sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Precisamos falhar sobre isso

Nestes tempos de vida social e democracia fragilizadas, se é que existentes, precisamos falar do Buda. Sim, do Buda, mas não o chinês gordinho sentado sobre moedas - esse é um outro tipo de buda, e alguns budistas nem gostam de dizê-lo buda. Enfim... - Temos que falar sobre o Buda e sua realização mais que óbvia - desculpa, Buda, mas fica óbvio depois que a gente aprende - sobre os três venenos: ignorância, apego e ódio. Poderíamos traduzir por outros termos, também: em vez de ódio, raiva. Mas fiquemos com ódio.

Digo, não fiquemos com ódio. A opção tradutória, entretanto, basta. Tem-se falado muito muito muito em ódio - tem-se falado em ódio de uns e de outros, e de formas odiosas, e de formas raivosas mesmo. "Odeio aquele que odeia! Estou do lado certo da história, por outro lado. Posso odiar à vontade."

O Buda diria, e foi isso que ele disse, mais ou menos, a crer nos ensinamentos que a tradição vem passando há mais de dois milênios; diria o Buda que o ódio à ignorância leva, a ignorância ao apego leva, o apego ao ódio leva e assim sucessivamente. Diria também Yoda.

[os três venenos se retroalimentando, no centro de um grande quadro cosmológico budista sobre o ciclo da vida]
Agora vejamos: ódio, apego, ignorância; ignorância, apego, ódio. Cadeias de causalidades, estados mentais, disposições e predisposições do corpo e da ação, da fala, da mente, dos atos, da visão. Porque através desses venenos, diria o Buda, vemos o mundo e agimos nele, ou não agimos, mas ainda o vemos e o classificamos: ódio, ignorância, apego. "Estou do lado certo da história, entretanto, então não há problema."

Exceto, claro, que o ódio, a ignorância e o apego, só pra citar três venenos, são um problema em si.

Longe de mim oferecer soluções - perdão, não tenho a menor capacidade de oferecê-las. Longe de mim oferecer soluções e dizer que não vivo também entre ódios, ignorâncias e apegos. Longe de mim. Mas, de algum modo, mesmo minimamente, mesmo pouco, mesmo às vezes, é bom saber-se envenenado. Porque, sabe como é, como diria o Buda e a democracia direta, cada um saiba de si e, sabendo um tanto, ajude a tocar o barco em que todos, juntos, seguem navegando. Querendo ou não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

querido diálogo I

- É preciso entender o ritmo das águas-vivas - ele dizia - e saber nadar no meio delas.

- Como se fosse possível.

Ergueu os olhos para a descrente, sorrindo um pouco.

- Por que eu mentiria?

- E eu sei lá? Talvez pra me convencer.

- Te convencer de quê?

- De que é preciso entender o ritmo das águas-vivas, saber nadar no meio delas, em vez de ficar na areia segura e seca.

Baixou os olhos, sorrindo um pouco. Ela já cria.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

o céu de theo: mísera mesa edições

Talvez vocês saibam que já publiquei algumas estórias, geralmente em forma de novelas periódicas, diariamente capituladas, no facebook. Pois agora se inicia uma nova fase de compartilhamento: em um arquivo único, para leitura online ou download, todas essas histórias estarão em breve disponíveis.

Além da que inaugura esse projeto, publicarei O Naufrágio do Aqueronte e também Santos'agrados. Mas, para iniciar, nada melhor que o céu de theo, essa contação de estória infanto-juvenil para adultos. Espero que gostem, leiam, recomendem e compartilhem.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

tripitaka

A Editora Medita lançou, recentemente, meu primeiro livro de poemas. Ele se chama tripitaka, apresenta um porção de textos escritos ao longo das minhas jornadas monásticas e nem tanto, tem um projeto gráfico belíssimo e é barato.

O míseramesa recomenda entusiasticamente e eu ficaria feliz se todos meus amigos, leitores e interessados tivessem um exemplarzinho em casa. E lessem um exemplarzinho. E recomendassem, e dessem, e torcessem para que ele tivesse sucesso nessa caminhada.

O tripitaka pode ser comprado aqui, por R$ 20,00 (vinte reais, meus caros. É quase nada!)


sexta-feira, 28 de março de 2014

nada demais: retorno

Pra todos  os efeitos, deve fazer um ano que não medito. Quase isso, pouco mais ou pouco menos, e a última vez foi bem longe, em Portugal. Onde eu morava. Agora, aqui na Argentina, ouço o mantra de Ksitigarbha, meu abençoado padroeiro, bodhisattva dos mortos, das crianças, dos infernos.

Explico, breve: bodhisattva é um ser que, no budismo, faz votos para não atingir a iluminação. Isso porque, iluminação atingida, o nirvana alcançado, nunca mais renascimento, nunca mais vida terrena - ou, cosmologicamente falando, nunca mais vida em reino nenhum da existência.

Bodhisattvas, então, são seres que dizem "não". Que param no Caminho para ficar até quando for preciso, para poder estar em todos os reinos da existência em que seres em sofrimento e ilusão estejam precisando de uma mão, uma palavra, um empurrão. Varia. Ksitigarbha fez um voto - grande voto, na minha opinião o maior deles - de ir para os reinos inferiores, infernais, e lá ficar até que não houvesse mais nenhum ser naquele plano.

E lá está, até agora, considerando que o inferno anda sempre abarrotado.

A última vez que eu tinha meditado, pelo menos que eu lembre, na sala de Sapadores, minha casa velha em Lisboa, sentado de pernas cruzadas e cara virada à parede, tocava o mantra dele, Ksitigarbha. Dizang Wang Pusa, em chinês, porque eu tô mais pra China que pra indiano.

De lá pra cá foram oceanos e mares, continentes, mudanças, mortes, renascimentos, respirações, andar por um labirinto, e no fundo da minha mente passava "preciso voltar a isso".

Mas não voltava.

Até que sim, pura e simplesmente. Meu São Cristóvão transportou de lá pra cá um que faltava, e perto do Rio da Prata olhei pra Ksitigarbha, ouvi ao que ele dizia, que diziam dele, e parei. E volto. E soa o manto da voz divina. Ou infernal, depende do ponto de vista.

Simples. Nada demais.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

cena bambanal

As cenas banais perderam os números. Perderam os números, os nomes, um tanto da memória, as cenas banais. Perderam a hora, saíram de tarde, seguiram pra praia sem nada, só berma sem nem um dos pés de chinelo, nenhum. As cenas banais já são algo comum.

Perto do mar, solas quentes queimadas na areia no sol, perto do mar e eu sem óculos, lá longe duas meninas pequenas lindas lindas negras de maiô davam estrelas, estiradíssimas, duas belas bailarinas as duas meninas. Uma, a mais velha ou maior, rodava rodava rodava com as pernas e os braços e as asas na areia, estrela perfeita. A outra, quase. Duas meninas lindíssimas, duas pequenas virando estrelas no mar.

Depois corro, como sempre, corro sempre, corro. Pela beira d'água, espelho do céu, mar, chapinhando água lama nas chapinhas nas crianças nas loiras de bunda grande nos cabra de braço armado nos frescobol. Paro. Uma maça de capinha azul no chão, um telefone, mil de reais condensados. Na água, sendo banhados pelo azul de Iemanjá. Pego. Funciona.

Sento na areia, procuro contatos, faço contato, Irmão, Teu Irmão Se Lascou Aqui, Perdeu O Celular Da Maçã Novinho Em Folha. Porra!, Não, Vou Aí Buscar. Demorou, Tô Na Areia. Estou. Na areia, sentado, queimando os pés no sol fritando as ideias. Atrás, nos coqueiros, uma moça caminha na corda bamba, dança, gira, pula, cansa, sobe de novo e anda.

