugem dela
Com sua aragem perfumada, agitando as padronagens,
Seu apelo pavonesco e tropical de artesania,
Aventurando-se mais perto, sobre cada lâmina de folha,
Tremendo como inibido, bem perto de tocá-la –
E ela outra vez vai embora, vacilando sem noção nenhuma."

ela o
ignora
ela
vai embora
ele
vai atrás

o amor é não ter paz
senão co'as asas
redobradas
sobre o
outro
dia
o amor era universo

hoje
o amor é padrões fractais na asa de uma borboleta que voa
atrás da flor que voa na flor e que pousa

amor, em espanhol, é mariposa

e ela
mora
numa
boa
no
amor

("Duas borboletas-monarcas", Ted Hughes traduzido por Sérgio Alcides)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

nós somos criminalizadores
não há criminosos num mundo de moralistas
nós somos criminalizadores
nós inventamos
punimos
e cometemos as injustiças

hoje, nas redessocial, nós inclusive
comentamos as injustiças

nós somos criminalizadores
tudo é problema pra capitão-do-mato resolver
[gostei - desgostando - dessa ideia:
tudo é coisa pra capitão-do-mato]

nós somos moralizadores
é fato

já disse uma vez e
de novo
ninguém por aqui costuma
por mais que seja libertário
ficar pelado na janela
sem se sentir corado

nós somos moralizadores
nós somos o horror

---

«tout corps est
un empire
tout corps
un contact
une pointe d'hémisphère
tout corps raconte
des histoires tout corps
affiche gloires et remords
tout corps tu peux me croire
même le tien
surtout
le
tien
est un corps qui mérite de voir
le ciel»

[tradução de Florine Thomas]

---

ser como a
democracia
ser para todos
ou pra ninguém

---

entropoética

---

um estudo em concreto: amor, parte VI

"ah, se não fosse o amor
pra recolher o óleo que vazou"

pra recolher
pra
recolher o óleo que vazou

recolha, vazamento. Transbordar. Segurança. Braços e barreira de contenção.

Amor é contenção.



---

das lições de amor em concreto -

amar
ar
tu
do

te
a
mar
sem
te
mer

[com Julianna Motter]

---

um estudo em concreto: amor, parte III

uma demão de tinta
por sobre a outra

duas mãos cruzadas
dedos entrelaçados duas
pessoas juntas
de mãos atadas

uma demão de tinta por sobre
a outra

fazendo
da concretude
cor

---

por essas coisas todas agradeço
às vezes não
às vez esqueço
é triste eu sei
às vez
é rude às vezes sou
por essas coisas me desculpo
desculpo
pra que eu me possa ser
a isso tudo
agradecido
porque
por essas coisas todas agradeço

---

porque há descobrenças, nessa vida
que surpreendem
suspendem o ar e
suspeitam o tempo

---

cristo godot arthur
elvis
dom sebastião
sentados num canto quietos

cristo godot arthur
elvis, sebastião
tirando no jokenpô
quem vai dirigi o busão

---

todo corpo é
um império
todo corpo
um contato
uma ponta de hemisfério
todo corpo conta
histórias todo corpo
encena glórias e tristezas
todo corpo você pode ter certeza
até o teu
especialmente
o
teu
é um corpo que merece ver o céu

---

iron
ia

enferrujou

---

navega, mulher
navega
pega essa pá e rema
navega, mulher
e vá
navega, nêga, navega
pega esse ar que há
embaixo da tua asa
e segue as correntes fortes
que sopram daí pra cá
navega, mulher, navega
navega no céu azul
por meio das turbulências
navega, mulher, não nega
que há de se ter decência
que há de se ter vontade
pra, enfim, alcançar o mar

---

o mundo precisa de menos roupa
y vamos nus

---

mas, cara
-ele falou-
máscara
a mascar
minha face
a
massacrar
minha quase
eterna abso
luta
existência
cara,
-falou mais-
não dá
nada
cara
juro
minha quase
absoluta
existência
mascada
massacrada
des
mas
carada
cara,
minha quase
absoluta
existência
inexistente
minha quase
carente
egoísta
obsessão
-porra, cara, fala!
e ele falou-
graças a deus caíro ao chão

