quinta-feira, 21 de junho de 2012

contos de fábulas X

- Por que você usa sempre camisinha, mesmo que o cliente ofereça muitas mais peças de cobre? - perguntou o regente à prostituta da cidade.

- Porque não quero colocar no mundo mais filhos da puta.

contos de fábulas IX


O imperador andava de um lado ao outro da sala, mãos nas costas, preocupado, sol entrando pela janela alta.

- O que fazer, então? Propor um acordo, capitular, dar razão e mais controle ao Grão Khan do Catão? Afinar o coro dos contentes? Ou manter a resistência, arma em punho, bradar bravatas e ir de encontro ao sádico expansionista? Desafinar o coro dos contentes?

Uma voz da assembleia asseverou: "Afinar o coro dos descontentes".

Um bandolim na praça central tocou acordes, meio afinados, mas sem um coro que atrapalhasse seu trinado passaral.

No salão do imperador, sentado a um canto, em silêncio, o conselheiro permanecia corado.
o olhar da flor
é que gira o sol

segunda-feira, 18 de junho de 2012

os olhos não mostram
monstros

contos de fábulas VIII

A espada caiu no mosaico do salão principal, ecoando por todo o castelo. O imperador estava aborrecido com algo, mas não aparentava: sua face permanecia impassível, tranquila. Até sorria um pouco.

- Que há, nobre senhor, vossa alteza?

- Nada. Apenas voltei para casa.

- No meio da guerra, meu senhor, vossa alteza?

- No meio da guerra não, que a guerra acabou. Acenei para o inimigo um "pronto, chega", virei as costas e vim-me embora.

- E... e o inimigo não vos perseguiu? Não vos emboscou? Não matou vossos pelotões?

O silêncio dos pássaros de outono cantava nas janelas altas do salão.

- Não.

- Mas... meu senhor, vossa alteza, perdoe-me a ousadia mas... mas e a honra da guerra? E a guerra justa, a boa guerra, a guerra que vale a pena ser combatida?

Agora o imperador, meia idade, sorria.

- Não há guerra que valha a pena ser combatida, meu amigo. Agora, se não for exigir demais de vossa servidão, sente aqui a meu lado e vamos acabar com uma ou duas garrafas de vinho.

contos de fábulas VII

Ensanguentado, com o mundo incendiado às suas costas, o velho imperador caminhara arrastadamente até a parede de pedra antiga. Chamuscada. Cansado, recostou-se e escorregou lentamente até o chão.

- Dia difícil? - perguntou o taverneiro, já idoso, sentado sobre um barril de sua melhor cerveja. Vazio.

- Ô - respondeu o imperador - Que fazes aqui, agora, no fim de tarde após o armagedão?

- Ah... minha preguiça me salvou do fim do mundo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

contos de fábulas VI

Mirando seu reflexo no lago, o jovem imperador se perguntava o porquê de Narciso ter morrido. Por que ninguém salvara o belo rapaz? Por que, vendo que Narciso se afogava, ninguém perto do lago o foi salvar?

Então, no mesmo lago que o espelhava, o imperador viu surgir a imagem de um cavaleiro, um de sua guarda pessoal. E aí entendeu: não havia ninguém ao redor de Narciso, nem perto do lago, porque toda imagem que não fosse a dele seria uma mancha impossível de aguentar.

O guarda não entendeu a razão de o imperador sorrir. O imperador, por sua vez, pensava que havia sido, por fim, um bom pagamento: obcecado em livrar seu espelho de qualquer mancha, Narciso se afogando terminou por lavar a própria arrogância.
- uta gente chata
- quem?
- gente

sábado, 9 de junho de 2012

pegadas na areia

E quando olhei pra trás não vi minhas pegadas na areia. Apenas a marca de um pé, que não o meu, estava sob as ondas que pouco a pouco invadiam a praia. Então compreendi:

Nos momentos de maior dificuldade, fui carregado nos braços
pelo saci.

contos de fábulas V

- Jogue-o no calabouço, regente, execute-o!

O jovem imperador entrava na adolescência. Era todo fúria e ímpeto, tempestade de autoridade recoberta com manto azul. O regente ditou a sentença: trabalho nos campos comunitários, cárcere provisório e assistência às obras da igreja. Voltaria a ver sua família apenas dois anos depois.

- Mas ele conspirava contra o trono! Não, pior, ele conspirava contra a cidade! Talvez contra o império! Não podemos deixá-lo livre, não podemos deixá-los pensar que venceram, que qualquer um pode ameaçar a ordem do mundo!

- O mundo está cheio de pequenas teorias da conspiração, vossa alteza. Teorias de conspirações e mesmo de conspirações reais. Até para falarmos contra elas devemos ser precavidos: nunca sabemos quando nosso discurso poderá soar conspiratório.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

epidermia
doença universal
na pele

contos de fábulas IV

Adulto, o imperador se arrastava ao fim da batalha. Seu braço lacerado, espada ensanguentada, rosto suado escorrendo por sobre a armadura centenas de preocupações.

Havia vencido, mas o mundo parecia escuro à sua volta. Quando entrou na tenda reservada a seu descanso, lá estava o ex-regente.

- O que faço, senhor? Se luto pela Verdade, Justiça, pela Luz, por que tudo parece escuro assim?

O velho nunca gostara de guerra: em seus tempos de regente apenas dera ordens que defendessem o império, tentando nunca iniciar um embate. Não era bom de ofensivas, não gostava delas, não julgava serem boas nem quando eram para o Bem.

- Se buscas a luz, vossa alteza, olhe para a Luz. Se olhas a escuridão, meu senhor, verás escuridão. Mas mesmo ao olhar a Luz, ao se guiar por ela, não sejas a luz. Ser a Luz vos impede de compreender a escuridão.

contos de fábulas III

Sentado na muralha do castelo, com as pernas balançando sobre o vazio daquela encosta, o jovem imperador procurava a origem dos piados que ouvia.

De pequenos buracos ao longo do muro, rachaduras, frestas antigas, ao lado do limo crescente cresciam também outras flores, plantas, trepadeiras-roxas de primavera. Com elas, pequenos pássaros adornavam suas casas, piando ao som do calor das montanhas.

Não que aquela parte do império desconhecesse a guerra. Pelo contrário, poucos meses antes inimigos investiram contra os muros, e onde escorriam cantos antes correra sangue. Mas as plantas não são breves como a vida.

Do alto da muralha o imperador procurava a voz dos cantores ocultos, nos pequenos rincões que adornavam a mais dura e fria fortaleza.


contos de fábulas II

A tensão chegou ao ápice, no alto da montanha.

- Você não pode ser um místico em um mundo sem heróis!, gritou o jovem imperador com sua espada em punho.
- E vossa alteza não pode ser herói em um mundo sem contemplação. Em algum momento a ação chega ao fim, e se o olhar não estiver treinado o mundo pelo qual se lutou tanto desaparece bem à sua frente.

O lavrador ouvia calmamente a discussão, enxada arando a terra ao sopé do monte dos reclusos. O sábio era sábio, pensou, alteza era brava, pensou. E prosseguiu cavando sulcos na terra úmida.

domingo, 3 de junho de 2012

a pedra
não olha a perda

sangue frio
duro de rocha

a pedra é a lição
de que o coração
não é de louça

a boa vontade é melhor
que o discurso da boa
vontade

sexta-feira, 1 de junho de 2012


contracultura
contravenção
e contraceptivo
são coisas que todos precisam
uma hora ou outra