Ando. Falo. Espero. O cara aparece depois de um tempo, e nesse tempo ainda estou caindo mais que mamãos maduros comidos por morcegos, estou. Mas por pouco tempo. Ando. Ando e ando e volto, mão num coqueiro e noutro, levanto na faixa com a coluna reta como se meditasse, como se fosse um templo a praia em que estou andando, em que estive correndo, em que vi no começo duas meninas negras lindas lindíssimas virando estrelas do mar.

O sol, acima, brilha.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Bonito, isso. Esse teu acabrunhamento. Feliz, fica a contento de nosso encontro. Bonito, isso."

AURELIANA, Dona

---

não escrevo mais poemas.

---

de minha parte
não gosto de quem se define
de quem se dá nome
se engessa em certezas em egos
marcados
por cartas já dadas

por exemplo
tivesse eu que me definir, agora, me nomear
diria que sou nem
só pra poder marcar
o que não marca

---

ano
de vagões descarrilados
pássaros em chamas ano de enfado
fado dramas
bananas plantadas ao vento
coração de bananeira trepadeira tempo
cafés servidos ao alto do céu sem fundo
sentimento do mundo dolorosamente quieto
súbito
sutilmente confuso
profusão de espinhas gélidas
de elas e elos e eus

ano descarrilamento fé febre deus

---

hoje nasceu um buraco
nas fímbrias do pensamento
hoje brotou um lamento
no ramo mais alto do arbusto

não acho justo
mas é
natural
que as coisas não fluam

nem tudo é rio

---

por favor
com licença
obrigado
zumbi
headshot

palavrinhas mágicas

---

ô,
black friday, nêgo
lima essa fernanda
e risca o martin também
do nosso samba

---

um retumbante não

---

y os pó
derosos segue
tudo
sambando sobre nosso
túmulo

---

obsessão
não é
poesia

tu
não é
poesia

tu
é

ob
se
ssão

---

ramirão ão ão
já dizia
não
que comeremos os mamãos maduros
da insubordinação

---

poesia, deus e honestidade política
a trindade inexistente

---

por um léxico cerebral tupiorubá

---

Brasil, o bastião da pó-modernidade

---

por um mundo de rebeldes sem calça

---

dos belos substantivos compostos:

orgasmos múltiplos

---

começar
todo santo dia como se não soubéssemos
escrever

acordar com os olhos e ouvidos
atentos

prosseguir todo todo dia até o último
seja quando for
com uma dúvida incrustada no corpo

ser o melhor amigo do cão
quando calar

quando ousar falar
do dicionário

---

homer simpson
o homero
george romero
e zéu britto

eis as combinações possíveis

---

todo poeta
é houdini
literatura é um escapismo forte
é uma esgrima ilusionista
co'a morte

---

Quando da confecção de um boneco vudu

tenha em mente tenha em mãos
as seguintes condições:

que não seja, a cara dele,
parecida sequer parecida
com a tua cara, seu costureiro
brujo, feiticeiro, intruso
no sonho alheio

que não se pareçam contigo
também
os olhos alfinetados os braços
sequer a roupa a roupa sequer
quando for costurar um vudu

toma cuidado
que ele não se pareça sequer se pareça
com tu

---

se vossas vozes
fossem
fossas
sentido elas fariam

---

proponho uma proposta
ouve aqui, vê se tu gosta
olha, ouve
proponho uma proposta que nunca se escutou
antes
proponho que arranhemos
céu
ambos
proponho o que nunca dançamos
proponho, ouve, olha
ouça
proponho que se proponha
outra
prosa
proponho mesmo outro começo
veja

tu
mais
eu

terça-feira, 26 de novembro de 2013

o amor é um brownie
feio, duro, ressecado
comprado numa estação de subway
às três da madrugada, no escuro
com moedas tateadas
o amor é um brownie

o amor
é uma cerveja quente e já choca
não!, são duas
duas cervejas chocas e quentes
o amor é a gente

o amor é tomate de fim de feira
mais triste esmagado mais plof
que os tomatinhos da piada
atravessando a rua sem olhar
pra nada
o amor é uma fruta aguada

o amor é o filhodaputa do gordinho que chega atrasado
na fila do ônibus que leva as crianças pro orquidário
o amor é o salafrário do gordinho
que vai apanhar danado no intervalo
na hora do recreio esse gordinho
coitado
vai caber no ralo
o amor é o que chega atrasado

o amor é uma diaba de palavra que ri
toda vez que olho pra ela
toda santa vez

o amor é uma moléstia
é uma febre tifóide
miopia certeira que chega na hora
na hora
da leitura do último poema

[poema II da série (que eu pensei que morreria): o amor é um brownie]
o amor é um brownie
feio, duro, ressecado
comprado numa estação de subway
às três da madrugada, no escuro
com moedas tateadas
o amor é um brownie

o amor
é uma cerveja quente e já choca
não!, são duas
duas cervejas chocas e quentes
o amor é a gente

o amor é tomate de fim de feira
mais triste esmagado mais plof
que os tomatinhos da piada
atravessando a rua sem olhar
pra nada
o amor é uma fruta aguada

o amor é o filhodaputa do gordinho que chega atrasado
na fila do ônibus que leva as crianças pro orquidário
o amor é o salafrário do gordinho
que vai apanhar danado no intervalo
na hora do recreio esse gordinho
coitado
vai caber no ralo
o amor é o que chega atrasado

o amor é uma diaba de palavra que ri
toda vez que olho pra ela
toda santa vez

o amor é uma moléstia
é uma febre tifóide
miopia certeira que chega na hora
na hora
da leitura do último poema

[poema II da série (que eu pensei que morreria): o amor é um brownie]
O Cadafalso

abriram-se as porteiras
do inferno

é o que diziam
o carrasco e a comitiva
que ali ouviam gritos de dor

abriu-se a tampa do
cadafalso
mas nenhum passo
nenhuma queda
sequer brotou
naquela terra
empoeirada

nenhuma bruxa foi
degolada
nenhum ladino teve suas mãos
jogadas longe
nenhum alforje naquele dia
foi devolvido

porque o príncipe de todos os mendigos
morto de fome
roubara a tampa do cadafalso a forca e o gume
da guilhotina

vendeu a piratas na beira do mar
e alimentou a família

---

pelo exército na rua
na tua
rua
nas duas
esquinas
da tua
rua

e que tu não saia por aí desfilando ignorância
como se fosse uma criança no sete de setembro

---

a sina da antropologia no século XXI:

viver em contato com tudo quanto é papo errado sobre o mundo, sociedade, hábitos, posições e dinâmicas políticas, categorias e ações de preconceito, opiniões e achismos fortes
que na internet ganham poder de fato, de teoria incontestável, de verdade analítica.

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[vai ver tô ficando velho e recrudescendo aos tempos de amor cortês

mas gosto de ver gente casada e feliz

- gosto de ver gente feliz sem casar, também, mas não é disso que falo agora -]

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28 pecados capitais

modernidade, globalização, aprofundamento das desigualdades e da estupidez

7 pecados já não dão conta

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[o poder da edição
de cortar palavras, substituí-las, reescrever frases, eliminar períodos
tirar o ranço preconceituoso de um texto
o travamento
de fazer com que ele flua

ô puta sensação boa]

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pioneiros bandeirantes desbravadores
todo mundo que chega primeiro só faz merda só traz mortes dores sofrimento

ir com calma
chegar depois
não
ter
pressa

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um estudo em concreto: amor, parte (acho que) XIV

o amor não é clichê
o amor é mais
perto do amor clichê parece
david lynch vanguarda pop art inovação tecnológica radical
perto do amor
clichê é nave espacial

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brigada macunaíma
guerrilha muiraquitã

que é melhor ter nenhum-caráter do que ser mau-



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brasil não é o país do futebol
país do futebol é inglaterra
brasil é o país da discriminação

bate um bolão

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[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo três, derivação verbal

"escravidão": substantivo naturalizador de condição

"escravização": substantivo derivado por sufixação. Processo. Substantivo derivado de um verbo (escravizar); de uma ação (escravizar); de um absurdo (escravizar).