---

o pacífico nos
espera
o pacífico não erra
o pacífico nos
espera
suas ilhas nos
esperam
samoa hawaii a de páscoa e seus moais
o pacífico nos espera
não tem pressa não tem atrapalhamento o
pacífico
é nosso monumento

---

[ter tempo pra cozinhar
= objetivo de vida
recorrente]

---

estrugir
es.tru.gir
(lat vulg *exturgere) vint 1 Vibrar fortemente; estralejar, estrondear: "De repente estruge ao lado um estrídulo tropel de cascos sobre pedras" (Euclides da Cunha). vtd 2 Atroar com descargas, músicas etc.: Um forte estampido estrugiu a praça. vtd 3 Derreter toicinho.

[vtd 3, acepção que aqui nos toca:

entrada no futuro dicionário "Sabedoria linguístico-pragmática da cozinha"]

---

ouvi,
ó mundo,
ouvi,
que eu ouvi e digo:
a vós,
ó mundo,
a voz.

eu,
por mim,
escuto.

[pra Micheliny Verunschk, padroeira]

---

todavia
toda vida


toda vida
todavia
vai

[sobre um de Bruno Baptista]

---

a política é uma merda
a justiça também
se enganem não
é tudo coisa do cão
com artigo na frente

política e justiça, ok
a política e a justiça, por outro lado
por qualquer lado
não

---

é pena que
não peçam pontes
onde os pé pisa

---

esteja
feliz
festeja

rasteja
ralé
esteja
bem

---

"arrimo
ar·ri·mo
(derivação regressiva de arrimar)
substantivo masculino
1. Coisa ou local em que algo ou alguém se apoia. = ENCOSTO
2. Apoio, amparo."

[novas palavras todo santo dia
deus me livre de saber de tudo]

---

tenho uma vontade ine
xaurível de me exaurir

---

projeção
aqui me tens de regresso

---

não adorarás falsos deuses
ele disse
ele disse
mas quando
ele disse
não adorarás falsos deuses
ele
sinceramente
não sabia da missa um terço
não sabia quão real era
ela
não sabia
que tenho em meu peito o espaço
para adorá-lo
e muitos mais
para adorar
os pardais e o som do vento
os rios e o som do mar os seixos
ele não sabia
o deus querido
não sabia que no meio deste reino
comunal
não há mal qualquer em ter
adoração
pelo tudo que nos cerca
não adorarás falsos deuses
me disse ele
mas ele não conhecia
ela

[para Julianna, para mverunschk]

---

nada desses humano me é estranho

---

[sério mesmo mesmo que vírgula é um negócio tão difícil de saber usar sério mesmo mesmo?]

---

o mundo está
dividido
entre filhos da terra
e filhos de chocadeira

---

[uma vez, numa praia do oeste do ceará, verti uma música de caymmi pro francês, pra uma alemã que assistia a um show de choro comigo, lá na areia. Maluquice, não?]

---

o facebook é
uma curtição

 em versão de portugal seria:

o facebook é
um gostar imenso

em francês:

le facebook est
beaucoup d'aimer

inglês:

facebook is like
a lot of like

fico devendo o inglês pirata

---

fun
k

domingo, 17 de novembro de 2013

canções das crônicas de Lalonge: dois registros

para Doris Lessing, seguida à zona mais alta

I

areia e tempestade
sacodem o acampamento
areia e tempestade vêm com o vento
desde o céu
e todas tendas sentem
o mesmo do que eu

areia e vento voam
em volta disso tudo
ficar é absurdo
e ter que esperar...

as águas caem forte
silêncio aquieta fundo
areia e tempestade
o fim do mundo.

será que ela sabe
que a espero?




