quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

dharma


não se iluda

não pense
que o dedo que aponta a lua
é a lua

a lua é que aponta o dedo
e a ponta do dedo
e a ponta da lua
são ambas a mesma ponta
que aponta pra coisa alguma

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

da utilidade


como prova de amor
dou-te uma buquê de couve-flor

assim,
quando acabar nosso romance
terás já algo pro lanche

sábado, 19 de novembro de 2011

aerolitos


a estrela cadente cadeu
e olhando pro céu distraídos
nem ela nem eu, afinal
fizemos pedidos

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

a ideologia do folclore


existe um mundo imenso
lá do lado de fora

traga-o pra dentro

lá fora faz sereno
e ele pode gripar

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011


nesta semana
não escreverei
vivais vós as vidas
de vocês

na morada do sol


Oh!, Sylvia... sim,
Sylvia, porque é o que todos dizem
ao dizer
de ti
e deles.

Sylvia, defunta, passada, antiga. Eras morta já três vezes quando eu sequer nascera
e, veja!, eu nasci.
Nunca fui um judeu, nunca queimaram meus dedos
- exceto eu, com fogos de sãojoão -
nunca senti na carne a lâmina de um outro porque
ora
porque quando o outro chora eu me vou
e passo
e tudo passa
- ainda que eu me lembre bem daquela vez em que
por eu ter ido
ela quis passar foi dessa pra melhor...

Não sou responsável pelo suicídio
nem de mim, nem dos outros.
Não sou responsável por nada, por nada, nem mesmo pelo cachorro morto
de fome que me lambe os pés.

A vida não me assusta, Sylvia,
e nem é uma puta que sento em meu colo e venho a achar amarga...
A vida não é nada
porque a morte também não.

Num tempo futuro, que já passou,
num tempo futuro eu vi a morte
de perto, tão perto, que não deu pra fugir.
Mas não a procurei: apenas vi
como quem vê um vulto ao dobrar a esquina e
poste!
Dá-se com a cara no muro como com a cara na morte.

Não se supera a morte, Sexton, não se supera:
apenas se entrega
ou espera.

sábado, 12 de novembro de 2011

sh

e agora
que o silêncio se ocupa
de ocupar todo o quarto
que faço?

como preencho
com desembaraço
o oco no peito
o vazio do espaço?

que devo eu
agora sentir
se não sinto nada
e estou bem assim?

pra que tão pensar?

não há pesar que se encontre
nas bandas de cá

e agora o silêncio

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

dímelo


o rio some na bruma da manhã
meu coração de outono acorda triste

escreveria um blues, soneto
ardente, escreveria a dor com pena em riste

mas ouço um funk agora
e como quem dança moonwalk
a tristeza vai-se embora

quarta-feira, 9 de novembro de 2011


confrontado por quem ignorava a dimensão que aquilo assumia,
sorria um sorriso sincero como quem diz: que pateta.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

a little bit


um pouco de desaponta
mento
não nos faz mais feliz
a menos que sejamos um
lápis
ou algo assim

domingo, 6 de novembro de 2011

de moleque

a primeira vez que ouvi
de uma mulher
"vem, meu bem,
faça amor comigo, vem"
foi o horror

ouvi num filme pornô

sábado, 5 de novembro de 2011

D'eus

"Por que eu?
Meu Deus, caralho!
Por que eu, por quê comigo?"

dizia o homem ao canto
dizia o homem aflito

e no mundo eram tantos cantos
tantos homens gritando a deus
que o Deus, lá do alto santo,
lamentava seu "Por que eu?"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

há dias

te conhecer
foi um dos pontos
altos de minha noite

o outro foi chutar
com toda a força
a quina do guarda-roupa

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

lain

chove aqui dentro
e lá fora chove

o frio da calçada de pedra
empedra de frio os meus pés

olhando pela janela
o café da esquina de casa
se enche de gente
e fumaça

cigarros iluminam os rostos velhos
ao pé do café em minha rua
e aqui dentro chove
uma puta chuva

domingo, 30 de outubro de 2011


é noite no japão
e aqui faz frio baixo do sol

não sei o que espera o inverno
a terra
não sei o que espera um mol
nem quanto pesa

faz tempo que esqueci o que se diz
quando se fala
sobre o que se sabe bem

não sei

faz frio lá no japão e é noite aqui
no sol

o outono varre as folhas da janela
e eu vejo a lua
e eu vejo ela
e eu a vejo

vejo-a também

a lua brilha e a janela sua as gotas dessa chuva
que é de noite
e que refresca as chamas desse sol
que a chamam longe

na noite
do outro espaço
distante

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

visagens

eu te vi em minha cama
vi-te entrar-me pela porta
vi teu rosto dentro o quarto
e a visão era tão bela
que nem mesmo estranhei
ver-te entrar pela janela

dávida

Quando pequeno leu, atrás de um panfleto, "tens um prêmio a reclamar". Passou a vida reclamando, tornou-se um velho cansado e sem nenhum prêmio algum. Entendera, provavelmente, "tens um prêmio ao reclamar". Mas já era tarde.

sábado, 22 de outubro de 2011

amor australiano

"I laugh you", ela disse.
Ele riu.

asas

não se mova agora
duas moscas entraram dentro a sala
não se mova agora
entraram juntas voando juntas
uma sobre a outra
outra sobre a uma
não se mova agora, não se mexa
duas moscas voando juntas significa alguma coisa

deve querer dizer
que elas se amam
ou se odeiam

duas moscas voando juntas janela adentro
não se mova agora
enquanto elas movem o mundo
e as asas
uma em torno doutra

não se mova
até que elas saiam

respeito o amor dessas moscas
respeite sua guerra

não se mova,
isso é sério

respire devagar
deixe-as pousar sobre
o teclado
sobre a mesa
voar em volta da cabeça
zunindo feito moscas a voar

não se mova
que o ar é a terra delas
não abale o elemento
não se mova

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

peça pelo número 37


Tira da prateleira um pacote de comida. No rótulo vêm escritos marca, sabor artificial e informações nutricionais. Vêm escritas outras coisas, várias coisas, tem mesmo uma promoção "ganhe um ano de produtos para você e sua família". É um pacote vermelho chamativo. Ao lado deste, que ele tira, há mais vinte, trinta, vários, enfileirados ao lado e para o fundo. Até se perder de vista.

Olha a data de validade. "Até daqui a pouco", pensa. Desse mesmo lote deve haver, na prateleira, digamos mais um cem. Cem pacotes.