Desnaturalizar o discurso. Porque: naturalização = o Mal]

---

[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo dois, adjetivação

"Ao término da Segunda Guerra Mundial, passa a existir um movimento mais amplo em favor do processo de autodeterminação dos povos coloniais." = não.

"povos colonizados"
ou, melhor
"territórios colonizados"

povos coloniais = naturalização do processo de dominação externa
naturalização = o Mal.]

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furar os olhos da ignorância
para que ela não se torne
ponto de vista

---

[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo um, tempo verbal (parte II)

"As várias modalidades de animismo são caracterizadas pela crença e adoração de espíritos que estariam presentes nas mais variadas manifestações da natureza."

que "estariam" presentes

ou seja: nazistas "pertencem" a uma raça superior (mesmo que "supostamente superior")

espíritos "estariam" presentes.

entendem?

preconceito. implícito.

nada como o arianismo cognitivo...]

---

[Ensinando a quebrar discurso de preconceito implícito: passo um, tempo verbal

"Os adeptos do nazismo acreditam na existência de uma raça superior à qual pertencem (a ariana) e, por tal razão, julgam poder submeter e exterminar as “raças inferiores”."

"Os adeptos do nazismo acreditam na existência de uma raça superior à qual pertenceriam..."

Pertencem = não.
Pertenceriam (se pertencessem) = sim.
Mas não pertencem. Portanto: pertencem = não.]

---

[pensando

ninguém "celebra sua cultura"

quem "celebra" cultura é o de fora, "celebra" cultura alheia

!hey, vamos comer sushi, hoje. Sou tão japonês

quem "celebra" cultura não vive a cultura

no brasil, carnaval não "celebra" cultura
celebra bunda, cerveja, samba, trepada, dormir no meio da madrugada ou nem dormir

quem "celebra" cultura é o colonialista, a globo e o mec]

---

gente
poesia não
existe

eu sei que é um
problema

o que existe é o poema

---

a www
tá cada vez
mais kkk





---

vocês
ó só
cês prestatenção

eu tô já por aqui
até as tampa
eu tô
de ter que repetir

vocês
ó
ouve
ouve
porra
ó

vocês

diacho
fugiram

---

natureza humana
não

pessoa humana
não

condição humana
ok

tipo uma doença

---

as palavras ficam
na ponta
dos pés
e te beijam
e tentam
te beijar
as palavras

diabos
não dá
tu é grande
demais

as palavras ficam
na ponta
dos pés
as palavras
cansam

---

negar o absurdo
do mundo
absurdo

---

[Declaração Universal (sic!) dos Direitos Humanos

"Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão"

ou seja: quando o Estado não garante nada que preste, o homem (e a mulher, e os transgêneros, e etc, mas não atentemos a isso, por ora) tem a obrigação de se rebelar contra a opressão.

a obrigação. de se rebelar. contra a opressão.

pessoalzinho das direita, aprendam: tá escrito. É lei. Vidraças de banco e discurso da mídia não podem parar a Declaração das Nações Unidas. Sinto muito. Legalismo por legalismo, sou mais o que liberta.]

---

supremacia branca
bancada ruralista
bancada evangélica
tecnocracia burocrática

os quatro cavaleiros do agoracalipso

---

triste
é sereurocêntrico no século vinte

---

quis falar de amor
eu quis
ser sincero e verdadeiro eu
quis
mas não cheguei até paris
onde ele está
não fui, não pude

entupi-me até o rim
do amor que vi em holywood

[da série, que inicia agora e talvez não siga: o amor é um brownie]

---

é preciso
ser
preciso

---

desbanalizar o zen
banalizar o zen

calar quando quiser falar
do zen
sentar
quando quiser calar o zen

respirar

e não
encher
o saco

deixar de acreditar que o literato
compreendeu o zen

quebrar essa tendência
essa influência
essa demência
de achar que bem se sabe o que se não

poema curto não é haikai
eu meu avô meu filho não sou meu pai
ler charadinha não é koan

viver a vida como quem
na esquina
descasca sem pressa uma romã

---

No meio do jardim de meu pai, que ele herdou do pai quando o pai morreu, estávamos Rosana e eu sentados num fim da tarde. Passava. O tempo, o papo, a dor, passava entre a gente o vento e eu, levantando, andei ao canteiro de cimento enquanto Rosana não. Rosana respirava. Olhos fechados, respirando, Rosana ressonava, dormia ali no jardim de meu pai, que ele herdou do pai quando o pai morreu, Rosana aproveitava ali naquele momento que eu me distanciava. Respirava.

Havia tempo eu não via o jardim de meu pai, o canteiro de cimento de meu pai, havia tempo demais que não via o que plantara meu pai quando herdara o jardim de seu pai quando o pai morreu, meu avô, o meu. Havia tempo, e agora via, andando ali enquanto Rosana dormia, o vento passava, o tempo soprava, as dores cantavam em harmonia, agora via no jardim de meu pai que meu pai herdara da morte do vô, agora via brotando uma flor. Em couve. Havia brotado uma flor.

Não houve, no resto da tarde, nem Rosana nem vento nem dor nem tempo nem sonho nem cimento nada que se igualasse àquilo. Brotara uma couve no jardim de meu pai que meu pai herdara de meu avô. Brotara e brotava uma flor.

---

p_o__ema

---

o papel do intelectual
na contemporaneidade
é um papel timbrado e assinado
pela capes

---

[tô convencido
é só falar de amor que cês tudo fica igualzin ouriço

tudo atiçado tudo
a gente é um bando de medievo bruto

poema de amor vende mais que cerveja em carnaval]

---

todo corpo é
qorpo santo

---

quando eu disse assim
te amo
eu não mentia
exatamente
eu não mentia
eu só por um acaso
não sabia
quanto dano
um eu te amo
a nós traria

---

crianças
não briguem

adultos
não brinquem

respeitem uns
os papéis sociais
dos outros

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

toda máquina é bicho
animalincompreendido

ser vivo algum é maquinal

---

um estudo em concreto: amor, parte XIII

na calle
na rua
na esteira de concreto que acaso cobre os dias
sem que se cobre sequer um puto
fale-me de amor
que eu
escuto



---

- Meu filho, vem cá, você pode por favor pôr no gráfico?

- Como é que é, velho safado?

---

remendar o asseio das palavras
com a visão penetrante do que falo

remendar o puritano da palavra
com a visão esgarçante de um falo

---

ignorância é um status que se come tu

---

um estudo em concreto: amor, parte XII

todo mundo que fala de amor
o amor entende
todo mundo que fala
o amor atende
todo mundo que cala
ama
como um soco um pontapé uma porrada
na garganta

("O amor é um PM chutando tua costela na manifestação." - Diego Moraes)

---

o erotismo será vossa desgraça
vossa miséria vosso laço vossa forca
o erotismo o jogo o atrito entre a verdade
nua
e a crueza bruta
o erotismo será vossa desgraça

---

um estudo em concreto: amor, parte XI

amor é possibilidade
s

("um exercício

amor é talvez
aquele cometa
que passa
que passa
e você nem viu
a noite nublada
o fuso atrasado
ou talvez só o seixo
a pedra do rio.

