terça-feira, 29 de outubro de 2013

trabalhadores de todo o mundo
parai com isso

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Fugia da polícia truculenta, das bombas de choro enlatado e dos jatos de pimenta. Desavisado, anuviado, olhos nublados, cruzou um disfarçado que o derrubou.

Cai o Fernando Abreu

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hips
ter
é
um
hip
pie
con
su
mista

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[deus me livre de revolucionários encalacrados

revolução vai ser um gozo]

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a porta
a porta da viatura
a porta da viatura bateu
a porta da viatura bateu na arma
e disparou
a porta
a porta
a porta
canção da criança morta

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[ano passado, quando dos guarani kaiowá

se disse bastante que a esquerda tradicional, da qual a ex-torturada e atual presidente faz/fez/gostaria-de-fazer parte, não entendia as relações sociais para além das questões campo/cidade

a floresta, o povo nativo, as populações indígenas nunca entraram na cabeça da esquerda tradicional, marxista-industrial-desenvolvimentista

acho que nem a floresta nem a periferia. Porque vejam: quem combatia a ditadura, o braço armado do Estado, era em grande parte a classe média revolucionária. A classe média revolucionária de ontem, hoje é o Estado e o braço armado é dela.

desce-se o cacete na floresta e na periferia, do mesmo modo, porque

hm... "porque eu quis"?

a coisa me parece, embora eu possa estar errado, só um extensíssimo jogo de "quem domina a dominação". Tudo sempre se pautando pelo poder e pelo poder-bater]

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da série "conceituar não custa nada"

:opressão. Não repressão. Repressão é episódica. O resto não.

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preconceito não é argumento

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"A agressão praticada por um civil não é menos covarde do que a praticada por um militar."

Carta Capital e a demonstração de que a esquerda não é mais revolucionária, nem na mídia de esquerda.

[só para resumir: a "agressão civil" é infinitamente menos covarde que a militar e/ou estatal

diria mais :a agressão civil é corajosa

pode estar errada, mas é corajosa]

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[arte de rua

:mandalas

e círculos de poder e invocação

em estêncil

spray

por aí

pela rua]

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amanhã
amanhã será um pouco diferente
só o suficiente para eu lembrar
que ontem e hoje
e dois dias atrás
só para eu lembrar que ontem e hoje e dois dias atrás não foi como será
amanhã
porque amanhã será
um pouco diferente

o pedaço novo da lembrança está guardado
para que a lembrança inteira como a tenho lembrado
amanhã
seja um pouco diferente mas só um pouco
só um pouco porque
nada que eu acrescente ou tire
nada que esqueça
mesmo que eu deixe de pensar ou de ocupar
minha cabeça mesmo assim
amanhã não será tão diferente para mim do que
ontem e hoje
e dois dias atrás
têm sido

iguais

amanhã será um pouco diferente
quase nada
este
poema
não
estará
em
nenhum
livro

este
poema
sequer
existo

este
poema
se faz
na ponta
do lixo

este
poema
sequer
suspiro

este
poema
ouviu
e não
disse

este
poema
burrice

este
poema
se estende
ao infindo

este
poema
lindo

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ela tinha um bosque atrás de sua
casa
atrás de sua casa chamava de floresta
mas era um bosque largo apenas bosque
pelo meio do qual brotavam fontes
corriam rios cavalos cavalgavam meninas iam
de uma lado para o outro
ela sorria e dizia sim que havia
uma floresta em seu quintal
mas era um bosque e era um bosque pelo
qual corríamos
na neve ao sol na noite começada às seis da tarde
ela tinha um bosque atrás de nossa
casa
chamava de floresta e como a casa era
sua então floresta foi
nunca mais bosque águas escuras o som de cavalos
meninas rindo a planta subindo por entre
cercas e capelas pequenas abandonadas
santas quebradas sem braços cabeças
apenas
com o poder de nos livrar de todo
amém

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e se o que engendrar
fascismo
for fascismo?
e se houver fascismos
face-a-face?
e se?

continuaremos nós
julgando
tudo
de nosso púlpito?

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[gandhi blocs

pensei nisso, dia desses
gandhi blocs
com as mesmíssimas propostas dos black mas uma outra e radicalmente diferente forma de atuação

não pacifismo, que pacifismo é conformismo
mas não-violência
não-violência ativa
não-violência desapegada
não-violência entregue
seguir, apanhar, confrontar, morrer, não levantar uma pedra, um pau, uma flor

gandhi blocs]

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pois quem ficou fui

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a poesia está nas solas de meus tênis
de correr
poema é o chão

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não só não faço ideia como não a tenho

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[e ainda que revolta não seja revolução
quem é o senhor
e quem sou eu
pra querer ter a razão sobre o ocorrido?]

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[monopólio legítimo da violência, da coerção, da força física
falou weber

é o caralho
falou a galera]

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ode à ignorância

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se burrice
matasse
ah, se o mundo fosse
um coice

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[todo mundo quer a democracia de atenas

mas ninguém a pedagogia de esparta]

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[uma das palavras castelhanas de que gosto

:imbécil

não imbecil

im.bÉ.cil]

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o poeta
sua poesia

o sino
soa

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[e é isso

a população não é parede

nem pedra dura

bate bate até que resolve descer o cacete de volta

e é isso

não nos cabe falar "tá errado"

a realidade se importa pouquíssimo com o que pensamos sobre

e os grupos enormes reunidos na rua no meio da bagunça, sinceramente, se importam ainda menos]

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sofria
:)
estava sendo filmado

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[evitar :confronto entre manifestantes e policiais

utilizar :ataque de policiais sobre manifestantes]

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vou te comer, vou te comer
e tu também vou te comer
vou comer todas haha vou comer
todas todas eu vou
comer

[sabe
eu pensei aqui agora, lendo Micheliny Verunschk falar de canibalismo, que talvez (mas só talvez, porque isso pode ser uma heresia antropológica) essa sanha comedorística do homem sobre a mulher poderia ser, veja você, um desejo psíquico latente de absorver alguns atributos, assim, digamos, femininos. Entende? Só pensei, porque nenhuma palavra é ingênua]

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o fim de semana chegou
!ê

?daí

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calma
no fim
tudo acaba

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- eu sou budista.

- de qual tradição?

- brasileira.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

microcrítica literária: eduardo lacerda e hoje é outro dia de folia

Admito: demorei para ler Eduardo Lacerda. Até então, pelos últimos meses, Edu foi meu amigo boêmio, editor, filho de pai de santo, bêbado e alegre, o maluco que resolveu publicar meu livro. Até agora Edu foi isso, enquanto Outro dia de folia me aguardava na gaveta.

Hoje, veja você, hoje eu peguei e li, ainda não inteiro que faltam os Despachos, parte dois do orgasmo, mas sim os primeiros Festins.

Edu tem um domínio fantástico da quebra prosódica, da versificação desregrada, daquelas que não devem nada a ninguém e ainda assim apresentam muito. Apresentam tudo, até, talvez, eu diria, conhecendo Edu primeiro de bar e depois de labuta e depois bar de novo. Outro dia de folia, como hoje, aniversário de minha vó, outro dia hoje o dia eu peguei e li Edu. Arrisco dizer que me surpreendi :não esperava.

Arrisco me desarrogar a arrogância :não esperava.

Eduardo Lacerda, poeta, é também editor. Apesar de ter uma mão cheiíssima de bons poetas, Eduardo Lacerda é primeiro também poeta, arrisco dizer, e depois de edição, e depois das artes de nos fazer publicados, felizes, pobres e bêudos. Como agora, aniversário da minha vó, em que bebo a ela e a Eduardo Lacerda, grande poeta.



- Para o grande amor


Talvez, para o grande amor
ainda falte algum filme

ainda falte alguma fala

algum livro

que nos livre.

Alguma

arte, dança, tela

ou anime.

Talvez,
para o grande amor

ainda falte
algum caminho
que nos caminhe.

Algum carinho, algum caminho
que nos caminhe.

Talvez, para o grande amor
ainda falte
alguma
arte,

como uma falta de ar.

Ou uma falta

de ter-te.

Outro dia de folia (2012), de Eduardo Lacerda, pela Editora Patuá. Compre aqui.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

a primeira coisa foi teu riso e depois
veio o resto pouco a pouco até o silêncio
a primeira coisa foi teu riso teus olhos pintados
a segunda coisa foram os movimentos do teu corpo
teus braços os olhos observando o mundo a segunda
coisa foi aquilo
a terceira coisa que lembro foi o abraço
visto ao longe a terceira coisa foi um tanto de
distância e a quarta coisa enfim foi o silêncio
novamente até que a quinta coisa foi teu sorri
so outra vez foi teu sorriso a sexta coisa por fim
chegou e foi teu silêncio de novo e teu sorriso de
novo e teus olhos olhando o mundo e tua boca a sexta
coisa foram teus braços o movimento do teu corpo
a sexta coisa foi enfim a soma toda de todas as coisas
a sexta coisa foi teu sorriso e depois

---

existe todo um mundo
voando entre a retina e o absurdo
existe
um infinito ribombando nos ouvidos
existe o tato dos braços batendo
para se alçar
existe o ar
e a surpresa
existe a beleza e o lago
olhando pra todo lado
existe um mundo em cantar

---

ela tinha
a sensibilidade de um girassol
ela fazia como que
como se não importasse nada além
do lado da luz que ela
olhasse
ela tinha
o rei na barriga de flor
os ouvidos voltados pra dentro
os amores voltados pra dentro
os amigos voltados pra dentro a escuta
ela tinha a escuta de uma filha da
lua nova quando nenhum pio se ouve
ela sabia desterrar o desenterro e
la estava então buraco a cova lá
estava eu estava a nossa profunda
ignorância sensibilidade nosso
ouvido de pedra o arranhar dos galhos
pelas margens
estava também
mesmo que não visse estava também um corpo
já meio decomposto de um boi morrendo
ela tinha
a sensibilidade de um jumento

---

ctrl c ctrl v
ctrl c ctrl v
ctrl c ctrl v
ctrl c ctrl v

v
ctrl c

---

transporte é ruim
televisão é ruim
não me admira que teletransporte nunca funcione

---

a praia assiste a tudo
ao fundo a onda passa a mão
na bunda paternal ao fundo
os cabelos as águas o tempo
escorrem
pro lado
esquerdo
do peito
na praia
o pai
e o filho
sedentos
da boca do estômago ao vento

---

a beleza é um mistério

---

um pássaro cantando nunca nunca está errado

---

[perspectivismo acadêmico

:nunca mais falo sobre espécies não-humanas sem dizer que elas são gente

repito, nunca mais

"E.E.Cummings, neste poema, demonstra a presença da Primavera no canto das gentes ave..."]

