quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

trinta e oito, taiwan


Lá fora chove e faz frio lá fora. Hoje contam dezessete dias desde que cheguei. Faz frio lá fora e, antes de chover, pondero de sair.

Estar t
ão longe e trancado em casa não faz lá muito sentido, eu me digo. Então pondero. Mas faz frio lá fora e, enquanto penso, o céu resolve por-me bem no meu lugar. Lá fora chove e eu fico aqui.

Mas não dura de todo muito, porque bem logo eu ouco vindo um falar continuo, de altofalante, falando chino. Nao sei que é... pode ser desde circo até vendedor de cinto ou peixeiro taiwanês. Continuo em casa lendo e a chuva para.

Dai sei - porque algu
ém me fala - que a voz la fora é marionete. Teatro de marionete. Do lado de fora de um templo taoista.

Caminho.

Assisto escondido atras de uma esquina ao palco mambembe, verde fluorescente, drag
ões desenhados, florescentes, luminosos, dor nos olhos, teatro de fantoches. Não faço ideia sobre o que falam, naturalmente.

Depois me descobrem ali oculto. Aparecem do meu lado tres velhinhos taiwaneses, taoistas e cansados, sorriem um pouco e apontam pro meio do toldo que fica de frente pro palco. Eu n
ão tinha visto a plateia, até então, porque não queria surgir ali de repente, virando da parede com minha cara ocidental.

A plateia era os tr
ês velhinhos. O palco que eu via estava virado de frente pro templo ou pra casa de alguém que parece um templo - não sei, sinceramente: aqui todo canto tem templos ou casas que parecem templos ou lojas de conveniencia, todo canto. Entre a porta do templo e o palco um toldo cobria um banquete. Incensos queimavam enquanto um porco gigante abatido e estripado descongelava ali perto, um porco gigante provável do mato, provável selvagem, gigante tamanho meu amigo Dines.

E um monte de camar
ões e um monte de pães e coisas miudas que nao sei o que e mais coisas e coisas e os fantoches falavam tudo com cores e gente chegando e

um dos velhinhos na ponta da mesa, perto do palco, ao lado do incenso, levanta uma garrafa e faz rever
ências, garrafa de cachaça, tenho quase certeza, e serve três doses na beira do altar. Ou mesa de jantar. Não sei.

Sinto minha energia indo embora. O porco gigante atr
ás de mim está morto demais pra me dar alento. Os olhos esbugalhados dos camaroes me olham sem me acusar. Passarinhos presos cantam na gaiola.

Quando todos comecam a descarregar o caminh
ão recém-chegado, tirando de lá de dentro instrumentos pra ritual, pra festa ou sei lá o que, aproveito e venho embora. ¨Obrigado, obrigado, tenho que ir¨, esboco em chines. Sei lá se falei direito. So sei foi que vazei.

No caminho de volta comeco a cantar um ponto de umbanda, sem nem pensar sobre isso. Eles com as coisas deles, eu com as coisas minhas.

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