No fundo de um país bem próximo ao da prateleira há cem famílias sem nada. Não há prateleiras, também. A casa mantém a porta aberta na ânsia de, também ela, comer alguma coisa. Falta comida no país das cem pessoas.

Ele passa pelo caixa, paga, coloca o pacote vermelho pra dentro de bolsa e vaza. Vai embora.

As cem pessoas ainda não têm o que comer. Uma delas chora.

I

doeu
a questão
do Eu

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Isomorfias entre Jesus Cristo e o boi-de-piranha: breve hermenêutica da kenosis


"Na canção 'Travessia do Araguaia', Tião Carreiro desenvolve a analogia entre o boi-de-piranha e a crucificação de Cristo. Assim, o boi-de-piranha, unidade pouco rentável de um coletivo maior - o rebanho sendo tocado pelo peão -, assume características cristológicas claras ao se esvaziar de sua individualidade soberana e rumar para o rio infestado de peixes vorazes. Ao entrar nas águas, o mártir atrai a atenção de todo o cardume, que o devora, permitindo a passagem em segurança do peão e do restante das reses. O boi-de-piranha permite a redenção do rebanho, seu traslado para a outra margem, quase que sua promoção ontológica. É um boi redentor, assim.

Claro está que o boi-de-piranha não realiza tal ato por amor incondicional ao coletivo rebanho, diferente do que nos é dito do Jesus que se esvaziou de si para, através da kenosis, tornar-se Cristo Redentor de toda a humanidade. Perguntarão: "quem pode assegurar que Jesus também não hesitou até que seu peão, o Deus Pai, o tenha tocado para as águas deste mundo profano?". Mera especulação. Importa notar que a história do bezerro de ouro foi suplantada por sua atualização no boi-de-piranha, e muito de nossa civilização é devido a esse evento crítico"

(ORGOY, Carlos Juarez. Isomorfias entre Jesus Cristo e o boi-de-piranha: breve hermenêutica da kenosis. Araçatuba: Editora Sete Flexas, 2003, p. 173-174)

dois fios
caíram da cabeça
sobre a mesa

enquanto lia o texto
dois fios caíram da cabeça

sobre a mesa, além do livro,
os cabelos escreveram
algo antigo
pra que eu não desanimasse

dois fios
caíram da cabeça
sobre a mesa

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A história da poesia americana: Walt Whitman e a criação dos emoticons


É sabido e inconteste que o criador dos emoticons, sinais gráficos que povoam a internet desde o início dos anos 1980, foi um pesquisador americano de Ciências da Computação. Scott E. Fahlman, da Carnegie Mellon University de Pittsburgh, desenvolveu esse expediente gráfico para que as comunicações entre ele e seus alunos, por meio dos recém-criados e-mails, pudessem conter pequenos traços de expressão que ajudassem os leitores das mensagens a compreender as intenções por trás da escrita: sobretudo as expressões sarcásticas. Nas comunicações por texto, “The problem was that if someone made a sarcastic remark, a few readers would fail to get the joke, and each of them would post a lengthy diatribe in response” (FAHLMAN, http://www.cs.cmu.edu/~sef/sefSmiley.htm). Para resolver isso, Fahlman sugeriu o uso de :-) como “marcador de piadas”, e o resultado disso todos conhecemos.
Entretanto, um crítico literário da Manoa University acaba de revisar esta história. Em artigo intitulado A história dos gráficos digitais: de Gutenberg a Zuckerberg, ainda no prelo, Huali Scott-Gerald investiga uma curiosa presença de emoticon em uma das poesias norte-americanas mais aclamadas dos últimos séculos: a poesia de Walt Whitman.
Diz Scott-Gerald:

Walt Whitman foi um grande revolucionário, cantor de sua época e arauto da independência espiritual que os Estados Unidos conheceu ao longo de todo o século XX. Faceta também notória em sua biografia é o amor livre e dedicado aos companheiros de estrada, andarilhos, poetas e marinheiros (REYNOLDS, 1995; LOVING, 1999). Por tal precedente, longamente documentado, podemos evidenciar uma característica tipográfica inovadora em sua obra, encontrada em um dos primeiros poemas de Leaves of Grass. É possível que tal inovação tenha contagiado mesmo e. e. cummings, um dos mais ousados experimentalistas da poesia norte-americana. Talvez, como propomos demonstrar aqui, tenha mesmo influenciado o surgimento dos emoticons como forma de demonstrar sentimentos do escritor, sentimentos esses relacionados não somente ao humor mordaz, irônico, mas também ao muito conhecido sinal de flerte e cumplicidade. Indo ao poema, portanto, encontramos Whitman em seu diálogo direto e sem barreiras metalinguísticas, dirigindo-se aos companheiros da forma que segue: “Bear forth to them folded my love, (dear mariners, for you I fold it here on every leaf ;)” (WHITMAN, 1995, p. 10).
Repitamos aqui os caracteres utilizados com lascívia pelo poeta, para marcar claramente que seu “amor aos marinheiros” transbordava o expediente literário. Ao dizer “for you […] ;)”, Whitman arrisca uma sutil piscadela que decerto passou despercebida pelos leitores da época, tanto casuais quanto críticos, embora não tenha, decerto, deixado de arranjar a ele, poeta, algumas tórridas noites de amor com homens do mar acostumados a sinais ocultos” (SCOTT-GERALD, no prelo, p. 237)

O crítico prossegue por mais algumas centenas de páginas, demonstrando não apenas que Walt Whitman utilizava tais procedimentos gráficos como também estes eram conhecidos de Gutenberg. O que nos interessa aqui é, certamente, sua asserção polêmica: “Em tempos de internet, chats e Facebook, Walt Whitman é-nos essencial para compreender as modalidades de côrte e galanteio típicas da informática contemporânea” (SCOTT-GERALD, no prelo, p. 356).

Resta a nossa resenha questionar: terá a piscadela whitmaniana influenciado o grande e. e. cummings em seu magistral poema A leaf fall on loneliness?

Referências

FAHLMAN, Scott E. Smiley Lore :-) Disponível em: http://www.cs.cmu.edu/~sef/sefSmiley.htm
LOVING, Jerome. Walt Whitman: The Song of Himself. University of California Press, 1999.
REYNOLDS, David S. Walt Whitman's America: A Cultural Biography. New York: Vintage Books, 1995.
SCOTT-GERALD, Huali. A história dos gráficos digitais: de Gutenberg a Zuckerberg. Manoa: Manoa University Press, no prelo.
WHITMAN, Walt. Leaves of grass. NY: Oxford Press. 1995.