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

carreguem
a primavera no coração
não digam que não
silenciem para ouvir
a flor que brota
o broto
que passeia entre os orvalhos
em meio às gotas
de surpresa e desespero
infinito encantamento

carreguem o canto e o rumor
do riacho
riam sem gravidade
também sem apego
ao motivo do riso
ao desejo

sejam
simples e efêmeros
como quem carrega
no coração
mais do que espelhos

[para Gary Snyder, poema na viagem pras três pontas]

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somos só
eu e meu amor no mundo
somos vagabundos caminhando
sem parar
somos pés, mapa, estradas
neblina em que na alta madrugada
sumiremos
eu e meu amor no mundo
somos eu e meu amor no mundo
cremos eu e meu amor no mundo
que virá

[para Jack Kerouac, poema na viagem pras três pontas]

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"Vida,para nossa eternidade,é agora"
(E.E.Cummings)

"O essencial é vivido na presença, as objetividades no passado."
(Martin Buber)

"dita a palavra essencial, amanhecerei árvore"
(Murilo Mendes)

"Eu considero uma árvore."
(Martin Buber)

"Fico feliz de pertencer a uma religião que louva uma árvore"
(Stephen Batchelor)

"Viva!"
(eu)

"Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente."
(Murilo Mendes)

"Ave, árvre"
(eu)

"Ave Sangria"
(Marco Polo)

"Marcooo..."
(Niccolò e Maffeo Polo)

"... Polooo!"
(Marco Polo)

"Lá e de volta outra vez"
(Livro Vermelho do Marco Ocidental)

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entre inferno e inferninho prefiro o segundo
que lá eles têm cachaça pizza e se você reparar bem
até saem murros em briga de bar

o inferno não é lugar para diversão

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as fotos do meu casamento
se queimaram quando a câmera abriu
as fotos do meu casamento
caíram no rio com fotógrafa e tudo
as fotos do meu casamento
estiveram todas fora de enquadro
as fotos do meu casamento
mostravam pessoas com cabeças cortadas
as fotos do meu casamento
mostravam chifrinhos caretas e olhos vermelhos
as fotos do meu casamento
estavam com o flash ligado e inútil
as fotos do meu casamento
estavam no escuro as fotos do meu casamento
as fotos do meu casamento
que nunca existiu
nunca existiram

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a estética é uma ética e vice-versa

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natureza humana
microconto-paródia-chiste de Leandro Durazzo, baseado no microconto-paródia-chiste de Diego Callazans

Certa manhã, acordando de sonos intranquilos, Gregor Samsa se viu metamorfoseado em um horrendo inseto. Como ainda tivesse tempo, virou para o lado e dormiu um pouco mais.

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hell
p
me

--

arremedo desterro
arre
medo
dest
erro

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a poesia não tem pressa
não tem pés
nem vai de rodas
a parte alguma
a poesia não se enfurna
em canto algum
nem na caverna nem no ideário
mundo ideal a poesia não
te faz bem não te faz mal a
poesia sincera
mente não existe
a poesia se arrasta pela terra
mesmo na serra neblina mesmo naqu
ela colina em que voa
no ar
a poesia é só
respirar
o resto
é escrito
esquecimento
e pó

---

eu sinto saudades tuas
mas não as tuas saudades
?tu sente saudades minhas

---

dita
:du.ra

soletra
:dê i tê a dê u érre a

agora façam o cabeçalho
:rio de janeiro, 22 de outubro de 1964

-tia, posso desenhar um solzinho?

"pode, filho"

-solzinho entre nuvens.

"que horas são?"

-hora de voltar no tempo!

"pra qual, crianças?"

-pro pior.

<>

-ah, não?

<>

-parece.

...solzinho entre nuvens...

---

a questão das biografias
agora
nos proíbe
de chamar de filhos da puta
os filhos da puta
sem sua prévia autorização
de suas mães
ou senhoras
e agora?

filha da puta é a legislação
- você me permite, constituição,
dizer assim, você permite? -

---

se a ignorância for fruto da preguiça
ela é má vontade

---

menos mídia
mais amida

terça-feira, 22 de outubro de 2013

o demônio
ele tem mais medo de você do que você
tem dele uma nítida impressão de estar
assim você tem um tanto de tato e de cheiro
de enxofre barato do cheiro do ralo
a visão de milhares de ratos dançando
balé sobre nossos sapatos o demônio
tem mais medo de você de mim de nós de nossa
imaginação ativa de nossa criação divina dessa
criatividade
o demônio tem muito medo de que a gente não bem use
essa dádiva esse dom essa sacada magistral que nos foi dada
pelo demônio pelo demônio pelo demônio
em parceria com nosso senhor jesus cristo em parceria com deus
o demônio e o cristo são ambos ateus
e ficam de joelhos adorando em seus altares
nossos olhares nossos afazeres diários nossos
cantares
todo o universo adora o que desprezamos
nós
os demônios

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a pós-modernidade é amanhã
ontem, a modernidade
a pré-modernidade, anteontem

hoje
façamos o favor
de não rotular o dia

---

não confundir mea culpa
com meia culpa

não ser um falso arrependido

---

nossa ideia de progresso é lamarckista
enquanto a evolução, darwiniana

que quer dizer
:pensamos num progresso passo a passo
num desenvolvimentismo reforçado
pelo surgimento de um bicho melhor

girafa mais pescoçuda

a evolução do senhor darwin não
era assim não
a evolução
seleção natural, cês sabem
dizia :os mais bem adaptados ao meio é que superam
as dificuldades
e criam filhotes
e dão sequência
e os menos adaptados perdem a cabeça
literalmente

a gente acha que desenvolver é evoluir é passar a ser tudo a gente aqui um bicho melhor
mas não
evoluir é se adaptar
e o meio, hoje em dia, é de uma ignorância tamanha
que só o estúpido sobrevive

e eles são muitos

---

se a cegueira fosse um bicho
comia
mordia
peçonhenta ignorância
se a cegueira fosse um bicho

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contra o ouro negro
os black blocs

contra
a cara de pau
o grito da terra

contra a morte e a guerra
todos de nós
enlaçados

---

ela simplesmente não sabe que estou
na dela
ela simplesmente não
ela
não sabe que estou
nela

---

eu tava pensando, por algum motivo aleatório, talvez motivo nenhum, mesmo, numa expressão engraçada que tu faz. um franzir a testa sem razão aparente, também, como se estivesse testando o corpo, o rosto, o mundo. Achei curioso lembrar disso. Uma lembrança sem motivo, de uma expressão sem motivos.

---

tua beleza vem e passa
volta e passa
para, respira, espia, sorri e passa
mas nunca fica
em mim ou
na vida

tua beleza seria nada
se fosse só u'a beleza
tua beleza seria
fraca
se em volta dela não existisse
ao que parece
o resto todinho de ti

bonita
independente de seres
linda

---

[a gente acorda e de repente tá lá uma nota
um email dizendo que aquele poema chinês
tão legal de traduzir coletivamente
e que já se achava esquecido na gaveta da cabeça
deve sair publicado em Macau

não se esqueça, animal
a gaveta é um mundo]

---

a poesia escorre
cerveja escorre
sinônimos

---

eu tô
cansado
vocês não
sabem
eu tô
cansado

---

projetos projetos projetos projetos projetos

e mais projetos projetos projetos

a vida é uma projeção

luz
cor
e sombra deline
ando

tem toda uma realidade não só na palma
na mão
tem toda uma realidade nova
no chão

pisemos

---

nós

um monte

d'eus

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ah, estúpidos
como o mundo seria fúlgido
sem vocês

---

[usar "legalista"

em vez de "legal"

em todo contexto que legalista caiba
e deixe implícito
que a legalidade é uma canalha]

---

[frankfurt, tu tá de parabéns

mostrando o melhor do nosso melhor
evidenciando o pior do nosso pior
e desvelando a hipocrisia mesquinha de nossa hipocrisia mesquinha

frankfurt, eu nunca gostei tanto de uma feira
desde quinta passada, quando comprei tomates]

---

[diferenciar

manifestação pacífica
de
manifestação não-violenta

porque vejam
:pa.cí.fi.co
adjetivo
2. Que apresenta .tranquilidade. = quieto, sereno
3. Que é aceite sem contestação

pacífico é igual parado
e manifestação não
manifestação é o contrário
é o mexer-se, o muito, o vário
o grito, a transformação

é o inquieto querendo paz e a paz negada

portanto, negada, manifestação não é pacífica nada
manifestação é não-violenta

pacífico é um oceano
e a manutenção
da manada]

---

toda violência é burra
mais burra que unanimidade
toda violência é burra

---

''...começou pacífica
e então mascarados
vândalos
se juntaram à manifestação

(ouvem-se tiros)

e fizeram um quebra-quebra''

então pergunto
vamos lá
interpretação de texto

:os tiros
antes do quebra-quebra
não indicam
quem primeiro quebra
quem?