[mverunschk]")

---

ela é
o nome do que tange a madrugada
ela é sílaba sagrada fé bornal
cheio de estrelas
ela é pequena para entrar
em todo canto em toda vida
e é grande muito grande para
enchê-las

---

às vezes, devo dizer
às vezes sexo me parece mais
um exercício físico
um triatlo
pentatlo, depende
um exercício físico do que
um algo sacro

sexo é um barato
é um barato
a banalidade é o sagrado

---

[renaturalizar o natural
banalizar o que é banal
deserotizar o sexo
é o que eu digo
deserotizar o sexo]

---

corre o tempo y corre
o rio y corre as hora y
corre a vida y corre a mor
te corre tudo y corro eu

---

nuddismo y orgia
por uma sociedade menos careta

---

ó vocês que querem
fechar do masp o
vão
pra onde o sol não bate
pra onde o sol não bate

---

"Eu vou nadar no mar", ela disse.

Ele olhou pela janela e viu cavalos, sol por sobre árvores e uma vastidão de morros e montanhas. Pensou sobre a tecnologia, sobre o contato a distância, pensou na distância, pensou no mar que também era dele. Massa d'água.

Ela agora estaria nadando no mar. Ele, ouvindo cavalos relinchos e pássaros no cerrado, fechava os olhos. Pensava na tecnologia, nela a quem não conhecia, em tantas outras, em tantos outros.

Infinitos cantos do mundo, grutas e grotas rios e animais sem nome. Populações inteiras de mortos de fome, outras tantas de obesidade. Estas, em bem menos número, verdade. Pensava depois no que ia pra lá do planeta, pra lá da terra, o que ia lentamente se esgueirando fora da atmosfera, pensava na tecnologia toda que ligava os astros, satélites, espaço.

Uma cidade em forma de nave, no meio do mundo uma cidade. Umbigo do mundo, outra cidade. Ressoando nos ouvidos, sons balidos cordas cantos do norte dáfrica. O centro de tudo.

Eu vou nadar no mar, pensava.

---

face a face

agora pare
e pense
em que pronúncia leste
face a face

fáce a feice?
fáce a fáce?
feice a?

que pronúncia vai
ficar?

---

divar
di.var
(derivação sufixal do sf diva) v.int. 1. Endeusar-se. 2. Apresentar canto notável. 3. Ser Laerte.



---

um estudo em concreto: amor, parte X

("Ame quem te cansa na cama" - Bruno Almeida)

---

não saber quando parar

---

templários do tempo do rei digladiam
se com soldados do choque do rio
em um cenário banal
em um dia
quase igual a todos os
demais

caçadores-coletores fazem frente à
ofensiva de zumbis mortos de fome que
reviram lixo reviram bichos e braços e mortos e

intraterrenos encontram extraterrestres para um chá
das cinco
às dez

---

ou
nuddismo

quebrar as máquinas
co pau pra fora

---

tu lírico
bicho
é poesia para os meus
ouvidos

---

tem gente que todo dia
a consciência nega

---

[toda vez que alguém agradece
à Deus

deus vira mulher

pelo nosso nível de analfabetismo funcional e problemas com crase, creiam
o paraíso é um matriarcado há tempos]

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um estudo em concreto: amor, parte IX

ela pavimenta meu caminho até o mar. Tira de meus chinelos o chão da praia, dobra minha vista em lonjuras e esquinas. Eu jogo areia em seus olhos, como seu coração na ponta de uma mesa, num bar, cidade vadia e desvairada. O amor é um desvio na mão dupla de uma rua, é uma avenida despedaçada e sem sinal. O amor só faz mal se não existe, ou se é pouco. Ou se tem mãos atadas que não podem despir o corpo.

---

digo simplesmente
foi mal, gente
precisei sair corrido
dois minutos do busão, cheguei a tempo
queria ter ficado com vocês
digo simplesmente
foi mal, gente
daqui a pouco estou

---

um estudo em concreto: amor, parte VIII

quando o assunto é
amor
robôs matam a pau



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polícia
se fosse
boa
era delícia

---

[contemplando um armário de banheiro da década de, pelo menos, 1970, chego às seguintes considerações:

- o design das coisas, antigamente, era mais honesto. Ganchos, arames, grampos e parafusos ficavam à mostra. As prateleiras são declaradamente de metal, algo como uma chapa de aço escovado presa ao interior das portas. É possível ver as partes que compõem o interior do móvel.

- as coisas, hoje, são falsamente revestidas. Elas são revestidas, eis tudo. Cobrindo ganchos, arames, grampos e parafusos, camadas lisas e bem desenhadas de plástico, curvas e traços clean ou futuristas. Não se veem mais os componentes internos das coisas, não é mais possível acreditar que as prateleiras sejam peças presas ao corpo maior do objeto. Tudo parece orgânico, mas o preço da aparência orgânica é a falsidade da construção]

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"de citação morreu o burro"

- Armindo Alcântara Wenceslau

---

[um budista de direita não tem por onde se iluminar, sequer tem condições de contemplar a realidade.

tô só comentando]

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[gente
e se todo mundo filmasse uma transa e jogasse na net?

banalizemos o choque
assim a gente vê se renaturaliza o natural
e ninguém mais se espanta]

---

dançarei nos cangerês do mar na respiração das folhas que se agitam ao vento no trabalho protelado dançarei sobre o trabalho protelado sobre o trabalho alheio sobre meu próprio trabalho dançarei sobre a palavra-moda procrastinação e farei com que a dança se estenda ao fundo das ondas ao fundo das faias ao fundo dos nãos e das dordecabeças

---

nem mercado
nem academia

praia

---

um estudo em concreto: amor, parte VII

"Borboletas-monarcas, descobrindo-se vivas,
Ela embriagada com o vapor da terra, e ele
Embriagado com ela [...]

Ela o ignora
Enquanto ele se acerca, pela direita, pela esquerda, alvoroçando
As asas abertas, bafejando a penugem dela
Com sua aragem perfumada, agitando as padronagens,
Seu apelo pavonesco e tropical de artesania,
Aventurando-se mais perto, sobre cada lâmina de folha,
Tremendo como inibido, bem perto de tocá-la –
E ela outra vez vai embora, vacilando sem noção nenhuma."

ela o
ignora
ela
vai embora
ele
vai atrás

o amor é não ter paz
senão co'as asas
redobradas
sobre o
outro
dia
o amor era universo

hoje
o amor é padrões fractais na asa de uma borboleta que voa
atrás da flor que voa na flor e que pousa

amor, em espanhol, é mariposa

e ela
mora
numa
boa
no
amor

("Duas borboletas-monarcas", Ted Hughes traduzido por Sérgio Alcides)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

nós somos criminalizadores
não há criminosos num mundo de moralistas
nós somos criminalizadores
nós inventamos
punimos
e cometemos as injustiças

hoje, nas redessocial, nós inclusive
comentamos as injustiças

nós somos criminalizadores
tudo é problema pra capitão-do-mato resolver
[gostei - desgostando - dessa ideia:
tudo é coisa pra capitão-do-mato]

nós somos moralizadores
é fato

já disse uma vez e
de novo
ninguém por aqui costuma
por mais que seja libertário
ficar pelado na janela
sem se sentir corado

nós somos moralizadores
nós somos o horror

---

«tout corps est
un empire
tout corps
un contact
une pointe d'hémisphère
tout corps raconte
des histoires tout corps
affiche gloires et remords
tout corps tu peux me croire
même le tien
surtout
le
tien
est un corps qui mérite de voir
le ciel»

[tradução de Florine Thomas]

---

ser como a
democracia
ser para todos
ou pra ninguém

---

entropoética

---

um estudo em concreto: amor, parte VI

"ah, se não fosse o amor
pra recolher o óleo que vazou"

pra recolher
pra
recolher o óleo que vazou

recolha, vazamento. Transbordar. Segurança. Braços e barreira de contenção.

Amor é contenção.