---
Leandro Durazzo é doutorando em História, Mestre em Estudos Literários e pesquisador nas áreas de Poesia, Galanteio e Côrte na Corte portuguesa do Ottocento.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

404

devemos estar errados como quem escova os dentes
não só todos os dias, mas depois de cada refeição,
ao acordar e antes de dormir.

Estar errado não pode ser um luxo como dormir até mais tarde.
Estar errado precisa ser um esforço consciente, uma demonstração de atenção plena.
Estar errado precisa ser assumido como a essência de nossas possibilidades. Estar errado é o que fazemos de melhor e negar isso seria um erro.

dever-seres


Freud devia ter lido Manoel de Barros,

Sócrates devia ser conhecido mais pelo daimon do que pela lógica,

Aristóteles, ficando em terceiro lugar, devia ser o terceiro excluído
e isso resolveria muita coisa.

Descartes devia ter menos memória e,
sendo esquecido, esquecer de lembrar
que pensar logo existo.

Cristo devia ter dito que estava brincando,
com aquele papo todo de Deus.

Deus devia ter dito que estava brincando,
com aquele papo de Cristo.

O monoteísmo devia ter brincado em outras galáxias
ou multiversos

e o politeísmo também.

Um gato mia sob minha janela.

Se tivessem brincado de gato-mia
com suas primas bonitas,
nenhum ditador ditaria

sobretudo os maus ditadores.

A Tia Maria fazia ditado
na escola primária
e nele dizia a história de outra Maria
a Vai-Com-As-Outras.

Se Adão tivesse dito
"Não, Eva querida, vá lá sozinha"
não haveria a Tia Maria.

Eu, por minha vez,
não discuto mais com ateus
religiosos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

libélulas perfeitamente normais, 36


Seguia a rua de ponta a ponta, sem usar a calçada. O dia se punha e olhei para a lua, a claridade da cidade espalhada pelas fachadas, janelas, roupas penduradas a secar. De repente passou por sobre mim uma libélula. Ligeira. Um bicho leve, inseto estranho, asas bem largas, bicho pequeno. Passou uma libélula por sobre mim, vinda de onde eu vinha e indo pra algum lugar lá pros lados aonde eu ia.

Tudo bem, pensei. Eis que então passou mais uma, mais duas, três libélulas voadoras. Passaram cinco, e quinze. Depois de pouco tempo duas dezenas estavam passando em cima de minha cabeça. Continuava andando, continuavam voando, íamos todos no mesmo sentido. Meus olhos olhavam o céu e as libélulas todas.

Então parei. Mais de dezenas, já eram centenas de insetos voando do mesmo lugar e indo pro mesmo lugar, dezenas de centenas, milhares. Olhei para a origem, de onde elas vinham, e vinham do nada. São bichos pequenos, eu disse, e magros. O céu é bem vasto e azul então, de repente, lá estavam. Como vindas de lugar nenhum.

Dezenas de milhares.

Acompanhei as libélulas até mais longe que meu destino. Olhava pra elas voando e pensava onde iam, mas sumiam tão breve como surgiam, desaparecendo magrelas no céu imenso.

Cheguei a uma esquina. Não só minha rua era via libélula como as outras também, e na encruzilhada elas todas tomavam a mesma direção. Sumiam lá longe, num campo enorme pra baixo do chão dessa rua, quase um vale, um descampado de cidade onde ainda existem só árvores e plantas e grama e faltam os homens.

Centenas de milhares. Bichos perfeitamente normais, vindos de lugar nenhum e indo a lugar nenhum.

Enquanto escrevo estas linhas há libélulas passando em frente à minha janela.


dois grãos de arroz e uma cebola
fizeram um ideograma
na tigela em que eu comia

diziam os três:
não, não pense,
não nos olhe

só almoce.

almocei

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

tratado de muriçocologia capítulo segundo


um mosquito passou por aqui, pela minha frente, entre meu rosto e o livro que eu lia. O mosquito passou voando de baixo pra cima, nervoso, bem lento, carregando nas patas um fio de cabelo meu que estava no chão. Esse mosquito pequeno carregava o cabelo dez vezes maior do que ele e voava lento pro alto, pro teto, pro céu branco de concreto. Pensei na hora em um jão-de-barro, em um passarinho, pensei em escravos do egito antigo a carregar coisas grandes pesadas e muito maiores do que eles próprios.

Pra construir a casa da moça, dos filhos, dos deuses, dos reis faraós, depende bastante. Mas todos levando um pedaço de algo de um ponto a outro, igual ao mosquito diante meus olhos.

O mosquito voou cambaleante até o alto do quarto e meus olhos se ofuscaram pela luz acesa. Mosquito sumiu. Não sei aonde foi meu cabelo, não sei onde está o mosquito, não sei se essa luz que me cega é a lâmpada de meu quarto ou o poste de luz da casa desse mosquito.

Não sei de nada disso, mas vi um mosquito carregando um fio de cabelo.

sábado, 1 de outubro de 2011

cello 35


Ela era uma musicista de mão cheia e ele foi ridículo ao dizer a ela o que ele disse. Ele disse algo do tipo "arrume o microfone", "vire a cadeira pro público", "tire a cortina da frente", "sorria para mim".

Sorria-para-mim foi o que ele quis dizer. O resto do público não importava. Ela era linda, os olhos brilhavam e mesmo antes de tocar ele ouvira sua voz macia. Até por isso tinha sido ridículo: precisava iniciar conversa, ouvir dela fosse o que fosse.

Ela felizmente lhe falou. Disse "Claro, vou virar ao público. Estarei de frente assim que começar o show. Fique tranquilo".

Ele ficou.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

empregada


Quando soube que seria demitida, não lavou a roupa.

No último dia de trabalho trabalhou o dia inteiro, a meia velocidade. Esfregou o mármore com desleixo e derrubou um pote de dentro do armário. Era de plástico, não quebrou, mas o arroz caiu quase todo. Sobrou um pouco. Não cozinhou.

Encheu um balde dágua e foi ao banheiro, varreu vagamente e molhou o azulejo. Em alguns cantos sobrou sujeira, pó, mas podia estar pior. Então, que seja.

Obviamente não limpou os vidros das janelas, mas teve a decência de abrir as cortinas e deixar o ar entrar. O vento atrapalhou a passagem do aspirador, então certas poeiras mudaram de casa. Na mesma casa, foram para outro cômodo.

O patrão estava fora. Ninguém falou uma palavra o dia inteiro. Exceto ela, sozinha com seu telefone.