---

a palavra do dia é
responsabilidade
de todo
dia

---

cada bomba oitocentos mangos
cada bomba
meu deus
quantos livros cada bomba dá
ou daria
quantos livros, meu deus, quantos livros

---

o objeto é mais objetivo que o sujeito
por isso
esses cornos
só se importam
com perdas e danos

---

e a Noite orgulhosamente apresenta
:chuva
e estrelas

---

[acho que precisamos de uma série de coisas curtas diretas e retas
sobre questões fundamentais e banalizadamente esquecidas
intitulada

VOCÊ SABIA?

cartilhas de crítica]
fartar-se da miséria
mesmo que esta seja
assim paupérrima
mesmo que não tenha
carne sustança mesmo que
a miséria se esgueire entre
trezentos milhões de alqueires
mesmo que a miséria se arraste
como aquele traste aquele preto aquela
puta aquele trombadinha aquele vândalo aqu
ela madame? -Isso, ela!
aquela vadia aquela professor a
quilo não pode ficar assim
não pode ficar assim isso
não!

fartar-se da miséria
da miséria e desrespeito
farta-se de não comer
de não ter no peito nem ar
para respirar fartar
-se ao menos de alguma
coisa
somos todos portadores
de deficiências
portamos sobre as costas
as cidades
portamos a sociedade
somos todos portadores
de necessidades especiais

---

demorei pra entender que
a forma como tratamos os índios
e sua terra
(não nossa. Sua terra)
é a mãe dos problemas
é a base dos maustratos que impomos
sobre as periferias, sobre os marginalizados,
sobre as mulheres, homossexuais, sobre a natureza, os animais, sobre todos aqueles
outros

a forma como tratamos os índios
e sua terra
é o que nos desumaniza em primeiro lugar
é o que nos desumaniza em primeiro lugar

mas se tratarmos direito, imagino
pode ser o que nos venha humanizar

---

[em tempo, ainda

"mas a humanidade sempre foi assim
um explorando o outro
os homens se digladiando
um querendo tirar vantagem
vendo o outro se foder"

pode ser
mas você pessoalmente
você que lê agora
você
pretende continuar com isso?
foder e ser fodido?
sai algum prazer disso, sai?

apontar a merda da humanidade e dizer fazer parte dela
ok, vá lá,
mas querer continuar
mesmo
é imbecilidade.

louvo tua perspicácia historiográfica
"sempre foi assim"
desprezo teu discurso babaca
"vai continuar"

porque não, nego
não vai]

---

[em tempo, resumir o capitalismo ou a lógica capitalista à utilização de dinheiro ou à ganância é não saber absolutamente nada
nem de capitalismo
nem de dinheiro
nem de ganância
nem de suas alternativas]

---

quando o argumento se resume ao dinheiro, o argumento é inválido

---

vou fundar um ashram
ou me juntar a um
achas que não?
pois vou, veja

---

[atenção
responsabilidade
escuta
e reflexão
faltam]

---

otarismo
nosso sistema político médio
e política sistemática da mídia

---

["ela ia com todo mundo"

"ele ficou bravo porque fui contigo"

"ela ficou brava porque fui contigo também"

essa acepção de
ir
é uma delícia]

---

às vezes a Musa vem
suja de lama
de vida
fedida
pesada
às vezes a Musa vem
como quem nem queria
como quem queria era mesmo
ir
daqui pra fora, pra frente, pra sempre
pra longe deste poema

---

hey, hey, hey
escuta
hey, filho da rima
escuta
democracia
HEY
democracia não significa
gritar mais alto e levar a fita
ouviu?
OUVIU?
quando o mundo sambar sobre nossa cabeça
mesquinharia
indecência
quando o mundo passar a passo de coco
pisado batido quando o mundo
tiver ido
talvez a gente aprenda
o ritmo
talvez a gente dance
o mundo
quando o mundo sambar sobre nossos ouvidos

domingo, 6 de outubro de 2013

ouvi dizer que o império
está caindo
que o império em queda livre
cairá
em nosso coco

ouço
dizer que aqui
baixo na sombra
seremos lombrigas tontas esmagadas
por gigante

já não sorrio como antes
mas bem confesso que me bate
uma esperança

se o império soterrar
todos nosotros
se a américa dobrar
-se como um tronco esfacelado
tronco caído
tronco deitado
tronco sem vida
um tronco morto
por sobre as cinzas
do que nós fomos

se o império despencar
por sobre o mundo
talvez possamos
afinal
crescer de novo

limo e vermes redivivos entre
madeira e lodo

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Paulo Coelho desiste da Feira de Frankfurt
eu acho bom
eu acho bom

não que ele não pudesse ir, veja bem
ele pode
a Feira de Frankfurt não tem o nome de Feira de Literatura
mas Feira do Livro de Frankfurt

devia ir o Paulo Coelho
e os escritores da lista telefônica

não sou de cânones
:livro é livro

---

seria cômico se não fosse crônico

---

[a gente chega numa altura da vida
em que nossos interesses conseguem juntar
sem esforço

poesia
xamanismo
infância
ética
e participação político
estética

é curioso

e, com sorte
nem é a metade da vida, ainda]

---

eu fui pro templo
eu fui pra portugal
eu fui pra taiwan
eu fui pra portugal
eu fui pro templo em frança
eu fui pra portugal
eu fui para macau
eu fui monge por lá

e daí eu voltei
cansado
envergonhado
por ter sabido tanto
ainda que tão pouco
dos monges
dos budistas
xamãs dos feiticeiros
dos povos das montanhas
das águas
das águias
das mágicas
dos santos
dos anjos
das fadas
das faces marcadas nas árvres
dessas coisas todas
de lá
de lá

voltei com vergonha
pra cá
porque eu não sei
de nada

voltei para cá
porque eu não sei
dos povos da floresta
dos bosques pantanal dos pampas
cerrado caatinga nem sertão
sei não

voltei de portugal
e ainda não pisei
na terra

saber voltar pensar
pisar
no chão

não é propriamente um poema

hoje pensei em livia
fazia tempo que não pensava em livia e é engraçado
porque houve um tempo em que pensava
em livia o tempo todo

hoje pensei em florine
e é engraçado
porque eu penso sempre nela
inclusive pensava nela quando falei
de livia
e ela sorrindo ficou feliz
e pôde me falar
de seu novo amor

é engraçado
hoje pensei em livia
e no novo namorado
de minha noiva

e é engraçado
que o vento da tarde na praia
o calor o mormaço
abafado
noroeste como chamamos
aqui nesses cantos
noroeste o vento pesado
e calmo
que traz tempestade
engraçado

hoje pensei em livia
fazia tempo que não pensava em livia e é engraçado
tê-la pensado

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

anticonstitucionalissimamente

crescemos ouvindo dizer que é a maior palavra
da língua portuguesa
e pelo menos aqui no brasil
acho que acabamos achando
que ser a maior
é um elogio
e assim agimos

anticonstitucionalissimamente

---

acreditar no poder do mundo

---

se dinheiro resolvesse tudo
a gente já teria feito
uma vaquinha
e consertado o mundo
se dinheiro resolvesse tudo

---

sabe...
o que a gente quer
é que as coisas se resolvam por decreto
passe de mágica
é isso que quero, não vou mentir não

porque quando as coisas saem assim do controle
quando o controle do Estado é de força mais que de fato
e quando de fato o cacete come rua afora
contra toda decência e sanidade
contra toda responsabilidade

eu queria que as coisas se acertassem por decreto
passe de mágica
nescafé

mas não, né?
e aí a gente fica olhando
olhando
falando pensando
indo pra rua e apanhando
(parênteses pra me salvar
da hipocrisia: ainda não fui à rua
ainda não apanhei
admito)
aí a gente fica olhando
e não sabe o que fazer
nem por onde pressionar
nem o que mudar primeiro, exatamente

é toda uma cadeia intrincada de erros desmandos tormentos e torturas
em espaço público ou na clausura, digaí amarildo velho de guerra
digaí

é toda uma complexidade triste
violenta
e angustiante

que, como antes, a gente só
olha
e fica olhando
sem saber por onde continuar
(porque começar já começaram
evoé, saravá, deus abençoe os movimentos)

sem saber por onde ir
sem saber onde apontar
sem saber qual nó desataria o absurdo

---

ninguém resiste ao tempo
e o tempo
não resiste a passar

---

[engraçado como de repente
as coisas vão vindo e voltando
as imagens

como se me assombrassem
mas tranquilas
mais parecidas com fadas natura do que
com fantasmas

imagens
poéticas como as de meus autores
mestrado e doutorado
jorge de lima e e.e.cummings
escritores
e artistas visuais, pintores, plásticos
fotomontagens

engraçado porque
teve uma vez em que pensei estudar
o circo
viver no circo, propriamente dito
e estudar

eu ia chamar de
antropologia
ia dizer que viver no circo era
um pretexto
de etnografia

mas não fui

e nem eles
escritores
apesar de terem no circo um dos bons motivos
em suas poesias

no círculo
na órbita
nas esferas
constelação

engraçado como as coisas vão
e vêm
e ficam
mesmo sem nunca nem
começar

respeitável público]