---

das lições de amor em concreto -

amar
ar
tu
do

te
a
mar
sem
te
mer

[com Julianna Motter]

---

um estudo em concreto: amor, parte III

uma demão de tinta
por sobre a outra

duas mãos cruzadas
dedos entrelaçados duas
pessoas juntas
de mãos atadas

uma demão de tinta por sobre
a outra

fazendo
da concretude
cor

---

por essas coisas todas agradeço
às vezes não
às vez esqueço
é triste eu sei
às vez
é rude às vezes sou
por essas coisas me desculpo
desculpo
pra que eu me possa ser
a isso tudo
agradecido
porque
por essas coisas todas agradeço

---

porque há descobrenças, nessa vida
que surpreendem
suspendem o ar e
suspeitam o tempo

---

cristo godot arthur
elvis
dom sebastião
sentados num canto quietos

cristo godot arthur
elvis, sebastião
tirando no jokenpô
quem vai dirigi o busão

---

todo corpo é
um império
todo corpo
um contato
uma ponta de hemisfério
todo corpo conta
histórias todo corpo
encena glórias e tristezas
todo corpo você pode ter certeza
até o teu
especialmente
o
teu
é um corpo que merece ver o céu

---

iron
ia

enferrujou

---

navega, mulher
navega
pega essa pá e rema
navega, mulher
e vá
navega, nêga, navega
pega esse ar que há
embaixo da tua asa
e segue as correntes fortes
que sopram daí pra cá
navega, mulher, navega
navega no céu azul
por meio das turbulências
navega, mulher, não nega
que há de se ter decência
que há de se ter vontade
pra, enfim, alcançar o mar

---

o mundo precisa de menos roupa
y vamos nus

---

mas, cara
-ele falou-
máscara
a mascar
minha face
a
massacrar
minha quase
eterna abso
luta
existência
cara,
-falou mais-
não dá
nada
cara
juro
minha quase
absoluta
existência
mascada
massacrada
des
mas
carada
cara,
minha quase
absoluta
existência
inexistente
minha quase
carente
egoísta
obsessão
-porra, cara, fala!
e ele falou-
graças a deus caíro ao chão

---

o pacífico nos
espera
o pacífico não erra
o pacífico nos
espera
suas ilhas nos
esperam
samoa hawaii a de páscoa e seus moais
o pacífico nos espera
não tem pressa não tem atrapalhamento o
pacífico
é nosso monumento

---

[ter tempo pra cozinhar
= objetivo de vida
recorrente]

---

estrugir
es.tru.gir
(lat vulg *exturgere) vint 1 Vibrar fortemente; estralejar, estrondear: "De repente estruge ao lado um estrídulo tropel de cascos sobre pedras" (Euclides da Cunha). vtd 2 Atroar com descargas, músicas etc.: Um forte estampido estrugiu a praça. vtd 3 Derreter toicinho.

[vtd 3, acepção que aqui nos toca:

entrada no futuro dicionário "Sabedoria linguístico-pragmática da cozinha"]

---

ouvi,
ó mundo,
ouvi,
que eu ouvi e digo:
a vós,
ó mundo,
a voz.

eu,
por mim,
escuto.

[pra Micheliny Verunschk, padroeira]

---

todavia
toda vida


toda vida
todavia
vai

[sobre um de Bruno Baptista]

---

a política é uma merda
a justiça também
se enganem não
é tudo coisa do cão
com artigo na frente

política e justiça, ok
a política e a justiça, por outro lado
por qualquer lado
não

---

é pena que
não peçam pontes
onde os pé pisa

---

esteja
feliz
festeja

rasteja
ralé
esteja
bem

---

"arrimo
ar·ri·mo
(derivação regressiva de arrimar)
substantivo masculino
1. Coisa ou local em que algo ou alguém se apoia. = ENCOSTO
2. Apoio, amparo."

[novas palavras todo santo dia
deus me livre de saber de tudo]

---

tenho uma vontade ine
xaurível de me exaurir

---

projeção
aqui me tens de regresso

---

não adorarás falsos deuses
ele disse
ele disse
mas quando
ele disse
não adorarás falsos deuses
ele
sinceramente
não sabia da missa um terço
não sabia quão real era
ela
não sabia
que tenho em meu peito o espaço
para adorá-lo
e muitos mais
para adorar
os pardais e o som do vento
os rios e o som do mar os seixos
ele não sabia
o deus querido
não sabia que no meio deste reino
comunal
não há mal qualquer em ter
adoração
pelo tudo que nos cerca
não adorarás falsos deuses
me disse ele
mas ele não conhecia
ela

[para Julianna, para mverunschk]

---

nada desses humano me é estranho

---

[sério mesmo mesmo que vírgula é um negócio tão difícil de saber usar sério mesmo mesmo?]

---

o mundo está
dividido
entre filhos da terra
e filhos de chocadeira

---

[uma vez, numa praia do oeste do ceará, verti uma música de caymmi pro francês, pra uma alemã que assistia a um show de choro comigo, lá na areia. Maluquice, não?]

---

o facebook é
uma curtição

 em versão de portugal seria:

o facebook é
um gostar imenso

em francês:

le facebook est
beaucoup d'aimer

inglês:

facebook is like
a lot of like

fico devendo o inglês pirata

---

fun
k

domingo, 17 de novembro de 2013

canções das crônicas de Lalonge: dois registros

para Doris Lessing, seguida à zona mais alta

I

areia e tempestade
sacodem o acampamento
areia e tempestade vêm com o vento
desde o céu
e todas tendas sentem
o mesmo do que eu

areia e vento voam
em volta disso tudo
ficar é absurdo
e ter que esperar...

as águas caem forte
silêncio aquieta fundo
areia e tempestade
o fim do mundo.

será que ela sabe
que a espero?




II

A batalha já perdida
a batalha já perdida
olhe o exército arrastado
no deserto.

Olhe sua carcaça,
os seus ossos,
sua carne,
a batalha já perdida e a guerra quase.

Onde está o nobre cavaleiro?
Onde o nosso brado de vitória?
Cadê o guerreiro legendário
que a lenda diz trazer a nossa glória?

A batalha já perdida
a batalha já perdida...

sábado, 16 de novembro de 2013

contos de fábulas xiv

Naquele tempo, o imperador estava cansado. O ano havia quase terminado, mas nem tanto, e durante o tempo todo muitas coisas se findaram. O imperador estava cansado. Vira impérios de oriente, atravessara mares com deuses estranhos, altos de montanhas com chás desconhecidos, voltado a seu sítio e depois novamente zarpado. Havia estado em muitos cantos do mundo, e muita coisa havia mudado. O imperador estava cansado, com o peso de um mundo nas costas e, nas mãos, grossas porções de problemas alheios. O ano estava quase terminado, mas nem tanto, e o imperador se perguntava que proveito um ano novo havia de.

Mas sempre havia. Deitado, com os olhos já metade em outro mundo, ouviu um assobio profundo que vem do sonho, que vem da chuva e que vem de longe.

Aquele ano todo havia mudado muito, e o dia que terminava era apenas um ano outro, em menos tempo, mudado tanto ao sabor do vento quanto mudavam as cobras cigarras e folhas d'árvores.