Quando chegou na própria casa não limpou os sapatos no tapete de entrada. Fechou a geladeira com a mão gordurosa de banana. Sentou no sofá sem trocar de roupa. A blusa amarela estava manchada de vinho, tristeza e água sanitária.

Quando soube que seria demitida, não lavou a roupa.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

kindheit

Queria ter onze anos
pra me apaixonar pela primeira vez
talvez uns doze anos
doze também servia

menos que isso,
nove,
dez,
não seria prudente

com nove não se é maduro o suficiente
pra saber o que é paixão

mais que doze
já nos treze ou pouco mais
catorze,
os horríveis quinze,
chega-se já longe da infância
e a paixão não se sustenta

queria ter onze anos para
me apaixonar pela primeira vez
e ter certeza de que os adultos todos,
até mesmo os que gostam de crianças,
estão errados no que pensam saber sobre
no que pensam sobre o que não sabem

queria ter onze anos para me apaixonar pela primeira vez
olhar no céu e ver etês
e crer nas mágicas que hoje creio
mas que sei não ser direito assumir pra que todos ouçam

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

gato 34


Fui ao mercado comprar coisas que não precisava porque precisava sair de casa. No caminho uma criança ri, outra corre, sol se põe, uma freira caminha lenta subindo a rua, um filhote late, cachorro, um filhote grita, moleque.

Faço uma vênia e boanoite à velha freira. Sempre as cumprimento, não sei por que. Freiras têm cara de reverendíssimas, sempre parecem. Boa noite, irmã, Boa noite meu filho, Sua bênção, irmã, Deus te abençoe, meu filho.

No mercado um pão marcado a 1 centavo. Preço errado, claramente, mesmo assim não perco tempo e pego o pão. Nem era o que eu queria, mas sendo 1 centavo vale a pena arriscar. Vou à fila, passo as compras, dão-me a conta, Não, ei!, isso está errado, dê cá esse pão. Pronto, nada de 1 centavo, pesaram o pão direito e ele saiu mais caro. Que seja, de qualquer jeito vai pra mesa.

Na volta mais crianças pela rua, a noite já escura e a lua escondida em algum lugar. Talvez em outro sistema solar. O gato filhote que fica na frente do prédio mia pra mim. Sorrio. Ele mia. Gatos não sabem sorrir. Se esfrega nas pernas da calça e as enche de pelo. Abaixo. O gato cheira minha mão e se vai.

Meu casaco ainda cheira a ela.

domingo, 25 de setembro de 2011

se eu ganhasse 33 centavos a cada vez que ouvisse isso...


Acredito nisso cada dia menos. Antigamente eu via
uma mulher à minha frente, na fila da padaria, e pensava:
É ELA! Hoje em dia olho e penso: Pronto, a vadia vai levar
o último pão integral.

Ted Mosby, How I met your mother

- Não é problema contigo, é meu.

- Oi?

- Não que seja você, eu que tenho culpa.

- Desculpa... como?

- Estou dizendo que isso é porque eu... meu deus, como é palavra?

- Porque você não quer.
- É! É, é isso. Mas não assim, eu gosto de você. Eu...

- Não é contigo, é comigo.

- Como?

- "Não é contigo, é comigo". Essa é a fórmula. Pode dizer também "não é você, sou eu" ou "o problema não é você, sou eu", que é a forma longa daquela segunda opção.

- Isso! Quer dizer, não é assim... eu gosto de você.

- Certo, meu bem, certo, não se preocupe. Nunca pensei que ouviria um clichê desses vindo de uma austríaca, mas vá lá. Essas coisas de relacionamento não devem ter fronteiras de estado-nação. Enfim... e agora?

- Agora? Agora eu quero continuar sua amiga, não quero parar de te ver.

- Não, meu bem, e agora já decidiu onde a gente vai comer ou tá difícil?


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

três dois


Assim que entrei no táxi ela disse: "Leve-nos à casa do caralho". Claro que não disse pra mim, nem mesmo falou português, mas o motorista senhor velhinho cansado de sono entendeu. E lá fomos nós. Também não era literalmente à casa do caralho, mas logo ela falou eu percebi que era longe pra diabo. Da minha casa, fique claro.

Tudo bem, já que entrei no carro agora vamos. No meio do caminho perguntou: "Então, pra onde vais?". Não perguntou português, nem sei mesmo se perguntou, mas sei que eu respondi que ia por aí, não sei, continue seu motorista, no meio do caminho vejo onde é melhor, daí aviso e logo salto. Desço do carro.

Mas não desci. Quando dei por mim estava à porta da menina, que na verdade eram duas e não falavam português. Ou quase, porque entendiam. Quando entrei no táxi pensei "por que não?", quando desci do táxi pensei "puta merda, tô longe que só a porra".

Elas se despediram rápido e entraram no prédio. Sobramos eu e a rua deserta. Merda. Tivera eu ficado a pé e era mais perto. Mas caminhei, já que não tinha mesmo outro jeito.

No meio do caminho deixei dois euros cairem longe, em algum lugar, na mão de algum maluco sujo com um saco de pão e cara de fome. Sei lá. De repente era pra comprar pedra, mas quem sou eu pra julgar?

Dei duas voltas na praça e depois achei meu caminho. Já perto de casa, no prédio vizinho, um pouco pra cima, a lua amarela crescente sorria pra mim. Valeu a pena andar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

strip


Estava escuro quando começaram a se despir. Ele não via um palmo à frente do nariz mas sentia na ponta dos dedos o corpo dela inteiro. Ela estava de olhos fechados e braços cruzados por sobre os seios, envergonhada. Ainda não estava pelada. Nem ele.

Ouviu um clique e sentiu que em suas mãos havia duas pontas de tecido. Sutiã, pensou ele, mas ela não disse nada. No escuro completo nada se via, então ele se conformou com a ideia do sutiã aberto e pronto, passou para a próxima etapa. Carinhou a barriga dela e desceu com as mãos aos quadris, beijou a cintura e com os dedos velozes tirou o botão de sua casa. A casa em que estavam não era dele nem dela.

Mal sabiam onde estavam. Talvez na China antiga, talvez em Mercúrio, mas estava imenso escuro pra que pudessem saber.

Não importa, ela pensou, ainda segurando os seios com os braços cruzados. Ele beijava suas coxas e aos poucos puxava a calça pra fora da cama, pra longe do quarto, jogava as roupas no quadro que havia pendurado na parede de trás do lugar.