---

maldito caminho das índias
início da globalização
malditas especiarias
maldição
sem vocês hoje não teria
spray de pimenta na mão
de filho da puta nenhum
não teria
não

---

[ouço a globo

(é, eu sei, lamentável)

ouço a chamada e a menina fala

:ah!, acho
que o amor nasce com a gente
e o sexo a gente aprende
culturalmente

e séculos e séculos
de pensamento crítico antropológico
vai pro buraco na mente do povo
que só ouve a globo]

---

[toda vez que eu ouço
quebra-quebra
na tevê eu penso
em substituir
por outra palavra assim

chup-chup

"e no próximo bloco
:mais um dia de manifestações
e chup-chup
pelas ruas da cidade

os manifestantes pediam pelo óbvio
respeito e igualdade

um bando de mascarados foi visto
iniciando o chup-chup
na câmara dos deputados

o choque foi acionado contra o chup-chup

houve confronto"]

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

não se sabe mais
o que é democracia
talvez nunca se tenha
sabido
não se sabe mais porque
tal coisa
escapa ao império dos sentidos
não se sabe mais
porque
democracia é um conceito assim
esvaziado
vago vago
nada dentro
saco vazio não pára
?sabe
democracia é uma palavra
a mais das faladas hoje em
dia
e das menos sentidas
democracia não tem mais sentido dentro
porque mãos de fora lá foram e
arrancaram
democracia parece um jarro
de flores de plástico
mortas
mas sem nem as flores
mas sem
democracia é uma palavra estuprada

democracia ganhou de deus, nessa desgraça
"de perto ninguém é normal"

!mentira

chega perto, bem perto mesmo, e vai vendo
vai desenroscando os motivos as tendências os costumes
vai observando que
de perto, bem de perto mesmo,
ninguém é diferente

é tudo um amontoado de carbono
e maus hábitos
é tudo

---

enquanto o mundo rui
tô-me eu aqui
pensando sobre a alma
pensando se ela há de
por ventura
existir

---

[transcrevendo um trecho de Tocqueville
sobre Sobre a Democracia na América
ouvindo o jornalhoje dizer "a estátua da Liberdade
está fechada
por causa da queda de braço dentre republicanos
e democratas"
transcrevendo o trecho que diz
"os partidos políticos são um mal
inerente aos governos livres"
escrevo
errado
"inerente aos governos libres"

latinamérica manda abraço]

---

tirem as armas do Estado
antes que a tirem
mais

---

quando louvo minha imaginação
mi'a "poesia"
quando as coloco num altarzinho
do lado de jesuscristinho crucificado ou
do buda gordinho sentado em moeda
quando eu faço essa merda
minha imaginação se hipostasia
hipostasiar, pode procurar
se hipostasia
endurece
e morre
não tem deus que te socorre, depois dessa
não tem deus

---

lugar de mulher é longe de ignorante

---

nossos bosques têm mais vida
e a gente nem liga

---

eu ouço um grito, nessa imagem
vindo do cara ali de trás, policial
e tem um choro
acho que de professora, se não me engano
não sei, sinceramente
mas ouço um choro
quase em posição
fetal
e tem alguns absurdos incontestes
são quase todos
mas tem alguns
embasbacados
e ali do lado
xerox a 7
centavos
porque o conhecimento
logo se vê
vale muito pouco




---

[em tempos de 50 tons de má escrita
escritor bom ficar calado
- ou mesmo médio. Até escritor médio que fica calado -
é irresponsável]

---

amigo
não banalize a ignorância

---

[a propósito, estou convencidíssimo de que entendi a resposta à pergunta fundamental para a vida, o universo e tudo o mais

convencidíssimo

nunca vi ninguém falar o que entendi
então, até que me provem o contrário, só Douglas Adams e eu entendemos
o que a resposta
a Resposta
significa

42]

---

esperavam dele a resolução do mundo
o preenchimento das questões
profundas sérias das mais pertinentes
da humanidade
queriam que ele soubesse o sentido da vida
e mais que isso
queriam que ele falasse
ensinasse
o sentido da vida

mas ele, escritor, apenas sabia lidar
com palavras
e só

---

quando aparece ela
no começo do dia a gente
sabe que o dia
vai ser uma merda

---

precisão
sereno e serenidade

---

[quando você pergunta à ex
"namorando?"
a resposta certeira e mais justa do cosmos devia de ser
um tapa na orelha]

---

dar voz aos que não têm
voz
e ouvidos aos que não ouvem

---

abraça-te, sésamo

---

não ser uma pessoa cansativa

---

"A Joana parece um exu"

no Clube, à noite, secando o último copo e prestes a ir pra casa, Joana sorri e vaza

---

a vida tem a sutileza de um passar de tarde

---

[não há desenvolvimento e progresso
sem dedicação
sem envolvimento
atenção
e mãos à obra mãos na massa mãos sujas de terra e graxa
não há desenvolvimento quando o bando de jumentos
que hoje somos
não se envolve]

---

[você mastiga um dente
de alho
e pra tirar o bafo o gosto o quente
mastiga um broto de gengibre junto

a vida natural não é de luxos e confortos]

---

[no sufrágio universal
digo
por que não votam também crianças?]

---

[é impossível a manutenção de uma existência política constante, em um sentido estritamente político

mas ético, estético, existencial, é possível pensar num sujeito político constante, total

para quem não todas as coisas se mostrem enquanto política

mas para quem toda política se dissemine nas coisas]

---

[a democracia está dividida em diferentes tipos, sendo os dois principais:

democracia direta, em que o povo manifesta suas preferências e vontades, por voto direto, em diversas questões e assuntos diferentes; e

democracia indireta, em que o povo não manifesta nada.]

---

[democracia real
monarquia do povo]

---

vencer na vida é uma expressão tão triste

domingo, 29 de setembro de 2013

eu, quando era criança, não sabia o que seria. às vezes pensava em ser marinheiro, capitão-de-fragata, corsário, embora corsário tenha vindo só bem mais tarde, e até hoje é das palavras curiosas das que não se sabe o significado exato, mesmo sabendo. às vezes era astronauta às vezes biólogo às vezes biólogo marinho às vezes político e presidente da república, mas esse também veio tarde. e foi rápido, graça deus. às vezes pensava em alienígenas discos voadores abduções e viagens espaciais, pensava em mar em nadar em mergulhar pensava no fundo do mar quando era criança, pensava em muita coisa. eu sonhava de olho bem aberto, na escola, em subir correndo por uma pilastra e, lá no alto, no teto telhado fazer meia dúzia de acrobacias enquanto as meninas ficavam no chão, se estapeando, em disputa pela minha atenção. E lá no alto no teto eu macaqueava de uma pilastra a outra, de uma trave a outra, subindo até o alto mais alto possível rodopiando com a facilidade de um pé de vento. quando eu era criança, eu lembro, não sabia o que seria, mas sempre quis ser muita coisa. hoje, não sei. hoje, especialmente, hoje de fato não sou.

sábado, 28 de setembro de 2013

nada de novo sobre o sol
um dia apagará
os problemas
são mais antigos do que eu

o direito de cidadania
portanto, assim
é deles

eu
com minha novidade
que não atrapalhe os problemas

eu que os respeite
os problemas
são mais antigos do que eu

o direito de cidadania
portanto, assim
é deles

eu
com minha novidade
que não atrapalhe os problemas

eu que os respeite
caríssimo querido buda
desculpa
hoje acordei errado

hoje acordei com raiva
não não, não com
raiva assim de alguém
algo
nada
só enervado
hoje acordei enervado

caríssimo querido buda
?sabe

hoje o nãoouvir
o nãofazer
o nãoquerer
nãoajudar
o eu bem eu
o eu sim eu
hoje eu acordei
como quem não precisasse de acordar

caríssimo querido buda
hoje
diferente de quase sempre
minha cabeça passou voando e atropelou
os muitos que reclamam da natureza
do som dos bichos
das incertezas
certezas muitas

caríssimo querido buda
se a mente não fosse um macaco
pulando de galho em galho
mas sim fosse um elefante
caríssimo querido buda
as minhas patas teriam feito
patê de gente

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

hoje
a manhã não há
manhecerá aos poucos lentamen
te ouvindo ouvindo te vendo displicente
hoje amanhã não ha
verá quando a
caso outro dia fores

---

- E aí, nêgo?
- Nego.
- Quê?
- Que foi.
- Que foi o quê?
- Nego, nêgo.
- Mas né? Vai que...

---

[vamos fazer todas as coisas absurdas parecerem boas desejáveis
vamos fazer

?ou já fizemos]

---

lá embaixo há uma série de ratos
assistindo seriado lá embaixo
há
turbilhões de fogos fatos desg
arrados lá embaixo
enquanto o pato passeia a pata
pela lua cheia a lama enquanto a
alma
certeira se desfaz em fitas
se disfarça em folgas
e marmitas
as marmotas lá embaixo assistem
aos ratos
assistindo seriados

---

felicidade
facilidade

---

dar tratos à bola
a toda hora rola uma
história
de vida
decida
e vai

---

todos os problemas vêm juntos
todas as soluções também vêm

---

mais campos de carvalho
menos olavo

---

so*
n*o

---

a diferença entre prosa ruim e poesia ruim é que a poesia ruim
quando é ruim mesmo
acaba logo
a prosa ruim vai se arrasta a prosa ruim
ruim que só
a menos que seja uma epopeia
se a poesia for uma epopeia ruim
aí fodeu
mais que um romance
se for epopeia ruim então pega logo crepúsculo e lê
ou aquele livro do sarney do qual não me lembro o
título

ou será que sarney era poeta?

