domingo, 30 de outubro de 2011


é noite no japão
e aqui faz frio baixo do sol

não sei o que espera o inverno
a terra
não sei o que espera um mol
nem quanto pesa

faz tempo que esqueci o que se diz
quando se fala
sobre o que se sabe bem

não sei

faz frio lá no japão e é noite aqui
no sol

o outono varre as folhas da janela
e eu vejo a lua
e eu vejo ela
e eu a vejo

vejo-a também

a lua brilha e a janela sua as gotas dessa chuva
que é de noite
e que refresca as chamas desse sol
que a chamam longe

na noite
do outro espaço
distante

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

visagens

eu te vi em minha cama
vi-te entrar-me pela porta
vi teu rosto dentro o quarto
e a visão era tão bela
que nem mesmo estranhei
ver-te entrar pela janela

dávida

Quando pequeno leu, atrás de um panfleto, "tens um prêmio a reclamar". Passou a vida reclamando, tornou-se um velho cansado e sem nenhum prêmio algum. Entendera, provavelmente, "tens um prêmio ao reclamar". Mas já era tarde.

sábado, 22 de outubro de 2011

amor australiano

"I laugh you", ela disse.
Ele riu.

asas

não se mova agora
duas moscas entraram dentro a sala
não se mova agora
entraram juntas voando juntas
uma sobre a outra
outra sobre a uma
não se mova agora, não se mexa
duas moscas voando juntas significa alguma coisa

deve querer dizer
que elas se amam
ou se odeiam

duas moscas voando juntas janela adentro
não se mova agora
enquanto elas movem o mundo
e as asas
uma em torno doutra

não se mova
até que elas saiam

respeito o amor dessas moscas
respeite sua guerra

não se mova,
isso é sério

respire devagar
deixe-as pousar sobre
o teclado
sobre a mesa
voar em volta da cabeça
zunindo feito moscas a voar

não se mova
que o ar é a terra delas
não abale o elemento
não se mova

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

peça pelo número 37


Tira da prateleira um pacote de comida. No rótulo vêm escritos marca, sabor artificial e informações nutricionais. Vêm escritas outras coisas, várias coisas, tem mesmo uma promoção "ganhe um ano de produtos para você e sua família". É um pacote vermelho chamativo. Ao lado deste, que ele tira, há mais vinte, trinta, vários, enfileirados ao lado e para o fundo. Até se perder de vista.

Olha a data de validade. "Até daqui a pouco", pensa. Desse mesmo lote deve haver, na prateleira, digamos mais um cem. Cem pacotes.

No fundo de um país bem próximo ao da prateleira há cem famílias sem nada. Não há prateleiras, também. A casa mantém a porta aberta na ânsia de, também ela, comer alguma coisa. Falta comida no país das cem pessoas.

Ele passa pelo caixa, paga, coloca o pacote vermelho pra dentro de bolsa e vaza. Vai embora.

As cem pessoas ainda não têm o que comer. Uma delas chora.

I

doeu
a questão
do Eu

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Isomorfias entre Jesus Cristo e o boi-de-piranha: breve hermenêutica da kenosis


"Na canção 'Travessia do Araguaia', Tião Carreiro desenvolve a analogia entre o boi-de-piranha e a crucificação de Cristo. Assim, o boi-de-piranha, unidade pouco rentável de um coletivo maior - o rebanho sendo tocado pelo peão -, assume características cristológicas claras ao se esvaziar de sua individualidade soberana e rumar para o rio infestado de peixes vorazes. Ao entrar nas águas, o mártir atrai a atenção de todo o cardume, que o devora, permitindo a passagem em segurança do peão e do restante das reses. O boi-de-piranha permite a redenção do rebanho, seu traslado para a outra margem, quase que sua promoção ontológica. É um boi redentor, assim.