II

A batalha já perdida
a batalha já perdida
olhe o exército arrastado
no deserto.

Olhe sua carcaça,
os seus ossos,
sua carne,
a batalha já perdida e a guerra quase.

Onde está o nobre cavaleiro?
Onde o nosso brado de vitória?
Cadê o guerreiro legendário
que a lenda diz trazer a nossa glória?

A batalha já perdida
a batalha já perdida...

sábado, 16 de novembro de 2013

contos de fábulas xiv

Naquele tempo, o imperador estava cansado. O ano havia quase terminado, mas nem tanto, e durante o tempo todo muitas coisas se findaram. O imperador estava cansado. Vira impérios de oriente, atravessara mares com deuses estranhos, altos de montanhas com chás desconhecidos, voltado a seu sítio e depois novamente zarpado. Havia estado em muitos cantos do mundo, e muita coisa havia mudado. O imperador estava cansado, com o peso de um mundo nas costas e, nas mãos, grossas porções de problemas alheios. O ano estava quase terminado, mas nem tanto, e o imperador se perguntava que proveito um ano novo havia de.

Mas sempre havia. Deitado, com os olhos já metade em outro mundo, ouviu um assobio profundo que vem do sonho, que vem da chuva e que vem de longe.

Aquele ano todo havia mudado muito, e o dia que terminava era apenas um ano outro, em menos tempo, mudado tanto ao sabor do vento quanto mudavam as cobras cigarras e folhas d'árvores.


O imperador sorriu ao vento distante, que às vezes chove, e dormiu para um ano novo.
vandalíssimo

---

sou mais que
tu
sou teu

---

damião pensou em pedir
a maria antônia moreira
que escrevesse pra ele uma carta

de recomendação uma carta ao parlamento
interino
das nações que se reuniria em janeiro
ou depois

damião, entretanto,
acabou recomendado por federico estrela
patrono das arte e saberes
para quem o parlamento
de tempo em tempo
batia palmas

maria antônia moreira ficou sem escrever a carta
mas eis que depois
damião
no parlamento das nação
encontrou joaquina barbosa, sua mais profunda
amante gostosa almagêmea
que ali só estava
porque maria antônia moreira assim
recomendava

---

o ritmo da leitura não é
o ritmo da escrita

escreve-se no ritmo da vida
quando abro a porta e u'a ave voa
quando vejo o cantar das folhas
quanto o vento assobia e chama

o ritmo da escrita não é o ritmo
da leitura
pausada, ouvida
o ritmo do que é lido é o ritmo
da escuta

---

desgraça porca é lavagem

---

nada está
separado
nada
está separado
porque nada
de um ponto
a outro
nada de um ponto a outro
tem entre si um vácuo

nada
neste planeta
está separado
a mais longínqua lonjura
tem com esta terra dura
o vínculo azul do barro

---

essa
obsessão
começa desde o começo
desde o começo quando todo mundo
todo
mundo
quer porque quer saber o tal do sexo
do bebê

---

pra
ia
e
se
foi

---

tudo no mundo
canta

---

o que articula
o que ape'ta segula

[cebolinha em dia de ditado popular]

---

cristo
incompreendido em seu tempo
incompreendido agora

cristo na eternidade
incompreendido

---

- !GOSTA DE DOCE DE BANANA?

- GOSTO.

- PORRA, TEM UMA PAnelona lá em casa e...

---

um estudo em concreto: amor, parte V (de Part Three: Love, da senhorita Emily)

Meu rio flui até ti -
Mar Azul! Posso seguir?
Meu rio permanece no aguardo -
Ó, mar - ouve o que eu falo -
A ti levarei em meus braços
os mais distantes regatos -
Diz - Mar - Diz que sim!

My River runs to thee –
Blue Sea! Wilt welcome me?
My River wait reply –
Oh Sea – look graciously –
I'll fetch thee Brooks
From spotted nooks –
Say –Sea– Take Me!