---

literatura contemporânea
repetição da modernidade
modernidade
repetição
da modernidade
fratura e modernidade
dom quixote todo fodido
literatura contemporânea
blabla dor blabla cidade blabla tristeza
ser alçado pelos ares pela pá do moinhão
ninguém quer não, quer?

---

anuncia-
se a Primavera trouxe
r flor
?trouxera

---

antes da era comum
era comum
já não é mais

---

- Gato mia!

- Miaaau.

- Gaaato mia!

- Miau!

- Gato mia!!

- Miaaaããã...

- Lobotomia.


---

é uma beleza atrás da outra
vão-se as flores
chegam-se as rosas

vinte e oito, pá

No bar triste doutra noite hoje ouvia rock & blues. Fiz a reverência ao buda de madeira antes de almoçar. Assim que ele sorriu, comi.

O caminho pra China passa por Portugal, vocês devem saber. Hoje logo cedo, antes mesmo de almoçar, fiquei foi bem sentado bem no meio de um lago, em volta tudo água bambus e carpas. E flor de lótus. Mas hoje eram mais.

Minha avó deu a meu pai um colar de ouro, de estrela, benzido em pai de santo. Num exu, bem da verdade. Isso faz tempo. Hoje o colar é meu, meu pai me deu antes de eu seguir. Era Exu Seu Tiriri, o exu, dos primeiros amigos que tive que eu lembro. Ele e meia dúzia de crianças mortas. Ou desencarnadas, como queiram.

Na reunião eu não falava chinês, mas desenhei no ar um ideograma com o dedo. Estava certo. Além do papel, o ar aceita tudo: mas nele o absurdo se desvanece muito mais logo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

como vagas que de repente soter
rassem máquinas industriais
ou falo ou talo ou totem primitivos ou
esquilos guaxinins a lua de manhã o aca
so a morte a angústia de quem
dama de vestido verde amarelo eu e ela está
vamos ali encostados n
ão quero nem saber rolei com ela pelo
chão de giz e tantas tantas tantas referên
cias que aquela a quem se ama não consegue com
preender mas nem com muito sacrifí
cio

---

amargura não é a palavra
amardura

---

heterógrafos de poetas esquecidos
gumes bandidos de esquizofrenia
mente partida
diz a verdade
e parte

---

o mundo não é das crianças
mas devia
não ouça o que eu falar
dona moça
ouça não
que o que eu falo é pedaço
do chão enlameado onde passo
meus dias meus tempos meus nãos
ouça não, dona
moça
ouça não
que meus passos se apagam mal pisados
que meus rastros se arrastam pelo chão
num só estado
leveza breve e transmutação

---

amor
obrigado pelo abandono
orientador
obrigado pelo abandono
mestre zen
obrigado pelo abandono
desapego
nunca tive tanta sorte
e tanto sono
quanto agora
sem seus treinos

nunca fui de muito medo
obrigado pelo abandono
destino e
segredo

---

"I hope you
are doing well
that you are dancing
in a mystical circle
around sjamanistic fires"

[em torno de fogueiras
crepitantes
fogos xamânicos

e assim amanheço o dia]

---

apofática é negação
negatividade não

---

mundo é pequeno não
gente é que é grande

---

há dias e há dias
e todos guardam surpresas
até os dias em que
aguardas

---

sociedade do espetáculo não
sociedade do escândalo

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A ética da ética

ou Resposta de um antropólogo budista ao menosprezo com as baratas


Diz o amigo: "Recentemente ouvi uma história hilária: alguém contra matar baratas porque não se deve matar nenhuma forma de vida. Risadas? É bom da próxima vez que alguém te convidar para ir na casa dela você checar se ela defende os direitos das baratas."

E eu digo: não, sem risadas. Talvez um pouquinho, dos outros, das irônicas, mas nada que passasse incólume a minhas próprias risadas sarcásticas sobre outros absurdos obtusos, sobre outras questõezinhas culturais religiosas éticas políticas e - especialmente, especialmente - públicas e formadoras de opinião. Ou deformadoras, que hoje em dia já costuma dar no mesmo.

Pondé fala sobre um "budismo light (com pitadas de delírio)" e pergunta: essa moçadinha pirada - nós, no caso, eu - "já olhou para natureza a sua volta? A natureza é a maior destruidora de vidas na face da Terra. Ela mata sem pena fracos, pobres e oprimidos. A natureza é a maior "opressora" da face da Terra."

Ô se olhei. Ô se olho. O tempo todo. Como naquela vez em que salvei um passarinho machucado que, no fim, não conseguiu voar e foi semidevorado na minha frente pelo gato de casa. Lá em Caruaru, isso. Foi triste.

Ou quando esse mesmo gato - esse gato era impossível - brincou por horas com um sapo, coitado, até que eu visse e levasse o anfíbio pra fora. Não sem antes, culpa minha, quase arrancar uma de suas patas. Ou pernas? Não sei exatamente o nome dos membros saltadores dos sapos. Sei que quando libertei o coitado, todo mazelado, ele não deve ter durado nem cinco minutos no brejo da frente. Eu sim, eu sei, a natureza é foda e não dá colher de chá pra nenhum ser por aí afora. Colher e chá são invenções da cultura.

Assim como o budismo - "light" ou com gordura -, assim como o judaísmo do Pondé, assim como sua epistemologia profunda, assim como o cachimbo que ele pita e a couve orgânica que eu como. Que eu nem como, mas dava uma boa imagem complementar.

Por ser cultura, e não natureza, é que nós budistas tendemos a não matar intencionalmente outros seres. Matamos uma caralhada, é fato, aos baldes, na colheita dos grãos por ceifadeiras que vão arrasando plantações inteiras. Sabemos disso, das mortes dos insetos, pequenos mamíferos, anfíbios e répteis. Aves talvez não, embora eu tenha visto um beija-flor esmagado pelas rodas de um carro, dia desses.

Sabemos disso, porque nossa cultura e pensamento são também autorreflexivos. É fácil compreender as próprias limitações quando se está bem situado nelas. E nós estamos. Bem situados, enraizadíssimos. Tudo o que somos são limitações.

A questão que se coloca é: e então? Sabendo disso, sabendo que a natureza da natureza é o assassinato a sangue frio - mentira, não é, mas fiquemos com essa imagem - o que nós enquanto cultura vamos fazer com isso? Assassinar a sangue frio? Friboi? Expor com orgulho pedaços arrancados de outros seres vivos entre um bloco e outro da novela? Entre uma trepada selvagem encenada e um quiprocó homofóbico com o torto intuito de esclarecer a população contra a homofobia? Ou quaisquer dessas pautas justas que as novelas tentam e costumam transmitir da forma mais errada possível...

Nós somos animas, somos natureza, nossa essência é descer o cacete no adversário e dominar o território. Mas enquanto eu escrevia toda essa oração, minha essência não era só natureza desregrada. Era, também, natureza equilibrada. Apta a lidar com símbolos, linguagem, consciência. Compaixão, como diriam os mestres budistas - ou qualquer budista com o mínimo de coerência.

E a compaixão nos leva de volta às baratas. Nos traz. Porque dizia uma mestra, num retiro em que estive há pouco tempo, sobre um templo cheio de baratas. Ela disse, caro Pondé, meu amigo: "É claro que não podemos ter baratas no templo. Isso demonstraria descuido, desrespeito, desleixo com o lugar. Falta de diligência" - diligência, Pondé, é uma das virtudes transcendentes do budismo, bem como a compaixão. E a mestra continuava: "Surgindo uma barata, fazemos o possível para levá-la pra fora, sem ferir, sem matar. E voltamos a atenção à diligência, à limpeza do templo, à viabilidade do espaço que ficou faltando."

É preciso cuidado com o mundo, atenção para com as coisas e os fluxos dinâmicos que as relacionam - esgoto mal cuidado, comida apodrecida, cidades esquizofrênicas tumultuadas sem saída de ar, de água, de vida: isso atrai baratas. Isso atrai velhice doente, doença e morte civilizada. E morte civilizada é morte esclerosada, é a negação culturalmente construída de uma realidade dada. Para os budistas - nós, no caso, eu - a morte, a impermanência está aí. Podemos compreendê-la e a integrar à vida, porque ambas são integração, ou podemos tentar, com sarcasmo e desinformação, desinformar nossos irmãos humanos e nos iludir que ludibriamos a morte. A tristeza. Mas não ludibriamos, e quanto mais contra ela, mais ela está conosco.

Mas digo tudo isso, divago tanto nisso porque agora há pouco entrou uma barata em casa, no quarto de minha irmã. Que não é budista e gritou como uma desesperada. "Rápido, antes que eu mate!". E fui. Com uma saudação budista - ridículo eu, né? Ateu e laico fazendo essas coisas, saudação budista de compaixão por uma barata - com uma saudação levei meus chinelos para recolher gregorsansa. Com meus chinelos, claro, porque eu sou budista mas conheço a teoria dos germes.

