
sexta-feira, 30 de julho de 2010
brócolis ninja

segunda-feira, 28 de junho de 2010
Naturalmente, de Antonio Nóbrega

Nóbrega busca compor um estilo, uma escola de dança e expressão corporal baseada nas matrizes dançarinas populares: umbigada, capoeira, frevo, etc e mais. Faz como fizeram os responsáveis pelo balé clássico, por exemplo, que a partir de polcas cirandas campesinas e folguedos em torno da fogueira, na velha Europa dos séculos muito poucos, criaram o balé como o balé é. Seja lá quem os responsáveis forem, seja lá. Nóbrega, por aqui, monta mesmo um balé brasileiro, um baléralé marcelinofreiro, e é genial no que mostra.
Várias boas coreografias, com ritmos diferentes cobrindo o espectro bem vasto do passo corporal. Antonio mesmo e duas bailarinas, Maria Eugênia e Marina, que tão de parabéns, de muitos parabéns. Dançam os três durante hora e meia, te convencendo de que saber mexer com o corpo é trabalho para poucos. Nos três números finais, três solos, Nóbrega sintetiza o que cria, ali no palco.
Ele expressa as bases, as coisas todas nas quais se ergue, enquanto os outros solos demonstram o alcance a que a dança pode chegar. Maria Eugênia é de longe a mais ágil e ligeira, e se no meio do show Antonio Nóbrega explica o que são contratempos e tempo sincopado, é isso que ela mostra. Entre os dois, no outro solo, Marina Abib tem a leveza de quem não precisa de solo algum. Sua dança é lenta e sinuosa, mas rápida como uma roda que não pára de girar. Talvez numa das músicas/coreografias mais peculiares do espetáculo, ela se eleva e enleva os olhos do público até o ar. Literalmente. Naturalmente.
sábado, 8 de maio de 2010
ode à manhã
Acordo com o vizinho vomitando novamente. Deve ter câncer no fígado, não sei. Ou não aguenta dar o cu. É, pode ser isso, daí colocar a música tão alto quando mete, o filho da puta.
Espelho. Marcas de mordida e roxos de pancada. Parece que trepei com um cachorro. Corpo ainda quente pelo álcool; faz frio, hoje, sob o sol.
Cozinha. Louça de uma semana, três pessoas e pouco rango. Quase nada além de uns bichos já crescendo por ali.
Copos são as coisas mais nojentas, quando sujam. Quando descansam, decantam, copos criam formas de vida bem estranhas.
Deus deve ter criado o mundo no fundo de um copo sujo.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Vendo tempestades
Raio, lá longe. 1, 2, 3, 4, 5, 6, Cabrum! Estrondo filhodaputa. E eu aqui, sentado, olhando pela janela a chuva que desce. Tempestade mesmo, com vento, raio, trovão, água água água. Parece sei lá o quê. Aprendi esse truque quando pequeno. Tempos depois vi novamente, numa história da Turma da Mônica. Raio, conta, trovão. Depois divide os segundos por três e sabe a que distância está. A tempestade.
Relâmpago. Não sei se lá longe, só vi o clarão. 1, 2, 3, barulho. Merda, tempestade vindo. E eu vendo a tempestade. Pela janela... vendo. Meu deus, eu vendo tempestades!
Será que isso dá dinheiro? Sei lá, ninguém nunca tentou, não foi? Beleza, a merda é sair na chuva. Chuva da porra... Atravesso a rua e um raio cai. 1, 2, trovão. Puta que pariu, dois divido por três dá quanto? Tá muito perto, esse caralho. O próximo deve cair aqui do lado.
Ainda bem que eu trouxe esse pote de, ahn, pote de vidro. Acho que era maionese, antes. Mas tá limpinho, minha mãe lavou, colocou na água fervente. Tá chovendo mais forte agora. Acho que pego o próximo raio. Vai, estico o braço e o pote aberto começa a encher d’água. Tomara que o raio caia. Mas será que basta? O que é que faz a tempestade?
Lá vem o raio. Tô sentindo o cheiro, já, ele tá vindo. Droga, esqueci de esvaziar o pote, porra! O raio caiu. Tô vendo, ele tá vindo. Eu vendo, hahahaha, eu vendo tempestades!
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O ruído, esses sons todos malucos revoando sobre
tudo
sobre nós.
O que há em torno? mundo?
E essa voz
que despenca ouvido adentro
essas vozes
uns sussurros de segredo e
após
o barulho, gritos, ais!
Tudo isso ao mesmo tempo, apitos, medos, surdos abraços de degredo e solidão.
Soluços lancinantes, e barulhos,
ouve!
Houve um tempo em que a voz
ao ser falada
não feria.
Houve um tempo em que eu faria qualquer coisa para ouvir.
Mas agora, ai!, esse ruído e gritaria,
essa alegria transbordante,
essa palavra mal falada
essa mal dita humanidade
que não cala...
terça-feira, 8 de setembro de 2009
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
findano
não há caneta,
não há nada.