Claro está que o boi-de-piranha não realiza tal ato por amor incondicional ao coletivo rebanho, diferente do que nos é dito do Jesus que se esvaziou de si para, através da kenosis, tornar-se Cristo Redentor de toda a humanidade. Perguntarão: "quem pode assegurar que Jesus também não hesitou até que seu peão, o Deus Pai, o tenha tocado para as águas deste mundo profano?". Mera especulação. Importa notar que a história do bezerro de ouro foi suplantada por sua atualização no boi-de-piranha, e muito de nossa civilização é devido a esse evento crítico"

(ORGOY, Carlos Juarez. Isomorfias entre Jesus Cristo e o boi-de-piranha: breve hermenêutica da kenosis. Araçatuba: Editora Sete Flexas, 2003, p. 173-174)

dois fios
caíram da cabeça
sobre a mesa

enquanto lia o texto
dois fios caíram da cabeça

sobre a mesa, além do livro,
os cabelos escreveram
algo antigo
pra que eu não desanimasse

dois fios
caíram da cabeça
sobre a mesa

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A história da poesia americana: Walt Whitman e a criação dos emoticons


É sabido e inconteste que o criador dos emoticons, sinais gráficos que povoam a internet desde o início dos anos 1980, foi um pesquisador americano de Ciências da Computação. Scott E. Fahlman, da Carnegie Mellon University de Pittsburgh, desenvolveu esse expediente gráfico para que as comunicações entre ele e seus alunos, por meio dos recém-criados e-mails, pudessem conter pequenos traços de expressão que ajudassem os leitores das mensagens a compreender as intenções por trás da escrita: sobretudo as expressões sarcásticas. Nas comunicações por texto, “The problem was that if someone made a sarcastic remark, a few readers would fail to get the joke, and each of them would post a lengthy diatribe in response” (FAHLMAN, http://www.cs.cmu.edu/~sef/sefSmiley.htm). Para resolver isso, Fahlman sugeriu o uso de :-) como “marcador de piadas”, e o resultado disso todos conhecemos.
Entretanto, um crítico literário da Manoa University acaba de revisar esta história. Em artigo intitulado A história dos gráficos digitais: de Gutenberg a Zuckerberg, ainda no prelo, Huali Scott-Gerald investiga uma curiosa presença de emoticon em uma das poesias norte-americanas mais aclamadas dos últimos séculos: a poesia de Walt Whitman.
Diz Scott-Gerald:

Walt Whitman foi um grande revolucionário, cantor de sua época e arauto da independência espiritual que os Estados Unidos conheceu ao longo de todo o século XX. Faceta também notória em sua biografia é o amor livre e dedicado aos companheiros de estrada, andarilhos, poetas e marinheiros (REYNOLDS, 1995; LOVING, 1999). Por tal precedente, longamente documentado, podemos evidenciar uma característica tipográfica inovadora em sua obra, encontrada em um dos primeiros poemas de Leaves of Grass. É possível que tal inovação tenha contagiado mesmo e. e. cummings, um dos mais ousados experimentalistas da poesia norte-americana. Talvez, como propomos demonstrar aqui, tenha mesmo influenciado o surgimento dos emoticons como forma de demonstrar sentimentos do escritor, sentimentos esses relacionados não somente ao humor mordaz, irônico, mas também ao muito conhecido sinal de flerte e cumplicidade. Indo ao poema, portanto, encontramos Whitman em seu diálogo direto e sem barreiras metalinguísticas, dirigindo-se aos companheiros da forma que segue: “Bear forth to them folded my love, (dear mariners, for you I fold it here on every leaf ;)” (WHITMAN, 1995, p. 10).
Repitamos aqui os caracteres utilizados com lascívia pelo poeta, para marcar claramente que seu “amor aos marinheiros” transbordava o expediente literário. Ao dizer “for you […] ;)”, Whitman arrisca uma sutil piscadela que decerto passou despercebida pelos leitores da época, tanto casuais quanto críticos, embora não tenha, decerto, deixado de arranjar a ele, poeta, algumas tórridas noites de amor com homens do mar acostumados a sinais ocultos” (SCOTT-GERALD, no prelo, p. 237)

O crítico prossegue por mais algumas centenas de páginas, demonstrando não apenas que Walt Whitman utilizava tais procedimentos gráficos como também estes eram conhecidos de Gutenberg. O que nos interessa aqui é, certamente, sua asserção polêmica: “Em tempos de internet, chats e Facebook, Walt Whitman é-nos essencial para compreender as modalidades de côrte e galanteio típicas da informática contemporânea” (SCOTT-GERALD, no prelo, p. 356).