E a barata - veja você! - virou de ponta cabeça, de patas pro ar. Como se estivesse morta, mas não estava - por um momento, admito, fiquei preocupado por tê-la matado. Não estava morta e assim que pedi "vem", com meu chinelo perto dela, ela veio. Subiu na borracha, teve a decência de se manter na sola das havaianas e ficou ali, quieta e comportada até que eu a levasse para a janela. Janela afora. E para o mundo.

Porque há culturas e tradições que simplesmente veem o mundo como inimigo e lutam para o controlar. Porque há culturas e tradições que, negando a natureza com tal obtusidade, se separam dela e se arrogam um sarcasmo mal disposto. E há outras. Algumas das quais, evoé, saravá, axé, gasshô, faço parte. Graças a Deus.

Em tempo, também pensamos sobre a dor e sofrimento das alfaces. Não somos insensíveis. Nem desrespeitosos.

(Para quem se interessar, eis o link do texto que deu origem a essa minha reflexão: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/09/1342503-a-etica-das-baratas.shtml)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

arma
zen
ar

---

triana, triana mía
triana del' madrugá
un día vuelvo a triana
hacer cantares allá

---

o corpo da vida é linguagem
a alma da vida é vida
desalmada, falta vida
descarnada, falta língua
e quando são as duas
uma só
e a mesma coisa
a vida da língua é corpo e a alma do corpo é língua

---

o poder do
não, não é

---

[ninguém devia se dizer "filósofo"
nem "poeta"
nem "correto"
ninguém devia se autodeclarar

tô só comentando]

---

[o que nos permite julgar tão automaticamente as pessoas
via internet?
será o mesmo que nos permite
julgar as pessoas tão automatica
mente como fora da internet?]
fantastique
c'est une litérature
très chic

fantasia
é desperdício de linha

---

poeta porreta profeta proxeneta

---

ah, espaço da escuta
seu filho da puta
em que buraco bueiro bu
cê tá enfiado?
---

transcender a modernidade
pela ironia
fazê-la tomar do próprio
veneno
transcender a modernidade
aquiagora
gil gomes sob um copo de cicuta
escuta
sócrates
fazendo um gol
transcender o moderno pelo
concreto
sarcasmo escorregadio
do ofídio
enclausurado entre jaulas de geléia
geral
levanta a mão
e diz hey yo
armas químicas entre nós
fisicamente impossíveis
e te deslocas como sóis
geograficamente distantes
astronomicamente distantes

sábado, 14 de setembro de 2013

ccena bbanal

Rio de Janeiro, museu, exposição de arte, galeria. Uma menina, sorrindo, tirava foto de si mesma. Naquelas poses de autofoto, ângulo alto, sorrindo. Sorrindo. Mão na cintura, sorrindo. Flash. Sisuda. Sisudíssima. O sorriso bonito era mesmo pra foto, e só. Clicada, voltou ao normal, voltou a não ligar mais pra nada. Museu, coisa chata. A telinha da câmera digital não estreita só a vista, mais. Hoje em dia, sou forçado a achar, estreita a vida. Sisuda. Chata.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013


a máquina de guerra move as engrenagens
um velho berra e uma criança
no desterro ouve a chuva
caindo em desespero
no seu berço

a máquina de guerra não quer nem saber a
máquina só quer passar passar
a máquina o que faz é isso
a máquina a maquinar

enquanto em algum precipício pela borda
um cego erra sem saber sem esperar
que a máquina de guerra vem chi
ando e chiando vem a má

quina de guerra o tiro o sol que erra
o sol que acerta ofusca o fusca o
tiro o desperdício que me acerta
em
cheio
a máquina de guerra bem no meio
bem no meio de uma paz a guerra está

---

gelo no joelho
passa

---

ela não tinha olhos azuis
mas é como se eu visse céu e
mar ela não tinha a pele branca
mas como neve era como se de
repente derretesse algo aqui dentr
o que mais incendeia é o fato de q
ue não tinha cabelos ruivos ou
pelo menos ainda não tin
ha contentamento en
cantamento não ha
via um sozíssimo momento
em que seus olh
os azuis não fos
sem areia

---

[você que dizia
"na ditadura era melhor"
pois é
ditadura tá de novo aí

você que dizia
"na ditadura era mais fácil
o inimigo era mais claro"
pois é
ditadura tá aí de novo

você que dizia
"deus me livre da ditadura"
pois é
tá aí de novo a ditadura

você que é mudo
ou mudado
pois é
ditadura pra todo lado]

---

não sei se é indigestão
ou meu coração parando lentamente
enquanto as mãos sorriem
sorriem
tremendo
não sei se é indigestão ou
passar do tempo

---

i
no
cu
o?

---

?o dono do cão que abana o rabo
ou o rabo que abandono?

---

(pégaso)

diz
monte
que não dá pra
carregar
fala ent
alada

---

[nota sobre democracia:

se sua opinião é um contrassenso
se sua opinião é ilegal
se sua opinião não é amparada por qualquer racionalidade e lógica jurídicas
então, meu amigo
a democracia não autoriza que ela se transforme em argumento

muito menos argumento de autoridade]

---

julgada
por abandono
de lá
ela
foi

---

esculachou-se-me

---

caramba
nun
ca vem
ma quando
vem
bomba

---

animador cultural
animus
à flor da
pel'
anima
da cor da
fé
omnibus
tudo que
é

---

como ela
é incrível

---

no Rio também é
proibido
o uso de máscara
de mergulho?

---

todo dia cai
uma

orre

---

você não
sabe
até que
sobe
você não
sorve
até que
sopre
você não
ouve
até que
couve
não, brincadeira
você não
sabe
até que
saque
que sempre
arca
co's badulaque

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

microcrítica literária: júlia de carvalho hansen & fado blues

Conheci Júlia quando conheci Lisboa, mudando eu pra lá e ela, acho, recém-mudada. Ou quase. Ou quase nada. Lembro da história das histórias de portugueses, de seus lentos desenrolares, arrastares, que ela me apresentava - a mim, recenzíssimo-chegado. Gabriela Llansol, Natália Correia, possivelmente Sophia de Mello Breyner Andresen, falava Júlia enquanto eu olhava a cidade lá embaixo, do alto do miradouro da Graça, perto de casa.

E digo isso porque por muito tempo, uns meses, seu alforria blues ou Poemas do Destino do Mar ficou perdido à deriva entre minhas coisas, carta de socorro sufoco e desabafo carregado pelas vagas de minhas malas, livro-mensagem engarrafado. "Abril de 2013", diz a última página, "Ano 457 da deglutição do bispo Sardinha". E só agora, passados meses e voltado eu ao Brasil, termino de ler o pedido enquanto Júlia caminha, ainda, na ilha de Dom Sebastião. Que é uma península. Mas mensagem jogada ao mar de uma península não tem o mesmo efeito.

A imagem do cavalo, recorrente mas sempre tênue, "pássaro selado e cego" (IX), percorre o livro enquanto percorremos o livro enquanto Júlia percorre, ao que parece, o livro. E o país antigo, aberto como um livro mas grafado velhamente em caracteres barrocos em escrita medieval. Um país aberto de difícil leitura, de lida não fluida, mas lá, escrita, língua de Camões e terra também.

(Foi essa uma das coisas na primeira conversa com Júlia: o quão diferentes eram nossas formas, brasileira e portuguesa, de ver o mundo e de se [nos] relacionar[mos] com. Flagrante exemplo: a dicotomia quase abissal entre "perceber" e "entender", que para nós aqui são dois verbos distintos e para eles, não exatamente. Perceber é entender, mas é um perceber de longe, como quem nota a passagem. Entender, mesmo, "compreender", é mais inclusivo, mais antropofágico, nosso entendimento tem esse caráter pouco nobre e muito devorador, esfomeado. Entendemos, perceba, compreendemos. E comemos o entendido.)



"Não sei o que o Sr. Fernando Pessoa consideraria ao saber que nenhum brasileiro ao ouvir 'o brasileiro' pensaria em algo além do povo ou de um indivíduo, e que nunca (a não ser a viver em Portugal), nunca pensaria que 'o brasileiro' pode se referir ao idioma falado no Brasil", diz um poema da parte alforria blues, parte que tem "títulos com palavras, e não números romanos". Este, por exemplo, chama "Estou bem aqui". Com todas as acepções que isso possa.

Este livro, parido com a ajuda das Edições Chão da Feira (outro empreendimentaço que fica pra outro espaço), de Carolina Fenati (um abraço), apresenta um diálogo constante entre chão e pé, por mais que o cavalo recorrente corra, como mencionei bem vagamente, servindo de motivo e símbolo. Por mais que as patas e cascos carreguem nas costas o lembrete: é vida. Vida é vida. Espaço novo terra nova velho mundo, vida estranha e incompreendida. Por um tempo, até que muda.

"Deixar pousar
o torvelinho nas mãos
que faça seu ninho
sem quebrar a joia
que te dá o mesmo que te tira." (VI)

Tem um amor, também, apresentado. Um que se vai desdobrando como se folha fosse, ao vento, que é cavalo, que é tempo, que é presente. Júlia parece conversar com as coisas enquanto acontecem agora, mesmo que carregue uma nota de passado, de lembrança, até nostalgia e apreensão. Ou não, mas sim, porque ela diz

"Passo a manhã calculando a provável altura de um tsunami
que viesse por debaixo do morro, me encontrasse sentada
nesta porta de varanda sobre o Tejo.
Não sei, mas já me aconteceu outra vez." (o mesmo poema IX)

Relato de experiência de divisão, entre visões e imagens, algum ritmo e muito logos delirante. Experiência de escrita e leitura complementar, como o espaço de complemento que vem depois de endereço. Ou, em Portugal, morada.