Ela sorriu. Do sorriso veio um riso abafado, que ele ouviu. Olhou para ela esquecendo das calças por um instante e então viu, radiantes, os olhos dela a brilhar.

O quarto já não estava escuro, não totalmente. Deitada, com os olhos abertos olhando pro teto e alumiando metade do quarto ela sorria, as mãos cruzadas por sobre os seios. Ele viu que no peito trazia um sutiã preto, ainda vestido. Olhou para o quadro que balançava, notou que as roupas estavam no chão perto dele e correu até lá. Ela continuava na cama, sorrindo, rindo, com os olhos brilhando de luz olhando pro céu.

Mexeu rápido nas roupas ao chão, cueca, camisa, a blusa vermelha que ela trazia com IcoraçãoNY escrito, as meias dos dois, três meias, pensou que uma delas se havia perdido e seria bom que encontrassem antes de ir, pulseira, colar, sapatos, a calça dele, a dela não que ainda estava vestida até os joelhos, e pronto. Achou novamente o tecido que tinha estado em suas mãos, tecido de pontas do clique que ouvira, o tal sutiã.

Não era. De um jeito engraçado aquilo era venda, um pano que, pelo visto, tapava a visão da menina. Ela olhou para ele, que agora era nu e iluminado, e ainda sorria. Ele também. Vá saber, pensou, de repente era isso que ela queria. Que eu precisava. Que ela também. Tirar essa venda dos olhos pra poder enxergar bem...

Voltou para a cama, ela fechou os olhos e o quarto de novo estava no escuro.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

passo...
...passo
passo...

“passa aqui!”
é o que grito
é o que grita
ela.

passo e tomo o mundo,
o rumo,
o curso,
o rio.
passo...

passei por ruas,
vielas,
e as vi
nuas
meninas em janelas
por todo o litoral.
...passo

num mar de sal
submerso
nadando ao céu
feito verso que não pára de soar.
passo...

e ela,
menina,
pernas do mundo,
passará.


Ele dizia que os dois deviam achar o céu logo que pudessem, antes de esperar que o céu descesse ou que eles subissem ao Céu. Ela dizia que sim, que bem que achava isso, mas nunca se sabe no fim das contas se é isso que dá pra fazer.

Ele dizia que sim, era só caminhar pelo céu com o pé na terra e a cabeça em algum lugar dentro do coração, pra evitar de pensar no que quer que fosse. Ela dizia também que era ali que ela mesma pensava, com o coração na cabeça e a cabeça no coração.

Ele tinha certeza que os dois achariam o céu. Ela não tinha certeza, mas seguia sentido a ele porque, na pior das hipóteses, podiam parar no caminho e olhar pro céu lá no alto com estrelas e nuvens e flores vermelhas voando caindo de não sabe onde pousando de leve nos pés da criança na beira do mar.

Ela sorria quando sorria uma criança nas margens do caminho, ele sorria quando ela sorria e sorria também quando sorria a criança e ela não via por estar a olhar pra outro lado. Mas mesmo olhando pro lado de lá ela sorria.

E toda criança sabia que as flores caindo do céu vinham de árvores no alto das nuvens.

A gente é que esquece.

sábado, 17 de setembro de 2011

paêbirú


ouvem-se as letras caindo enquanto o som toca no som é o som de outro tempo. Há fogo folha água luz estrela um firmamento negro e a meia-lua minguante da noite de hoje é a lua nova de algum outro dia.

samba-se o passo na areia e o sol na janela balança com o vento a veneziana. O raio de sol amarelo e quente inventa o balanço do vento que vem e o vento se esquenta no sopro da areia também.

duas flores agora se brotam aos pares então já são quatro flor a brotar. Uma floresta se faz de três flores três árvores quatro riachos e cinco pardais.

O som do sol que vai longe acorda o sono daqui e se estende às costas de mim

a luz do dia nascente nascendo ao meio do dia em dia que ele se põe.

baixou

a lua brilha e mingua entre as vastas nuvens
e estrelas brilham juntas trás daqueles montes
deitado mesmo à cama, janelas fechadas,
o som do vento chia e envolve já meu sono

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

crônicas do metro


Ele sentou no metrô bem no ponto final. Dali só havia um sentido pra ir.

Esperou. A última parada demora mais que as outras, o trem se lotando aos poucos com poucas pessoas entrando. Esperou, descalçou os pés e apoiou na poltrona da frente, esticando as pernas.

Entrou uma moça, loira bonita vestida de branco e com os olhos tapados por óculos negros. De sol. Pouca gente no vagão quase ninguém ela foi e sentou bem de frente pra ele, uma poltrona além. Para trás. Na frente exata ele tinha os pés pousados, ela não sentaria aos pés dele, não seria educado.

Tirou os óculos de sol e enxugou o suor da testa. Ele viu que em volta ao nariz, onde os óculos pousam, duas marcas fundas avermelhadas tinham ficado marcadas. Os óculos passaram muito tempo ali, pensou ele, ou o nariz dela inchou, não sei.

Sorriu para ela quando ela olhou, indicou o próprio nariz com a ponta do indicador e ela percebeu o que era. Sorriu também, mei sem jeito. Alisou o nariz e pegou num espelho. Sorriu de novo pra ele, agora que vira as marcas.

Ele sorriu. O trem partia em segundos, pessoas entravam ainda, o trem partiu da estação final rumo ao único sentido possível naquela situação. Ele olhou para ela, que mexia em algo na bolsa, no colo, algo assim.

Ele deixou de olhar. Ela olhou, então. De repente. E ele notou. Ele olhou de volta, ela continuou. Os olhos se olharam, ele sorriu, ela também, dessa vez sem ninguém sorrir primeiro, antes do outro. Os dois sorriam e uma estação depois ainda se olhavam.

Ele saltou em uma estação qualquer antes dela, que foi até uma estação qualquer depois dele. Ninguém sabe pra onde, ninguém sabe quando, ninguém sabe nada.

Subindo as escadas ele pensou se a veria de novo, um dia.

Ela, no trem, tocava de leve a marca ao nariz e sorria, pensando se um dia o veria de novo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

trinta e umésima


Há formigas fantasmas andando no meu corpo. Meu quarto tem formigas de verdade. Cozinha, se o lixo é esquecido sob a pia, não só formigas como formigões. A casa toda se coça por onde elas passam.

Depois de meditar por mais de uma hora, às vezes um pouco menos, a perna formiga. Levanta-se devagar circulando o corpo, com a mão se puxam os pés, que formiga, metade da perna dói e a outra não sente nada. Nada. Metade da perna dói e a outra só volta a existir aos poucos.