O imperador sorriu ao vento distante, que às vezes chove, e dormiu para um ano novo.
vandalíssimo

---

sou mais que
tu
sou teu

---

damião pensou em pedir
a maria antônia moreira
que escrevesse pra ele uma carta

de recomendação uma carta ao parlamento
interino
das nações que se reuniria em janeiro
ou depois

damião, entretanto,
acabou recomendado por federico estrela
patrono das arte e saberes
para quem o parlamento
de tempo em tempo
batia palmas

maria antônia moreira ficou sem escrever a carta
mas eis que depois
damião
no parlamento das nação
encontrou joaquina barbosa, sua mais profunda
amante gostosa almagêmea
que ali só estava
porque maria antônia moreira assim
recomendava

---

o ritmo da leitura não é
o ritmo da escrita

escreve-se no ritmo da vida
quando abro a porta e u'a ave voa
quando vejo o cantar das folhas
quanto o vento assobia e chama

o ritmo da escrita não é o ritmo
da leitura
pausada, ouvida
o ritmo do que é lido é o ritmo
da escuta

---

desgraça porca é lavagem

---

nada está
separado
nada
está separado
porque nada
de um ponto
a outro
nada de um ponto a outro
tem entre si um vácuo

nada
neste planeta
está separado
a mais longínqua lonjura
tem com esta terra dura
o vínculo azul do barro

---

essa
obsessão
começa desde o começo
desde o começo quando todo mundo
todo
mundo
quer porque quer saber o tal do sexo
do bebê

---

pra
ia
e
se
foi

---

tudo no mundo
canta

---

o que articula
o que ape'ta segula

[cebolinha em dia de ditado popular]

---

cristo
incompreendido em seu tempo
incompreendido agora

cristo na eternidade
incompreendido

---

- !GOSTA DE DOCE DE BANANA?

- GOSTO.

- PORRA, TEM UMA PAnelona lá em casa e...

---

um estudo em concreto: amor, parte V (de Part Three: Love, da senhorita Emily)

Meu rio flui até ti -
Mar Azul! Posso seguir?
Meu rio permanece no aguardo -
Ó, mar - ouve o que eu falo -
A ti levarei em meus braços
os mais distantes regatos -
Diz - Mar - Diz que sim!

My River runs to thee –
Blue Sea! Wilt welcome me?
My River wait reply –
Oh Sea – look graciously –
I'll fetch thee Brooks
From spotted nooks –
Say –Sea– Take Me!

Meu rio ruma até ti –
Mar Azul! Me aceitas?
Meu rio aguarda resposta
Oh, Mar - ouve a minha proposta–
E eu te trarei os riachos
de recantos afastados–
Responde para mim, oh Mar!, responde: vais me levar? 

[menos que um: exercício de tradução de feriado. Logo menos no blog de tradução. Aqui, respectivamente, minha versão, o original de Emily Dickinson e a tradução de Micheliny Verunschk, quem começou com a brincadeira]

---

um estudo em concreto: amor, parte IV

"o amor é importante, porra!!!"

no asfalto do chão, nos tijolos no reboco da parede, nas pedras argamassas que tapam janelas.

que tapam janelas...

o amor é importante
escrito
em uma janela tapada

não se tapa o sol co'a peneira
nem
o amor com tijolos

o amor é importante, porra
o amor
é um vazamento nas paredes
é vista
respiro
e conexão

o amor é o vínculo do concreto.

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---

era facilíssimo amá-la
superlativo que era
eu 
na absoluta presença
dela

---

um estudo em concreto: amor, parte II

"se você jurar
que me tem amor
eu posso me !regenerar!
mas se é para fingir, mulher
a !orgia! assim não vou deixar"

!! para efeito de ênfase. Regenerar. Orgia. Pólos opostos de um mesmo amor, de um mesmo

movimento

amor é movimento

pra fora e
pra dentro.

---

a felicidade está
em saber que um amigo gera
um filho
e em mais tantas outras coisas
que não são comigo
que ouso dizer, novamente
:a felicidade são os outros

---

você tá pensando no que tô
pensando tá percebendo isso
também você tá ouvindo você
presta atenção tanto quanto
eu presto atenção em tudo
você está está também?

---

animais sentem cheiro
de medo
de chuva
de amor animais sentem
cheiro

e nós
animais com medo
de sermos
também animais
chovemos perfume
em nosso

em nosso

---

eu sou uma pessoa muito muito
muito boba
quando atravessam meu coração
com um ferro em brasa
muito muito
muito boba

---

cebolas têm camadas
ogros têm camadas
meu pensamento tem camadas

---

um estudo em concreto: amor, parte I

"nosso amor não fecha pra balanço
não fecha pra descanso
não respeita feriado

o nosso amor
é um nó molhado"

um nó molhado. Conhecimento técnico-instrumental, pragmático, sabedoria popular: um nó molhado segura a amarra bem mais firme, um nó molhado se aperta, as tranças se enrolam se reforçam se enovelam as voltas de nós não se soltam.

---

c
_o
__r
___r
____e
_____r

---

não é difícil
é só
cansativo

---

sabe... esse negócio de viver de poesia, viver de escrever, viver sendo escritor, pagar a conta do mercado com o cheque do editor, essa coisa toda que não existe porque nosso mercado, o editorial, só vende autajuda porque não tem leitor pro que escrevemos; esse lance romântico de ser financiado ter mecenas viver na maciota na caneta, ponto e só, esse negócio sem pé nem cabeça de viver de escrever, acho bom graças a deus que não existe. Porque o poema o texto a história de um bicho isolado é triste, é triste se o poema não sai do poeta no meio da rua, se o escritor não escuta a fala do povo a fala das coisas a fala da luta a fala da fala das palavras todas. Se ele não se envolve, não vai e anda, se é escritor de gabinete prêmios e chás das cinco. Acho muito do bom que um escritor de literatura não se segure só de escritura. Acho bom, muito bom, que além de escrita ele esteja no espaço da escuta, no contato, na permuta, no aprendizado eterno e impagável da estrada.

---

correspondências entre João e Maria

sempre me pareceu, apenas
cartas entre João e Maria
pedaços de letras pelos quais
os dois
os tais
se correspondiam

nunca me passou pela cabeça
que a correspondência
entre João e Maria eram
as coisas todas
nas quais ambos dois
era um só

---

- Cítrico é a puta que te pariu!

- Crítico, cara... eu disse que tu é um bom crítico...

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ela nem imagina
que ela é minha imagem
e semelhança mas melhor
ela nem imagina que eu sou
a criança do que ela é agora ela
nem imagina que eu quando for bom
serei
como
ela

---

chuva
pés descalçados
calçadas
rua

chove
como um retorno
da infância
chuva

água
por uma ou duas
quadras
vaga

criança
calçada
chuva

---

os anjos disseram
amém
mas ela não entendeu
porque 'la não fala anjês

---

pior que escritor ruim é revisor ruim e editor ruim e leitor ruim isso é que é ruim pior que escritor ruim

---

quem tem samba não precisa de filosofia

---

tudo
está
acima
de ti

e tu
acima
de mim

---

[como é que alguém, não digo vocês, mas como é que alguém pode falar tanto e prestar tão pouca atenção às palavras?]

---

paraense fiscal

---

in
fer
nin
ter
no

---

palpite
no coração dos outro
é palpitação

---

tudo pode ficar
melhor
com zumbis ou
palmas
de flamenco

tentem.

---

há algo de pobre no reino da dinamarca

que horror!
!polícia!
que horror...

---

vai
pega o carro
vamos sair daqui sentido paraguai
pode ser
pega o carro
espera
esqueci lá dentro uma coisa

pronto
agora vai
sai daqui
me leva
juntei tudo
não importa mais nem um pouquinho
o que vão dizer pelo caminho
o que vão pensar lá atrás
ou que vão achar quando
paraguai?, talvez pro chile
o que vão pensar quando chegarmos
quietos
cansados
felizes

se não der
se não for
se acaso for difícil
de aguentar
não dá nada
se aquiete
se acaso for difícil
me deixe na beira da estrada
,eu me viro

---

[desenvolvimentismo é o diabo

pode ser, por um lado, uma visão dicotômica minha
que falo
desenvolvimentismo é o diabo

ou
pode ser, por outro lado, umas visão estreitada de quem lê
porque
desenvolvimentismo é o diabo
não a partir de uma visão dicotômica, não, maniqueísta

mas a partir de uma epistemologiazinha comprometida

comprometida não com o desenvolvimento
tecnocrático
que fique claro

desenvolvimentismo é o diabo

só isso, simples desse jeito]

---

devagar com
ahn,
dor

---

mão-de-dobra

---

vai
cho
ver

---

inferno

não, não pelo calor
desse eu gosto eu quero mais
sempre que calore porque no frio
vocês que nunca viram não viveram que não sabem
quando chove quando neva no frio
o inferno é mais constante branco
e multiforme

inferno
não pelo calor
mas pela fome
distância e fome

---

há coisas que duas
pessoas são há cois
as que mais que uma

duas pessoas são
muitas coisas

---

inspiração
é mãe
e o ventre dela
venta
por toda a terra
até
rever
o mar

---

OS NOVOS DEZ MANDAMENTOS

1. porque
2. os
3. antigos
4. não
5. são
6. respeitados
7. instauramos
8. novos
9. :seja
10. legal.