Meu rio ruma até ti –
Mar Azul! Me aceitas?
Meu rio aguarda resposta
Oh, Mar - ouve a minha proposta–
E eu te trarei os riachos
de recantos afastados–
Responde para mim, oh Mar!, responde: vais me levar? 

[menos que um: exercício de tradução de feriado. Logo menos no blog de tradução. Aqui, respectivamente, minha versão, o original de Emily Dickinson e a tradução de Micheliny Verunschk, quem começou com a brincadeira]

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um estudo em concreto: amor, parte IV

"o amor é importante, porra!!!"

no asfalto do chão, nos tijolos no reboco da parede, nas pedras argamassas que tapam janelas.

que tapam janelas...

o amor é importante
escrito
em uma janela tapada

não se tapa o sol co'a peneira
nem
o amor com tijolos

o amor é importante, porra
o amor
é um vazamento nas paredes
é vista
respiro
e conexão

o amor é o vínculo do concreto.

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---

era facilíssimo amá-la
superlativo que era
eu 
na absoluta presença
dela

---

um estudo em concreto: amor, parte II

"se você jurar
que me tem amor
eu posso me !regenerar!
mas se é para fingir, mulher
a !orgia! assim não vou deixar"

!! para efeito de ênfase. Regenerar. Orgia. Pólos opostos de um mesmo amor, de um mesmo

movimento

amor é movimento

pra fora e
pra dentro.

---

a felicidade está
em saber que um amigo gera
um filho
e em mais tantas outras coisas
que não são comigo
que ouso dizer, novamente
:a felicidade são os outros

---

você tá pensando no que tô
pensando tá percebendo isso
também você tá ouvindo você
presta atenção tanto quanto
eu presto atenção em tudo
você está está também?

---

animais sentem cheiro
de medo
de chuva
de amor animais sentem
cheiro

e nós
animais com medo
de sermos
também animais
chovemos perfume
em nosso

em nosso

---

eu sou uma pessoa muito muito
muito boba
quando atravessam meu coração
com um ferro em brasa
muito muito
muito boba

---

cebolas têm camadas
ogros têm camadas
meu pensamento tem camadas

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um estudo em concreto: amor, parte I

"nosso amor não fecha pra balanço
não fecha pra descanso
não respeita feriado

o nosso amor
é um nó molhado"

um nó molhado. Conhecimento técnico-instrumental, pragmático, sabedoria popular: um nó molhado segura a amarra bem mais firme, um nó molhado se aperta, as tranças se enrolam se reforçam se enovelam as voltas de nós não se soltam.

---

c
_o
__r
___r
____e
_____r

---

não é difícil
é só
cansativo

---

sabe... esse negócio de viver de poesia, viver de escrever, viver sendo escritor, pagar a conta do mercado com o cheque do editor, essa coisa toda que não existe porque nosso mercado, o editorial, só vende autajuda porque não tem leitor pro que escrevemos; esse lance romântico de ser financiado ter mecenas viver na maciota na caneta, ponto e só, esse negócio sem pé nem cabeça de viver de escrever, acho bom graças a deus que não existe. Porque o poema o texto a história de um bicho isolado é triste, é triste se o poema não sai do poeta no meio da rua, se o escritor não escuta a fala do povo a fala das coisas a fala da luta a fala da fala das palavras todas. Se ele não se envolve, não vai e anda, se é escritor de gabinete prêmios e chás das cinco. Acho muito do bom que um escritor de literatura não se segure só de escritura. Acho bom, muito bom, que além de escrita ele esteja no espaço da escuta, no contato, na permuta, no aprendizado eterno e impagável da estrada.

---

correspondências entre João e Maria

sempre me pareceu, apenas
cartas entre João e Maria
pedaços de letras pelos quais
os dois
os tais
se correspondiam

nunca me passou pela cabeça
que a correspondência
entre João e Maria eram
as coisas todas
nas quais ambos dois
era um só

---

- Cítrico é a puta que te pariu!

- Crítico, cara... eu disse que tu é um bom crítico...