Sinto-me porco quando a mosca voa em mim. Parece que não tomo banho ou tenho qualquer coisa, talvez um pacto com o capeta, Senhor das Moscas e da Imundície das Profundezas. Mas tomo de três a mais banhos por dia, ça chuva ou faça sol. Especialmente quando faz sol.

Hoje, desde criança procuro nos cantos da casa algum doce ou ovo de páscoa ou qualquer dessas coisas que atraiam formigas. Não vejo uma bala sequer, nem pra elas nem para mim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

tratado de muriçocologia


Há quem saiba o que é muriçoca,
carapanã,
pernilongo,
tudo tudo a mesma coisa, mas em partes diferentes
de um país.

Meu país, o brasil,
todos sabem muito bem.

Como chamará em portugal?
Talvez pernilongo também?
Talvez?
Muriçoca duvido um pouco;
carapanã, nome díndio,
duvido muito.

Vejo agora o dicionário e se chama
não, não chama,
não encontro o dicionário.

mas o mosquito muriçoca
pernilongo
que me acordou agora
antes das 6 da manhã
me tirou foi tanto sangue
que eu juro que esta é
de todo o mundo inteiro
a maior carapanã.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

e já lá se vão 30


A lua cheia é grande e nasce ao fim da minha rua. Não sei se ela alumia ou a lâmpada pública, mas bate uma luz em mim e no muro há sombra. Eis que a sombra se agita e quase me pega no susto, mas eis também que o susto bota a sombra em seu lugar.

Na janela do andar, do segundo, um gato arranha a cortina por dentro do vidro. Não sei se o gato caía caso o vidro se abrisse, não sei. O vidro está fechado e o gato arranha a cortina no alto, dependurado na contraluz.

Faço as contas de quanto falta para nunca mais faltar nada. Complicada. Muitas vírgulas na divisão.

Lê-se um livro em algum lugar, em outro lugar se faz sexo, num terceiro ainda um terreiro de umbanda batuca a canção de uma avó. Lê-se um sexo enquanto num terreiro reza-se um terço inteiro. Livra-se então dessa dó, seja lá do que for.

A lua cheia é grande e aqui já vai alta, mas lá onde me interessa a lua até já desceu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

mexicana

- Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser reformulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

(Italo Calvino, As cidades Invisíveis)

Morde o pêssego e pensa na menina. Ela é de outra terra, de longe, ele também. Mas os dois da mesma terra ficam cada qual num canto. Os dois da mesma terra em terras longe.

Quando a conheceu estava de partida. Ele. Ela não, ela ficaria. Mas ficaria num ponto tão distante do destino quanto da terra natal. Dele. Entende? Ele a conheceu quando partia de A a B, enquanto ela permanecia. Em C.

Era como se um estivesse no Brasil e a outra, sei lá, Japão. Longe.

Mas ambos da mesma terra, eram.

E se iam reconhecendo um pouco, de pouco em pouco, enquanto lembravam do que ficara nas infâncias do pensamento. A cada estação de trem, a cada metrô, de ponto a ponto da linha ferroviária do mundo todo os dois se lembravam, como quem acha dois euros no troco da máquina de café.

Ambos os dois contavam histórias, mas ele calava mais. Ela falava, chutava areia na praia ou no deserto do Egito antigo. Ele só lia livros, olhava as ruas e caminhava. Ela falava, mas também nem sempre.

Tinham uma coisa com livros antigos, sentimentos antigos e com velhos espíritos. Mas nenhum dos dois sabia bem o que tinham.

Não sabiam, mas falavam do mesmo jeito. A cada palavra nova a cada história um pedaço dela saía de trás da cortina azul. Ele não tinha cortina mas parecia estar sempre de costas, então cada frase nova girava-o um pouco mais. Ela descortinando, ele encarando de frente o futuro de sabe deus quê.

independência ou 29


Almoço. Baião de dois com queijo típico português. Meu grito do Ipiranga nas beiradas de Lisboa.

Minha avó deu a meu pai um colar de ouro, de estrela, benzido em pai de santo. Num exu, bem da verdade. Isso faz tempo. Hoje o colar é meu, meu pai me deu antes de eu seguir. Era Exu Seu Tiriri, o exu, dos primeiros amigos que tive que eu lembro. Ele e meia dúzia de crianças mortas. Ou desencarnadas, como queiram.

Hoje ando por aqui com a estrela amarrada no peito. Umbanda andando em território português. Típico, eu sei, feito o queijo. Além disso tem ciganos, indianos, a comunidade de África e metade da China aqui. Andando pela rua de noite, pegando vielas sem muito sentido, cai-se em bairros mais ou menos proscritos por serem migrantes. Imigrantes, de fora. As casas antigas malacabadas, fachadas descascando em torno da janela de onde sai um pai gritando ao filho que de bicicleta vai pra longe algo como "volte aqui", mas em hutu. Não sei se era "volte aqui", mas devia ser. O menino logo voltou.

Lisboa à noite é sem turistas, ao menos pela semana e ao menos fora das zonas turísticas de festa à noite. Cidade de imigrantes que ocupam vielas velhas onde nasceu o fado, Pessoa, onde morreu Amália e onde ainda talvez um dia chegue Dom Sebastião. O Desejado.

Independência ou morte, certa vez disse um português. Gritou à beira rio quando voltava da cidade onde Nasci. Santos, vocês sabem. Hoje, em terra dele, ouço pela janela pouco mais que um ou dois carros, vizinha gritando qualquer coisa que não entendo e o barulho imaginário do rio lá do outro lado.

Supõe-se que hoje eu sou livre.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

vigésima oitava


A senhora na fila reclama da fila. "Como podem demorar tanto para entregar um papel, como podem?". Na vez dela, demora. A senhora é à minha frente, então espero. "Não pode esta foto com óculos escuros", diz a atendente. "Ah, pode! Ah, pode!" e saca a senhora de dentro da bolsa a carteira de identidade, motorista ou sei-lá-quê. Uns anos mais jovem, papel amarelado, óculos escuros. "Viu? Trate de aceitar". A moça aceita.

E diz a menina médica jovem ao velho, no meio da rua, "O senhor já fez exames de audição? Pois estamos aqui nesta clínica fazendo de graça, pois sim? Então, já fez os exames?". E o velho, "Hein?". "Exames de audição", ela diz, "estou lhe oferecendo". "Ah não, não, eu ouço muito bem".