---

[olha ,isso não é um poema sequer é literatura ,mas note bem o que eu vou dizer porque é importante :uma vez nós paramos de falar sobre "epifanias" porque epifania é um termo muito pomposo pra uma realização real de totalidade cósmica divina ou sagrada ,como se prefira ,então nós paramos de falar epifania e acho até que foi Rafael Palomino quem inventou o substituto .O substituto ,no caso ,é bem mais humilde e se chama-se epifaninha ."Epifaninha" não é a grande explosão ôntica de um mistério de um sagrado de um nível acima de um nada ,epifaninha tá mais praquela pequena realização quando as chaves do carro finalmente aparecem ou quando uma piada contada dois dias atrás vem e pronto ,tu entende .Epifaninha é a realizaçãozinha de um segredo ,de um mistério ,de algo que tava coberto e agora não mais.

eu tive uma dessas ,uma vez ,embora narrá-la não signifique nada pra ninguém :num almoço monástico num mosteiro zen eu mordi uma noz .Foi assim .Foi isso ,foi tudo e isso foi tudo.

agora ,escrevendo sobre sociologia e modernização conservadora e um inferno de economiquês sobre os governos brasileiros pré-ditadura ,epifaninha bateu outra vez.

num erro de digitar .Economimia .Tão engraçado ,tão fodidamente engraçado .Desenvolvimento econômimico
,econômimimico]

---

minha primeira mulher
era economista então
isso já define o resto
da minha vida

não gosto de economia

---

minha segunda mulher
era advogada então
isso define outra parte

que leis, que nada

---

a economização do mundo
vai comer nosso tudo

---

tem choro no
mar mas pra mar
chorar não faz qualquer
diferença

---

desmatar
também
mata

---

é tu
do mui
to sen
ti men
to mú
tuo

---

mão-de-cobra

---

mão-de-sobra

---

[que bagunça do caralho]

---

" hoje
o mar
não tá pra

deixe..."

(Julianna Motter)

mas
pelo raso
ouça

vi uma concha

---

deus, por que o trem
parte
meu coração?

[continuando o

"Deus, por que o trem
parou nesta estação?

Não quero morrer
de despedida."

de Francisco Xavier Xavier]

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

guardava o rosto do amor
no lado esquerdo do peito
para que
pelo direito
o amante saísse a tempo

---

[perguntaram a Olivio Jekupe, autor dO saci verdadeiro (notem a posição do adjetivo):

"Seu livro é uma ficção?"

E ele disse que "O índio não tem costume de usar essa palavra. O Saci não é um mito, é uma história. E ele existe de fato."

contraponto: o filho de Luiz Costa-Lima disse, quando criança (portanto, quando sábio), que “Ah, isso que eu estou fazendo é ficção! Você viu que é um sol, mas não é um sol porque não dói no olho”

--- nossas categorias, como sempre, são só categorias. Fato que é fato é saci - e outros tantos ---]

---

o hom
em contra
a máquina

---

capitalismo informacional
a grande mídia detém os meios de produção
de massa

---

arredondando pra cima
sou
somos
menos que um
fomos

---

b
 o
  a
semana

b

 a
  nana

---

o luar
da água
é lugar

deixa o braço de mar
te

deix
e
u

peixe.

---

você
se esque
ceu de mim
você disse que
nunca esquece
ria você disse e
eu acreditei, visse?

---

alimente
mesmo alguém por quem não nutre
sentimentos

---

dito e

---

[se por acaso interessa a alguém
cumpre dizer que
além do zen
o budismo terra pura tem me ganhado mais que todos

no mínimo pela humildade de reconhecer que eu não sou nada
e que a libertação
está no outro]

---

um poema a cada manhã
desperta

pássaros cantam
enquanto
giro as chaves
da porta

por sobre horas mortas
o pólen
voando tranquilo no corpo da abelha

domingo

revirando o lixo
um homem
passeia tranquilo
com fome

---

ontem antes de
dormir
olhava as asas que ela me deu

ao acordar
ela me abraçava

---

deus lhe deus

sábado, 9 de novembro de 2013

ouvir música como quem
espanta deus
e observa os passarinhos

à deriva
na imensidão
do olvido

---

ela tinha olhos do tamanho
do infinito e ele só um pinto

---

MICROCONTO DE FADAS

pirlimpimpou-se

---

só vai preso quem não tinha

---

[não estraguemos as crianças]

---

deus falou assim
"sim"
mas deus mentiu
pra tu
pra mim
só não mentiu pra esposa
que esposa de deus é bicho bravo
é deusa
e desce o sarrafo quando deus mente

palavras de deus não são pra gente

---

[ela ainda não foi
embora
tenha]

---

[por que, pergunto, sou eu quem devo organizar meu pensamento?

por que meu pensamento, por que organizado, por que dever?

qual a dificuldade em ser disperso?]

---

ela
falava com cachorros
passeando na rua falava com cachorros

o homem ia atrás
só manducando
a cena que ali desenrolava
na calçada

ela
andando pela rua
falando com cachorros

---

tenho
um pedido de desculpas a fazer
pedido público
universal

tenho querido engolir a vida
abraçar o mundo
encontrar saídas cavar poços fundos tenho
tateado às cegas muitos caminhos
estradas compridas
amigos, amigas, profundos e completos
desconhecidos

tenho recolhido pouco a pouco
pedacinhos de outras eras
de outra história
tenho coletado pouco
e muito tenho abandonado

tenho me aproximado
falado muito
sorrido alto
dormido pouco

tenho esperado
apressado, tenho esperado

espero eu ser desculpado

---

um retiro de
silêncio

---

uma vez
claudiowiller falava sobre beats
em porto de galinhas

eu não vi porque bebia
numa praia
enquanto willer lá falava

ontem
outra vez

cemitério de automóveis noite beat
eu apenas flutuava
entre as salas o teatro a calçada

ouvindo e falando sobre
poesia anarquismo putaria zen budismo
tudo que sei pouco

bebendo muito

flutuava como em sonho alcoolizado
kerouac festejando gary snyder
flutuava entre tragos
passos
num espaço povoado por gigantes

saravá amém gasshô
pessoal de alma na estrada
saravou

---

fazia tempo que
bêbado como um gambá
não se aplicava

noite beat, sinta-se honrada

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

confie em min
has visões ama
nhã será o mel
hor dia do ano
inteiro amanhã
será

---

e no fim
era apenas o começo

---

chovia
em toda parte
chovia

chovia aqui
lá e
ela
não
via
a água caindo
seus olhos cobertos
por brumas
seus olhos
chovendo
por dentro
da chuva

chovia
aqui e
por toda parte
chovia

e eu não a via
eu, os seus olhos
eu não a via
enquanto
a chuva
caía

---

pensamento pra começar dia:

.