O poema XVIII diz, numa estrofe, um pedaço que li primeiro estampado numa parede do ateliê/estúdio/incubadora de Júlia, no dia do lançamento. Ao mar. Cavalo. Um pedaço de poema que eletriza e sumariamente explode a existência. Fazendo-a se adaptar, apenas porque sim, porque esse é o único jeito, a despeito do "puído da vida" (X). O único jeito de viver. A estrofe rascunho na parede, que está no livro, encerra isto, esta microcrítica. Reverbera.

"O raio abre
o tronco em dois.
Da metade árvore
nasce um deus
de patas firmes.
Doce cavalo, peço
com a tua língua impura
por onde passar
tece e cicatriza
a folhagem, tremor"






Belo Horizonte: Edições Chão da Feira, 2013

"Os livros são vendidos através do e-mail da editora: livros@chaodafeira.com

Podem também ser encontrados na Livraria Quixote, de Belo Horizonte, na Intermeios Cultural, de São Paulo, na Gato Vadio, do Porto, e na Letra Livre, no Paralelo W, em Lisboa]

a horta
ensanguentada
pés de tal
magnitude
frondosas árvres
forçados galhos
sob o peso
dos amantes
enforcados

---

sendo pobre
ir à falência é questão de um passo
não é o mesmo se você for
um ricaço

---

nossa
?me lembra sabe o quê
guimarães rosa
pauleminski
marcelino freire caramigo
?sabe você
nossa

[de intitulação possível: com tais influências não há angústia]

[ou: você é o que você come

ou: tá ca porra que não chego aos pés

ou: ?mas é

ou, simplesmente: poxa, !obrigado]

---

na falta de um coração
pulmão

---

regular
mente

[e todas as demais variações
adverbiais
desse buraco sem fundo
negro poço confuso
que é o pensamento]

---

ao
tu
fla
gelo

---

je
sus
mo
rreu
na
cruz
e
di
sse
ai

---

existe um grito
preso
um
grilo
preto
ganindo
pelo
nascer da aurora

---

friboi, querida
tu é uma assassina
especista
e usa um lobisomem de garoto propaganda

tô só comentando

---

mas, olha só
falo por experiência
olha a lua toda noite
até quando ela não tem
e não só quando alguém
compartilha foto

---

estrela e
quilibra ponta
lua que aponta de
do buda que a lua
conta

---

[enxergo o teu cristo, Rio

enxergo o teu cristo, rio

Cazuza, seu gênio]

---

da esquerda pra direita
legendas imaginárias:

ajoelha, chupa
não não não
tamo fazendo nada
não
pára, cara, senhor
não não
ah!
chupa, falo, chupa logo

e lá no canto
espanto
fodeu-se tudo
foto de Uirá Tiago Alencar, retratando o 7 de setembro (rá!) na Bahia

---

[a emergência do imaginário anarquista e libertário, meus amigos, diz muito - mas muito muito mesmo - sobre nossas crenças atuais na democracia representativa, na partidarização e no voto.

muito
muito mesmo]

---

de um lado as bombas
de efeito moral
do outro na
moral
os bambas
descendo o morro
na
valha
me
u
deus
no dia em que o morro
desceu
e as máscaras lá
proibidas
como artefato de guerr
ilha
a gente falando
fal
ando
enquanto que o coro
comendo
com
medo
cacete cacete
casse
tete
ainda bem que passou
dia sete

---

cada passo cada
soldado
cada pedaço de desfile
cada verde boina
marinha
cada coisa militar
cada fuzil cada polí
cia cada cada choque
um dois um dois
marcha soldado
cabeça de
cada deslumbre desfile
cada pátria costurada
distintivo
cada orgulho
nacional cada tumulto
dispersado
cada braço forte mão
amiga
é uma criança síria
desfeita
química

---

e você aí
que critica o fora do eixo economia coletiva capilé e mais um monte
de coisas das quais não sabe nada
e você aí
estava lá também
batendo
batendo
batendo
gozando de bater

é
você aí

---

[cinco pms no calçadão
desfilando
avenida da praia
desfilando
sete de setembro
desfilando
atravancando o tráfego
o tráfico
o pogresso
atravancando
cinco pms
e eu correndo
e eu correndo
passando ao lado
passo na rua
porque a calçada
atravancada
dou susto
susto
bato palma alto
faz barulho
pm puto
atravancando
a rua atravancando
e eu passo
correndo
por cinco pms atravancadores
eu passo
correndo
e olho
correndo
pra trás
correndo
com cara feia
correndo
porque pm
merece o susto
pm desfilando
atravancando
era só o que me faltava]

---

debaixo de bala
deixa
que os menino joga
bola

---

não existe neste mundo
e nem mesmo em qualquer outro
algo como
independência
nada é um buraco solto
nada é oco
nada é mesmo independente
do entorno

pois repito
não há nada neste mundo
independência

---

[e então, depois de mostrar
vandalismo absurdo manifestantes quebrando tudo
- quebrando nada
coitados
só sendo escorraçados pela polícia
persecutória -
e depois, na reportagem
que se seguiu
!puta que pariu
puta
,olha só
quão são sábias
mídias velhas
depois da cafagestagem da montagem da narrativa
telejornal
vem e aparece uma menina
suposta artista
atriz,assim,qualquer coisa tipo
e diz, bonito
:a mudança é interior.

!não importam questões econômicas
sociais
diz a mulher dos telejornais
a menina aqui meditou
meditou
!conseguiu

puta que pariu
independência
puta que pariu]

---

ah, independência
bom dia, ahn?
bom dia
independência
há?

---

ri ri ri ri ri ri ri ri riri ri riri ri riri ri riri ri r iri r iri r iri r iri r iri r iri r iri r i r i r i r i r ir

---

uc

---

a poesia olhou pra mim e
riu
!toma vergonha na cara
,moleque
ela disse
toma vergonha
!que eu não sou u'a dessas
não
das que te acostumaste a passar
a mão

---

de pensar morreu o
burro

---

de uma estupi
dez grassada
mas linda
linda estonte
ante

---

luz sobre luz
como diz o corão
luz dentro em
luz
cora
ção

sábado, 7 de setembro de 2013

cena triste de tuim

Encontrei com um peixe no mar, na beira do mar. Um peixe cercado, preso, morto, de barriga aos céus. Dentro de uma garrafa pet, um peixe boiando na pouca água que ali restava. Andando na praia, eu, depois de horas esperando uma amiga que não veio - uma amiga de um amigo meu, que nem conheço mas que por acaso está na minha cidade. Onde eu estou. Onde encontro o peixe morto. Onde sou. A garrafa de limo em volta, em torno toda, garrafa plástico verde escorregadio, lá dentro um peixe um dia vivo que não mais é. Um peixe triste, inchado, maior que a boca do artefato, maior que a entrada por onde entrou. Volto. Com meu pai, na escada, passamos horas a subir degraus. O tempo passa mal, o tempo faz, o tempo arrasta e apreende. Aprisiona. Um peixe na garrafa. A ex-mulher diz que quer ver, quer conversar, e conversamos. Instantâneo. Escorre uma tristeza do nada invisível ao dentro todo. Transborda. Ninguém sabia, ninguém nem mesmo suspeitava, eu pelo menos. Se alguém soubesse, se eu soubesse, juro que não abriria a porta, essa porta inerte que já nem mesmo a um beco dá. Horas na escada, degrau a degrau suadamente subidos, nós dois e o destino, a dificuldade, o tempo, a doença, o peso. A ex que pediu. Que viu. Esteve feliz por enfim me ver. E eu também, feliz, escorri. Lamentadamente por dentro mais muito mais que por fora. Mas até por fora. Porque até quem não percebeu, percebeu. Peixe em garrafa, no mar, entre o limo, morto e boiando no breu. Fecha um ciclo, noite no bar comendo espetinho de queijo coalho queijo nordestino, do nordeste onde morei do nordeste onde era tudo quase sol, quase sempre. Fecha um ciclo, meio aberto, meu pai olhando ao outro lado da rua uma casa de jardim deserto em que foi criança, onde a vó morava, rua em que cresceu. Breu. Lembra do vizinho ao lado, do vizinho ao outro, da vizinha em cima, não do que sobrava na terceira casa de portão azul, esse não lembrava. O bar em que bebemos era um mercadinho, o vizinho ali era um velho amigo. Silêncio. Só percebo, observo, mais não digo e os olhos rubros os olhos vermelhos do meu pai olhando a casa velha ali espelham os meus. Meus olhos vermelhos não pra casa velha, mais por ela, que sumiu na neve distante ensolarada no frio gelado de uma madrugada belga. Peixe. Morto. Dentro do infinito plástico do limo, água pouco a pouco escorregando. Praia. Escada degraus eternidade. Amiga do amigo que não chega, praia tarde, sol brilhando, pai olhando a casa velha, sua infância, eu a minha - eu olhando crianças que julgava logo logo serem minhas, mas que não, resistindo nada nada à mulher que me deixou -, todos nós, escadaria, subindo e descendo o tempo o tempo todo. Traçando riscos, paredes, confinamentos. Peixes em garrafas estreitas, beiras de mar. Todos nós, toda maré. Rolando entre areia e limo até finalmente, num último breve instante de riso e suspiro, brilho nos olhos, parar bem ao pé do tempo. Que ri. E passa.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

e então ela vem
com um sorriso e
quebra aos pedacinhos
a máscara de minha face

e então ela vai
como quem não sorrisse
como quem não levasse
meu rosto consigo

e então não consigo
sorrir aos pedaços
nem um riso inteiro
que não reparasse

que da minha face
caldo de onde venho
só há um lamento
no poço em que nasce

---

ex
tre
mece

---

enquanto engoma a calça, de ednardo
deus me proteja de mim, de chico césar
paulinho da viola
dorival
tudo em rubem braga
visagem em murilo mendes
gil gilberto
veloso em grande parte
sabença em quintanares
e mais um monte
mais
são de uma infinidade tal
que nunca acabam
.são demais

---

No sonho, perguntei para as crianças que brincavam nos telhados o que elas faziam lá em cima:

- É o lugar que temos, agora. A civilização está muito espalhada.