Existe uma rampa na muralha do castelo. Ela sobe um pouco até o alto do arco de entrada e vira à direita. À esquerda também prossegue, mas olhando da bifurcação logo se vê que à esquerda o caminho acaba logo. Quinze passos e uma cerca. Ou menos. Toda gente segue ao arco, sobe no muro e tira as fotos do Tejo lá embaixo, escuro ou claro depende do sol. Virei à esquerda. Quinze passos, ou menos, parei na grade e vi, pra além dela, dois pavões. Enormes. Ciscando, andando, ao sol, claros, quietos, azuis e verdes e tudo mais, a se coçar com o bico e a comer as ervas do recinto.

Recinto rimava, aqui.

À direita, as pessoas tiram fotos. Ninguém vê os pavões.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

vinte e sete


Cedo a burocracia me barra. Burro, insisto. Nada. Tudo bem, não sou dos que morrem por isso. Meu atestado de óbito será só mais outro papel.

Metro. Aqui não é metrô. É metro. Medida de comprimento de uma cidade nem tão comprida. Cedo, caminho. Não paro de andar desde que cheguei, a cidade é o que os pés do homem andam, sem mais nem menos. Afora isso nada existe. Minha cidade são meus caminhos.

Do litoral do Brasil até o interior, depois outro litoral depois outro interior, Europa já, depois outro litoral, depois outro interior depois mais um litoral. Europa de novo agora. Como estações de metro uma após a outra, todas linhas do mesmo mapa. O mundo é uma zona urbana mesmo que em meio ao campo. Dos litorais aos interiores tudo que resta é paz. Meu corpo são dois meus pés.

Na pausa para um café sento à sombra que, creio eu, vai me acompanhar. No pátio da lanchonete, em minha universidade, um lago artificial brota peixes bambus e u'a única flor de lótus. Lótus. Deus é um piadista. Ou Buda.

Volto de lá e ando. Ando. Com uma mala nas costas eu ando. E subo, desço, e chego. Largo a mala naquela que será, quase já, minha casa. Depois volto. E ando.

Quando janto, defronte a um Buda de madeira, esqueço da reverência. Só lembro ao fim do arroz, quase no fim do prato. O restaurante é escuro e a música triste parece me entristecer.

Mas essa tristeza que sinto é cansaço.

domingo, 28 de agosto de 2011

cena 26


É verão só sob o sol. Na sombra faz um frio que me enregela a alma. A cerveja gelada acompanha o tempo. Estou bebendo meus sentimentos.

Penso te ver caminhando na marina. Na mesa, minha frente, um prato de caldo de cenoura esfria com o clima. Andando pela marina, afinal, tu não está. Teus pés agora devem estar do outro lado do oceano.

Passam pela mesa um pai e sua filhinha. Quatro, cinco vezes. Suponho que serão seis, em breve. Pronto! Passam seis vezes, em pouco a pouco correndo de um lado ao outro, não sei se apostando corrida ou pega-pega.

Como se chamará pega-pega em havaiano? E em holandês? Ontem aprendi a conjugar ser em croata.

Meu prato está frio. Na escada, atrás de mim, vem sentar uma bela portuguesa. As moças de Portugal têm cara de portuguesas, é fácil identificar. Acho bom: se não tivessem elas, quem teria? As indianas?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

cena 25, querido diário


Quando o sol nasce, do outro lado do avião, no mar lá debaixo vejo algo a brilhar. Com a luz do sol, no mar, algo vermelho acena. Um navio, talvez, ou um pedaço de sol que se perdeu.

Lisboa é uma cidade de vielas decadentes e avenidas reformadas. Nas vielas vejo alguma porta aberta e um velhinho português a ler jornal.

Quando o caminho em que ando acaba, começa o rio Tejo. Deixo os chinelos depois de uns degraus e afundo meus pés nessa água. Um tipo de limo ancestral ameaça que eu escorregue. Daqui partiram navios que inventaram o Brasil. Agora eu inventario.

Ouço mais de cinquenta idiomas falados, em todos os lados tem um grupo a mais. É verão, Portugal é quente e os norte-europeus descem pra cá.

No aeroporto chegou, atrás de mim, um avião de africanos. Com roupas típicas coloridas e as línguas, um cheiro de incenso acompanhou o desembarque.

Um sufi passou por mim defronte ao Teatro Nacional. Turbante e barba longa, um sufi.

A maré sobe. Não sei os nomes dos lugares, mas a água ainda molha.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

cena 24 de agosto


chorar é um evento solitário

Sento num descampado para escrever. É a mureta do canal, canal 2, pés na calçada olhando a rua. Às costas, a água suja do canal corre pro mar. À minha direita árvores espaçadas fazem sombra na calçada. À esquerda também. Só exatamente em minha frente é que não há nenhuma planta. Os carros passam e eu escrevo. Isto.

Na janela de um shopping alto, eu pelo lado de dentro, um suco na minha mesa, olho os prédios do lado de lá da avenida. O prédio que eu vejo me olhando é uma casa baixinha, um sobrado, uma casa baixinha velha mas reformada, casa onde havia um pronto-socorro. Quando criança, muitas e muitas vezes fui doente praquela casa, e o doutor do segundo andar me fazia esperar na sala. Criança, olhando pela janela, via o shopping alto que na época não existia. Ali havia um cinema.

Caminho pela praia e molho os pés na água, depois saio dela. A linha que sigo, tortuosa, passa por cima de patas de pássaros. Pegadas de asas estão pelo chão da praia. Sem perceber muito bem, pisando por sobre elas eu meio que alço voo.

Vejo um posto de gasolina que já era um posto de gasolina quando fui adolescente. Lembro de uma vez que, saído da escola, eu e uns amigos andamos até ali. Sem motivo aparente. Na esquina continuamos a conversar, a falar, até que já fosse tarde o suficiente para eu levar uma bronca quando chegasse em casa. Tudo bem. Um amigo ali, naquela tarde, me deu as coordenadas matemáticas do famigerado ponto G. Vocês ficariam surpresos de saber o quanto ele existe...