Não há nem a caneca de lata
onde ele esquenta o café.
A mísera mesa do viajante não anda:
portanto, não é algo bom pra portar por aí.
A mísera mesa do andarilho fôra uma porta
quando ele a viu
e a fez de apoio.
Depois, dormiu.
Até que o caminho que foi
venha
a mísera mesa do viajante
é lenha.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
"Você está fazendo o que qualquer homem são
faria nessas circunstâncias. Está ficando louco!"
Heath Ledger acabava de sair do estúdio. Dez da noite, eram. Vinte-e-duas horas. A última cena filmada, a última fala, a última expressão de loucura e dor. Não era a última cena do filme, nem de longe. Era, antes, uma das primeiras. Filmada por último. Dali para frente viria a pós-produção, as viagens de divulgação, a estréia. No fim das filmagens, a filmagem do começo.
Boa noite, Mr. Ledger!
- Boa noite, Mrs. Catherine. Suas pernas doem menos, essa noite?
- Oh, sim. Aquela pomada é maravilhosa. Olhe, pegue esses biscoitos. Achei que você iria gostar.
- Não precisava, querida. Mas muito obrigado, a senhora é certamente a vizinha mais encantadora que já tive.
- E como vai o trabalho, meu bem?
- Me matando, Mrs. Catherine. Me matando. Preciso, sinceramente, dormir por dois dias seguidos.
Escadaria longa e escura. Estreita. Subia por dois andares, levando ao alto do sobrado. Mas parecia mais, parecia maior. Ledger sempre pensava estar caminhando ao topo do mundo, e não gostava daquela sensação. Não da sensação de subir ao topo de um mundo escuro, sombrio e doente como o daquele corredor.
“O que se espera de um homem? Sensatez? Loucura? Amor? Loucura? O que se espera de um louco? Humanidade?”, era isso que dizia, antes de ver a filha morrer. Antes de ver a filha morrer sem nem mesmo nascer de fato. Antes do parto. O Coringa, ou antes dele, aquele homem chorava desesperadamente. Por dois minutos, e só. Por dois minutos ensaiados, amaldiçoando o mundo, a loucura de sua vida e a vida de loucos como aqueles dois. Um minuto para cada um, ele chorou. Rindo, depois disso, levantou a tempo de matar os três. Os homens-dos-minutos e sua própria esposa, que ainda parecia viva. Não tinha razões para fazer aquilo. Tampouco razões para não fazer.
- Casa... finalmente. Quero dormir, eu juro que quero. Quero dormir. – e acendeu a luz. As luzes. Todas elas. Desde que iniciara o projeto, desde que lera o roteiro (e talvez desde antes, desde que conhecera o Morcego e aquele terror noturno constante e onipresente) não conseguia apagar as luzes. Não se sentia bem no escuro. Sentia as sombras o espreitando, fechando o cerco, formando cercas que sua visão não conseguia ultrapassar.
Desde que rira pela primeira vez, alto, desfigurado, com o rosto branco feito a lua. Desde aquele dia não dormia, não sorria para si. Só para os outros, só para as câmeras. Seu riso, agora, era do Coringa. Lunático. Psicótico. Fugindo das sombras a cada passo, em cada ângulo. Dormia com suas luzes acesas, e sonhava com cavernas alagadas, escuras e deformadas. Sonhava com loucura.
Na mão esquerda, dois comprimidos. Na direita, uma dose de vodka. Seu corpo sentava ao chão, cercado por quadrinhos, garrafas de bebidas e frascos de remédios para dormir. Para dormir sem sentir nada. Seu corpo caía ao chão, cansado, como a lata de biscoitos que acabara de abrir. Ledger chorava, como fazia em todas as noites desde há muito. E engolia os comprimidos. E a vodka. E um pedaço da capa daquele quadrinho antigo, comprado em sua infância. Era o que parecia o lógico, a única coisa a ser feita, naquele momento: engolir a capa do Homem-morcego. Talvez, pensou, digerindo as sombras que não me deixam em paz, eu possa dormir. Eu quero dormir. Ele queria dormir.
Mais dois comprimidos. Mais três, após. As sombras tinham movimentos estranhos, Mrs. Catherine parecia gritar, lá de baixo, um facho de luz amarela enorme cortava os céus. Um sinal negro, dentro dele. Um sinal vermelho-sangue dentro do peito daquele homem. O sinal luminoso lembrava a Ledger que o mundo estava vivo, mesmo que triste e destruído. E as sombras continuavam a se mover.
sábado, 15 de dezembro de 2007
manifesto pivaniano pelo arrastão & pela fuga
enquanto isso mandaremos torpedos sms para toda a áfrica e ásia conclamando anarquistas, comunistas, desempregados e desocupados, traficantes, contrabandistas, ladrões de banco, estelionatários, mafiosos, cangaceiros, arruaceiros e demais interessados a subir para a europa e sufocar o último grito da nobreza decadente autoritária e hegemônica do mundo.