[versão livre e distorcida, porque de memória, de um dos textos do Livro dos Sonhos, de Jack Kerouac]

---

caetano, 2013, black bloc

caetano, 1968, vocês não estão entendendo
nada

um ano complementa o outro

é uma circularidade desgramada

filhos de uma estética
ética
política torta
,numa boa

é proibido proibir
mas hoje não tem fernando pessoa

---

não quero sequer
uma rosa uma flor
uma pétala nenhuma pétala
em meu túmulo

meu corpo morto não sou
eu morto não sou meu corpo
e não eu não valho uma flor

por isso que valho tanto

---

perguntou a estrela
que faço?

cometa
respondeu o astro

---

pérolas aos porcos
capitalistas

esse sistema não é mesmo
uma delícia?

---

o que posso fazer além de
sorrir?
só rir

---

você tem uma fé inabalável
incrível
uma fé no futuro
impressionante
você tem

ela me disse
e eu
de fato tenho

---

nenhuma rua é sem saída
pra quem sabe olhar pra cima

(a menos que termine num túnel
se a rua termina num túnel
lascou-se tudo)

---

e então todas as portas se fecharam
todos os sons
em meus ouvidos só os toques de outros sinos
outros tons de outro hemisfério
o silênco musicado
o mistério
do então de quando as portas se fecharam
e estive quieto
sem ti por perto
mas também sem furacão

---

[decolar
em portugal
descolar
em espanhol
despegar

falta
acho
pro avião do brasil
um tanto mais da noção
desapego

mas nem só pro avião
mas nem só pro brasil]

---

[Brasil, querido

polícia estúpida
governantes mais-estúpidos
ferreira gullar ultra-estúpido

vocês se importariam de parar
com os absurdos?

é que, sabe,
eu estou tentando ler aqui
fazer outras coisas da vida
e não ficar só
lamentando
e lendo vossos pronunciamentos
vossos relinchos

Brasil, querido
pode ser ou tá difícil?]

---

sen
ti
minto

---

u
ma
más
car'
hu
ma
na

---

eu deveria
deveria
dever
ia
ia
devir

---

tinha um caminho
no meio da pedra
no meio da perda
um carinho

---

as narinas são o inspiro
deus divino ar
mistício amster
dam
entradas para um novo mun
do velho
o respiro é o desterro
do amanhã

---

você vai e escreve
você não, eu, mas você vai
e escreve
que a fada é um fada é um homem velho e
bravo
e crianças escutam
e dançam
como um fada
- uma não
como um -
e ele passa
a ter bem mais graça que a sininho
pôde ter

veja você
depois que escreve
e que escutam
e que elas dançam
as crianças dizem logo
a seus pais
- não a suas mães
mas a seus pais -
que eles bem podem bem ser
melhor, que devem ser
fadas também

e aí vem você me dizer
que contos de fadas
não dizem nada
sobre o real
nem vem
você

---

burocracia é a chance
la da ignorân
cia limitada

---

toda pessoa é uma máscara
toda identidade social
é uma máscara
toda máscara hipócrita
é máscara
e é máscara a máscara
não hipócrita também
a sociedade é uma máscara
a sociabilidade é outra
máscara é
uma máscara é
uma farsa
se boa ou se má
tanto faz
máscara é, e sem mais

mas
mascarada
mascarada é uma festa

---

mascare-se
contra o
massacre

---

independência ou
morte
e esse foi um claro caso
em que o ou
o-oh
conjunção de alternativa
incluiu
e disse assim
- e ainda vem
dizendo
ainda sim -
independência e morte
cambada

infeliz
mente

---

a liter
atura
está n
aa mão

---

eles vêm com porrada
pancada e ódio
eles vêm com horror
e com imbróglio
eles vêm
de pouco em pouco
e às vezes tudo de uma vez
eles vêm e estão errados
argumento de otoridade
eles vem chutando o saco
prendendo matando
botando no saco mesmo
no saco preto
eles já vêm na maldade

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

árabe não usa arabesco
nem ábaco nem tabasco
como se fossem o mesmo
pimenta adorno e cálculo

---

tem mística plena
nos olhos que olham o olho
da menina
nos olhos
tem mística plena

---

um vaso de pe
túnias
conhece o real

---

não se deixar levar
pelo olho
não se deixar
levar pelo olho
não se
deixar levar pelo olho
levar pelos pelos

---

oh, penas,
penas,
tantas tenho
eu
por que não
então
me fazem voar ao céu?

---

internet
quando ku klux klan virou risada

---

ela em ela
a corrente da
mi'a vida
vai

---

dê de
comer
ao moço

---

fique bem, aí
mova
não fique bem aí
fique bem, aí

---

o que me
expulsa é
que me im
pulsiona

---

poesia
'ssa metáfora ambulante

---

queria mudar
o mundo
foi lá e o
mudou

---

se
apesar de te amar
eu te amo
como?

---

um pássaro voando vale mais
que todos meus poemas
juntos

um pássaro pousado também

---

ironia
é quando o amarelo morde o hipotálamo do teu cérebro
é um dejavú de sentir-se mal
ironia é uma flor que nasce nas dobras da pele
a espera do incriado
o sentido congelado do macaco aranha
é andar pra frente querendo dizer chegue
é um grito de me acompanhe
é um não faz mal

---

vai dormir que teu mal é sono
disse o espelho
a meu olho

---

cans
aço
mundo cão
e duro

---

às vezes penso ''por q
ue não estou com ela?''

às vezes lembro

---

desper
dí
cio

---

sonhei com ela eu
pensei que nunca mais so
nharia com ela eu pens
ava que ela tinha mesmo si
do completamente despej
ada do meu inconsci
ente mas aparente
mente não

---

não importa quão libertário
no fim, teu nível de moralidade conservadora e caretice é dado pela velocidade com que, pelado na janela de casa, corre pra dentro pra se esconder
vergonha é o maior indicador político-ideológico, sociocultural
da humanidade

---

janelas são portas
ainda não crescidas
são portas só pras vistas
janelas são portas que exigem
um pouquinho de vontade do passante
que se espreme na moldura
pra passar
janelas são os olhos da alma
por isso deus fecha tantas portas

pra abrir muitas janelas

---

sol

é a palavra mais alta do mundo

---

uma vez, tinha eu menos de dez, passei a noite numa festa de amigos dos meus pais, brincando com uma menina negra mais nova que eu. Lá pelas tantas, como crianças, começamos a brincar de xingamento - que é uma brincadeira social muito saudável e amplamente praticada, não só na infância. Não lembro se era o nariz ou os lábios que ela tinha um tanto meio tortos, aduncos, me lembrou um papagaio. Chamei. Aí notei um queixo quadradão, coisa de rosto de alemã, mais saliente que retraído. Me lembrou de um macaco, na hora. Chamei. Mas juntei os dois, na brincadeira. Lembro até hoje: queixo de macaco com bico de papagaio'', em repetiçõezinhas musicadas, infantis.

Tomei um esporro da porra. Ela era negra, não podia ser chamada de macaca! Demorei pra conectar meu xingamento de raiz animal com o racismo de origem social. Até porque, tinha o papagaio... acho que a menina nem foi reclamar por eu ter ofendido sua negritude, mas sim porque eu era maior que ela, chato pra caralho e estava ganhando o jogo dos xingamentos (eu era gordíssimo, vale notar. Ela tinha um farto e amplo e rotundo material com o qual trabalhar, não estávamos em condições muito injustas)

Mas, por fim, entendi meu racismo involuntário. Devo ter pedido desculpas, mesmo se ''mas não tinha nada a ver com isso eu tava falando porque mas mas mas...''

Pensei nisso ao concluir que, por mais que o sujeito seja corporativista e contrário à politica em questão, chamar um negro de ''escravo'' não pega bem. Mesmo que ''escravo'', nesse caso, não fosse - como eu acredito que não tenha sido - necessariamente amostra de racismo.

Só de estupidez. Eu tinha menos de dez. As médicas cearenses, espero, não.

---

pelo remédio caseiro da vó benta
pelas ervas curativas pela rezadeira
pelo pajé pelo xamã pelo acupunturista
pelo pai estralando a espinhela caída
chá de boldo pra curar ressaca
boldo amassado amargo pra curar ressaca braba
pela bendição contra o mal-olhado
pela reza pela preza pela água benta energizada
pelo alho contra inflamação e contra cataflan
pela aliança esquentada na palma pra curar tersol
pelo sol
pra curar o resto

---

por que todo mundo quer
sempre entender de tudo?

faça um café
e fique quieto.

---

hoje de novo zarpo
zarpo novo de hoje
não paro não paro
não paro
estrada me engloba o globo
hoje de novo movo