Numa das últimas ruas, passo defronte a uma casa antiga. Casa em que eu ia criança, casa da vó de uns amigos. Faz tempo. A casa está igual, paredes de azulejos na garagem aberta na entrada. Na casa da vó de meus amigos o portão está enferrujado. Na de minha vó também.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

não sei se esse nó
que sinto no estômago
é ansiedade ou cachaça

não paro de pensar
que não paro de
pensar
que não paro de pensar

meu coração bate mais rápido
mas deve ter sido por eu
ter batido
o dedão no sofá

pensei que estivesse triste
mas o que eu sentia
era frio

sábado, 20 de agosto de 2011


tempo é movimento, ao correr.
descanso, letargia: eternidade.
não há alternativas, na verdade,
que leve qualquer louco a não morrer.

domingo, 14 de agosto de 2011

23, dia dos pais


Pedalando pela praia, desacelero. A menina que vai à frente pedala devagar, insegura, tentando tirar uma das mãos do guidão. É criança. O pai vai na frente e a deixa por conta própria, mas não pedala rápido pra que não se distancie. A menina treme, faz pequenos ziguezagues, treme, por fim grita com a mão pro alto. Uma delas, a direita... não, não, a esquerda! "Pai! Pai! Tirei uma das mãos!". Depois, mais baixo, falando pra si própria, ri. "Tirei uma das mãos... que fantástico!".

Sento ao pôr-do-sol olhando os morros lá distantes. Estou sobre pedras no canto da praia, no outro canto o sol avermelha. Passa um sujeito e desce pra areia. Um cigano, penso eu, de colete sacola e bolsa barbicha e cabelo comprido. Volto a olhar o céu antes que o sol se vá. No fim das pedras o cigano assenta, com o pé na areia. O sol vai dormir e o cigano acende um cachimbo de madeira.

Crianças correm da areia pro mar, atrás do pai pescador que parou o barco no raso. Crianças sorriem pra água que cai, pro homem do algodão-doce, pra árvore, pro coco verde gelado a 3 dinheiros, muito caro. Crianças passam na noite de lua cheia com vento quente, vento noroeste a gente chama, que traz chuva e me lembra infância.

No teatro me admiro. De toda a beleza coreografada, ensaiada, de textos prontos e marcas dadas, o caminho das pétalas que caem do alto se faz por acaso. Tampouco ensaiada é a pétala que agarra na trança da moça, da bailarina que sai. Tampouco meu choro.

O espetáculo acaba e o choro prossegue.

De repente passa uma criança...

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*a foto é do tal espetáculo: http://www.donkashow.com/donka.html

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

dois patinhos na lagoa


- Ô paaaaai, posso lavar o cabelo? Ô paaaaaaaaaai...

A criança grita do chuveiro e a voz vem pelo poço do elevador. Morar em apartamento é viver, de um jeito ou de outro, a vida de todos em volta. Alguém bate a porta, alguém bate à porta, um velho morre no andar de cima, o vizinho chora, o cachorro late e a mulher se despede antes de ir embora.

Pisando pra fora do prédio ela muda de bloco, dali em diante sua vida se isola, não é mais pedaço da história do prédio. Não está mais ligada ao homem que morre e o homem sem teto, que dorme encostado na escada da praça, não é nem um nada. Não é nada pra ela. A mulher que saiu do edifício segue sozinha uma história sozinha.

Deitado na escada, na praça, o homem afasta umas pombas e um grilo. Não vive num prédio, não tem seus vizinho num bando de gente: vez disso, ele é consciente da morte do esquilo, das asas batendo de uma andorinha, da grama que nasce, das flores que brotam, da quina da escada que o fode nas costas. Viver na praça é morar, de uma forma ou de outra, no meio da vida de todos em volta.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

(021)


Um funcionário atrás do vidro troca o cartaz que anuncia: a partir de sexta-feira espetáculo inicia no teatro São João.

O caminho de volta à rodoviária é mais breve que o de ida. Meus pés já sabem por onde ir, mas do avesso. Logo chego.

À minha esquerda o mar se agita. À frente, arrebita a bunda de uma bonita moça, ao lado do namorado. Talvez marido. Tatuado e com aparência presidiária. A bunda balança livre.

Uma senhora arrasta a sacola pela calçada. Cansada, parece pedir um vintém. O homem que se aproxima é generoso: cruzando o olhar com a velha na certa dará uma moeda. Um passo antes da idosa, entretanto, seus olhos se enchem de encanto ao cruzar com o olhar de uma moça, do outro lado da rua. A velha se deita com fome, e dorme.

Vejo a rodoviária ao longe. As luzes piscam. Cheiro de bar e urina no chão. Passo. Estou no caminho. O destino é a estrada. Indo embora me sinto em casa.

sábado, 6 de agosto de 2011

vinte ver


Rio de Janeiro. Estado. Peço café. "Açúcar? Adoçante?", "Nada, obrigado". "Nada? Como você consegue?". Não sei. Sou de São Paulo.

Estado.

Andando pela praia primeiro dia à noite, primeira noite, no alto do monte vejo um fogo incendiar. Lá longe. Espero que apague.

Meu chinelo arrebenta e sigo, com pé no chão que fica imundo. A sujeira do mundo inteiro se estende pra que eu pise. A sujeira do mundo condensa em meus pés.

À beira da calçada um cão espera. Deitado, olha para cima de um morro longe, do lado de lá da avenida. Outro cachorro deitado, no mato, espera. No alto do morro. E olha o primeiro cachorro. Estão a esperar que a altura se abaixe.

Tremula no caminho um edifício em construção. A rede que protege da queda de entulhos dança ao vento. Tremula o edifício no caminho, e nada mais preciso.

Mas no tremular do mar, ao lado de onde estou, emerge a tartaruga. Breve, e logo afunda.

sábado, 30 de julho de 2011

aos dezenove ele não vai lembrar


Como estou pedalando, perco o final da frase. É uma mensagem escrita no chão, no meio da rua, em frente a um prédio.

Luana,
me perdoa. Eu te amo muito,
não consigo viver sem você.
César

Não-consigo-viver-sem-você-César é o final que imagino. Não sei se seu nome é César. Nem lembro, aliás, se o dela é Luana. No meio do asfalto o amor se estira.

Faz mais calor hoje que nos últimos meses. O sol coloca um filtro azul na realidade. Sinto que a praia é a cena de um filme aquecido. Nova geração de processadores de imagem.

Sentado olhando pro mar olhando pro livro e lendo, voltemeia passa um menino correndo. Pequeno, dois anos, da direita pra esquerda. Passa um menino correndo desde onde seus pais se encontram. Um dos dois segue atrás, chama, pega o menino no braço e leva de volta. Volto a ler. Pouco depois - um parágrafo - volta o menino a correr e agora é o outro que busca. Menino pequeno falando pras pombas qualquer coisa que eu não entendo.

Que pena. Deve ser mais importante que meu livro ou que o céu quente de hoje.