temos como meta a desmetalização das relações sociais, a supramentalidade da consciência ampla & mística universal e a metida com a mulher desejada mesmo, sem meias palavras. as palavras inteiras são tudo que nos interessam, e as meias pessoas devem ser expurgadas do mundo e jogadas no frio vácuo cósmico negro da total ausência de tudo.
assaltaremos todos os bares adegas botecos mercados atrás de garrafas de bebidas alcoólicas. faremos suprimentos infinitos de molotovs ou beberemos tudo até cair. ninguém estará isento. a comunidade hacker mundial será conclamada a desestruturar todo o sistema de comunicação do mundo para que o pânico informacional se instale e nos dê oportunidade de varrer do mapa os contra-arrastonários. o arrastão é a saída.
se não for a saída, arrombamos a porta ou abrimos um buraco na parede. de alguma forma escaparemos.
santos/bauru 22 de setembro do ano de 2006 de nosso senhor primeiro dia mágico da primavera
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
a última página
ainda que ela não soubesse.
A última página dizia enfim o que sabia ser
desde o começo:
A última página dizia a mim
o que fazer
e, pois, eu fiz.
Ao fim da última página,
depois, além,
escrevi outras letras mais,
escrevi muitos outros fins
(e alguns meios também).
Após a última página triste, ao fim de Maíra,
inventei finais intermináveis,
e a estória, assim, não acabou.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
O Tempo novo, do começo, hoje. Só tenho tempo de ver o futuro, pensar o devir que nem sempre vem a ser. Não me é dado pesar o passado, não sou chamado a viver o presente. Tempo novo, olho a fúria do futuro que agiganta a linha longa do horizonte.
Olho desde já, vivendo à frente. Por tempo demais julguei viver plenamente o presente, esquecendo o futuro, e estive errado. Como Tempo, sou o que estou, no momento certo de estar. No início, o início, e o fim ao final, se um dia este chegar.
Furioso, leve, vago, lento. Nervoso e amedrontado. Tempo futuro, que se existe no presente e lança cores de passado sobre o ver o que virá. A beleza de ser um início é temer a comprida jornada que o liga ao final.
E, nesse momento, o início principia. Do precipício à beira-mar, o caminho se amplia de vertigem a navegar-todo-o-espaço que acaso se apresente. O medo da beleza do início é não saber o acaso que se apresentará.
Eu sou Tempo, e o único tempo que tenho é o que ainda não veio.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
o que sou, mal sei
sábado, 8 de setembro de 2007
errante
Não se pode presentear ninguém com estradas. E, pensando nisso, partiu mais uma vez. Sozinho.
Tinha gosto pelas coisas derradeiras, ele. Pessoas, então, preferia-as de costas, indo já ao longe. Não era fã do afã humano por contato opaco, ou oco. Se não houvesse alma, mundo, não servia.
E normalmente não havia, é claro. Afinal, o mundo não arranca seus pedaços pra os ceder a qualquer arremedo de ser ciente. O mundo não gosta de gente.
Ele era sempre o que ia embora, de algum modo. Quando estava por perto, entretanto - e sempre estava, em algum canto - realmente apresentava. O mundo como representação.
Vontade? Só a de ir embora. E, quando batia, não havia chão que o segurasse. "Se é pra ir embora, vá. Não volte, não chore, não solte a mala ao chão antes de ir. Se é pra ir embora, vá, pela sombra ou pelo sol, com deus ou seja lá o Alá da vez. Vá, contemple o rumo que tomar".
E ia. Pergunta agora o motivo do por que o digo no passado? Porque, como sempre ia, Renan se foi.
Prefácio a Mísera Mesa.
Além de certo humor em seu nome - humor esse que permeia todo o conceito de seu blog em conjunto, Quatro Patacas - vejo um novo blog como um recomeçar. Um espaço onde o passado escrito ganha seu respeito, mas não pode entrar.
É assim que chegamos até esta mísera mesa. Mesa, pela idéia central de um escritor, que apoia seus cadernos nela, cadernos os quais sairão idéias que serão expostas aqui. E mísera porque, afinal, os escritores sempre escrevem sobre seus cadernos de anotações, grandes companheiros, mas nunca sobre o elemento que os apoia para serem escritos. A mesa é uma dessas incógnitas do oficio do escritor, um suporte sempre presente, mas nunca lembrado.
A convite do próprio Leandro, fui o carpinteiro desse local, finalizando a aparência dessa mesa, e agora com minha missão concluída, deixo-a pronta para o autor, seu verdadeiro dono. O que será escrito, fichado e exposto nela ficará a cargo de Leandro, o escritor sonhador das palavras. Criador de cenários fantásticos, mulheres amáveis (e estranhamente nunca vingativas) e de um imaginário criativo vindo da influência do mestre Gaiman.
É com prazer que apresento esse novo começo. Ergo minha taça de vinho, subo em cima dessa mísera mesa só para apresentá-lo. Aos senhores, Leandro Durazzo. Tenho por certo que ele sabe o que fazer para agradá-los.
Thiago Augusto Corrêa
e é o escritor do blog O que Dr. House Diria.