---

o poema
é uma moeda social
o poema não se vende por reais
não é real
não vale euros
não paga em dólar
o poema está mais para uma esmola
que se dá por compaixão

um poema é a mão estendida a um irmão
mesmo que esteja espalmada
mesmo que um tapa na cara

um poema não compra pão
não vale nada
um poema
só continua existindo aqui
nesse mundão
porque o poema é essencial

respiração

---

vândalos = sujeitos políticos exercendo potencial de manifestação social em nome de partipação direta e reflexão de temas públicos e pelo bem comum

[imprensa em tempos de twitter. Economizando caracteres]

---

jamais que tomo tédio
jamais que tomo vodca
jamais que tomo jeito
mas dentro do meu peito
há um tambor que espoca
um tempo sem remédio

---

um dia sem angústia existencial
é um dia normal

---

- Pô, Rá!

[lamentação teofânica dos antigos crentes egípcios. Origem etimológica de nossa interjeição popular]

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

para os homens
deus

para os homens

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dizia te amo com a facilidade com que
dizia te amo

nunca ninguém entendeu
que o resto era apenas silêncio
e olhos

nunca
ninguém
entendeu
que afora uma ou outra fala esparsa
pragmática
tudo era silêncio e sol

então
silêncio e observação

afora uma ou outra palavra esparsa
que falava
te

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inspiração é simples

é só metade
do respirar

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dia
done

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feliz dia dos poetas

esses mortos de fome em vida
póstumos antes do além
esses filhos da boa
luta

feliz dia dos poetas, ô filho da musa

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não pergunte o que seu país pode
fazer por você

é a deixa que ele quer
pra te sentar a mão na orelha

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fi
n
ada

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a água da floresta também corre
em minhas veias também corre
no encanamento na ferrugem
na sujeira a água da floresta
também corre junto ao bumbo
ritmado ao coração a água
da floresta também corre pelos ares
no pulmão nos calcanhares também corre
a água da floresta a floresta as árvores
a água da floresta também corre
junto ao mar por entre os braços
baías saídas canais estuário
também corre em todo instante
nos horários mais impróprios
também corre a água da floresta
a água da geleira do oceano
a água suja do pano torcido também
corre
lavando
o céu
e todo
o resto

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o amor é tão grande
e eu tão pequeno
que nós nos desencontremo

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nada é mais contagioso
que o mau exemplo

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biografias periféricas
micro-histórias paralelas contadas por
digamos
o porteiro de caetano
o barbeiro de roberto
recomposição retroativa de ocorridos

biografias não autorizadas contadas
por quem as autoriza
o vendedor de pipocas da esquina
o dono da padaria
a babá dos filhos que teve
aquela atriz com aquele cantor

e assim a nave vai
e assim, aliás
biografias podem ficar bem bem mais
interessantes

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no dia
em que a ironia
foi caçada
ela só deu risada

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trinidad tobago

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nossa herança de colônia
devia virar água-de-cheiro

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mas não custa nada

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encontrem-se comigo no final
do infinito

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esperando, engordô

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literário libertário

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te amo, não temo
ou o que vier primeiro
não estou certo
não tenho
mais
informações

desculpe

sábado, 2 de novembro de 2013

tenho
um pedaço do que foi uma outra vida
em algum lugar no fundo
dessa mala

não aberta não completamente
limpa

aqui
em algum lugar
acho que aqui
no meio dessa
bagunça dessa roupa suja ainda desse
pedaço de
o que é isso?

ah!,
pensei que tivesse perdido

tenho ainda um espaço do que
foi vivido

mas na rua passa o caminhão
de lixo
e nem isso tenho tempo de fazer

escolher
o que fica
e o que vai

caminhão passado, lixo fica

rápido, rápido
tarde mas rápido
mala querida

larga
lá fora
essa vida

era vida

fôra

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

faremos o seguinte
:tu e eu vamos sair
daqui na manhã de quarta
mas leve uma mala só
a mais leve possível porque
na estrada se precisa de pouco
pouco bem pouco acredite
em mim
quando digo
na estrada precisa de nada
tu e eu vamos sair daqui di
reto praquele ponto
no fim da vista
direto

faremos o seguinte
tu e eu faremos
assim
:pegaremos uma mala só
isso, nem de duas preciso
uma mala só
pode ser a minha que
é maior e eu carr
ego tuas coisas comigo
nas costas enquan
to levas pela mão
nosso destino
vamos feito ladinos
ouve, na quarta à tarde
seguindo trilhas cortando
matas
seguimos
isso
na quarta à tarde

melhor ainda
!ouve, olha
na quarta à noite
saímos enfim da praia
da praia, claro
na quarta à noite
saímos da praia e lo
go voltamos
pra estrada

de madrugada
quarta de madrugada
depois da mala
te por nas costas
depois das ondas depois
da volta
depois de casa
depois do banho depois da cama
molhada
na quarta de madrugada

!na quinta
quinta pela manhã
ouve
faremos assim
:na quinta pela manhã
tu vai sem mim

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hoje é dia de rock, bebe

é isso que cês tanto querem
dizer?

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panóptico de cu é rolha

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do eu
e outros erros

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substituir
a boa e velha
:putaria
por :vadiaria

adaptar-se aos tempos

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farof
ino

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conheci !
e ! me deixava o tempo
todo
?

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não é pelos 20
centavos mas é
ou deveria
ser por quem
na rua
pede uma moedinha
qualquer coisinha
10 centavos, tia
tá bom
pra comprar um pão

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I
míssil
S2

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n o
vem,
!bro

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morrer
um leão por dia

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[mas olha, nunca
e repito :nunca
reclame de etnocentrismo estupidez ou injustiça se você
num afã de benemerência universal
usar a expressão "em pleno século XXI e ainda..."
sério
sério
positivismo manda lembranças
e elas não são agradáveis]

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hoje drummond faria bilbo
se vivo fosse

hoje saci saiu na rua
pra pedir doce

oswald ouve esta glosa
e goza

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conhecimento é mato

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[a direita me incomoda mais por ser arrogante do que por ser injusta
injustiça é estrutural
arrogância é filhadaputagem, mesmo]

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[lendo legislação cafundi, cerebralmente, Ministério Público com Império Público

zeitgeist e distúrbios cognitivos associados. Sinais dos tempos, sinais dos tempos]

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genti
li
que quando começar
em
a prender quem de f
ato precisa ir
preso
ra
paz
vai
ser
uma revolução

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defesa, pessoal

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ainda sobre o saci

:é argentino, também. Ou, no mínimo, indígena.

hipocrisia dizer que é genuinamente brasileiro, quando a gente sabe que brasileiro genuíno não gosta de índio.

:foi reformulado e popularizado por Monteiro Lobato. Que volta e meia aparece nas notícias tomando porrada por ter sido não só racista como, vejam vocês, declarada e propagandeadamente eugenista.

:outro personagem que foi reformulado e popularizado por uma marca, passando da tradição popular à lógica de consumo, foi o PapaiNoel. Pela CocaCola.

:Saci é um personagem de Ziraldo, o velhinho maluquinho.

:pelo dia do Mapinguari! ou do Cupuaçu! (que não é personagem mas tem nome legal também)

porque tudo que não é brasileiro é uma investida contra nosso patriotismo!

patriotismo...

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eu não tenho jeito

tenho jeitos

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estado da arte
estado de
direito

exceções não serão
toleradas
enquanto instituições

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quem não tem
teto de vidraça que banque
o engraçadinho

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ideia é o que não me falta

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vou-me embora de pasárgada
monarquia de merda

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e é esse o país que quer
assediar a copa?

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seu josé da esquina
tem em si muito mais
certidumbre ontológica
como diz
do que têm kant
gadamer ou debussy

seu josé da esquina
só sorri
e pita o fumo
e toma a cana
e desce o murro
quando um bacana
chega no bar de estante em punho

seu josé da esquina
seu josé da esquina
sabe bem qual a meta
física
seu josé da esquina

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o falo está
falido

e isso aqui não é uma falácia