Resta a nossa resenha questionar: terá a piscadela whitmaniana influenciado o grande e. e. cummings em seu magistral poema A leaf fall on loneliness?

Referências

FAHLMAN, Scott E. Smiley Lore :-) Disponível em: http://www.cs.cmu.edu/~sef/sefSmiley.htm
LOVING, Jerome. Walt Whitman: The Song of Himself. University of California Press, 1999.
REYNOLDS, David S. Walt Whitman's America: A Cultural Biography. New York: Vintage Books, 1995.
SCOTT-GERALD, Huali. A história dos gráficos digitais: de Gutenberg a Zuckerberg. Manoa: Manoa University Press, no prelo.
WHITMAN, Walt. Leaves of grass. NY: Oxford Press. 1995.

---
Leandro Durazzo é doutorando em História, Mestre em Estudos Literários e pesquisador nas áreas de Poesia, Galanteio e Côrte na Corte portuguesa do Ottocento.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

404

devemos estar errados como quem escova os dentes
não só todos os dias, mas depois de cada refeição,
ao acordar e antes de dormir.

Estar errado não pode ser um luxo como dormir até mais tarde.
Estar errado precisa ser um esforço consciente, uma demonstração de atenção plena.
Estar errado precisa ser assumido como a essência de nossas possibilidades. Estar errado é o que fazemos de melhor e negar isso seria um erro.

dever-seres


Freud devia ter lido Manoel de Barros,

Sócrates devia ser conhecido mais pelo daimon do que pela lógica,

Aristóteles, ficando em terceiro lugar, devia ser o terceiro excluído
e isso resolveria muita coisa.

Descartes devia ter menos memória e,
sendo esquecido, esquecer de lembrar
que pensar logo existo.

Cristo devia ter dito que estava brincando,
com aquele papo todo de Deus.

Deus devia ter dito que estava brincando,
com aquele papo de Cristo.

O monoteísmo devia ter brincado em outras galáxias
ou multiversos

e o politeísmo também.

Um gato mia sob minha janela.

Se tivessem brincado de gato-mia
com suas primas bonitas,
nenhum ditador ditaria

sobretudo os maus ditadores.

A Tia Maria fazia ditado
na escola primária
e nele dizia a história de outra Maria
a Vai-Com-As-Outras.

Se Adão tivesse dito
"Não, Eva querida, vá lá sozinha"
não haveria a Tia Maria.

Eu, por minha vez,
não discuto mais com ateus
religiosos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

libélulas perfeitamente normais, 36


Seguia a rua de ponta a ponta, sem usar a calçada. O dia se punha e olhei para a lua, a claridade da cidade espalhada pelas fachadas, janelas, roupas penduradas a secar. De repente passou por sobre mim uma libélula. Ligeira. Um bicho leve, inseto estranho, asas bem largas, bicho pequeno. Passou uma libélula por sobre mim, vinda de onde eu vinha e indo pra algum lugar lá pros lados aonde eu ia.

Tudo bem, pensei. Eis que então passou mais uma, mais duas, três libélulas voadoras. Passaram cinco, e quinze. Depois de pouco tempo duas dezenas estavam passando em cima de minha cabeça. Continuava andando, continuavam voando, íamos todos no mesmo sentido. Meus olhos olhavam o céu e as libélulas todas.

Então parei. Mais de dezenas, já eram centenas de insetos voando do mesmo lugar e indo pro mesmo lugar, dezenas de centenas, milhares. Olhei para a origem, de onde elas vinham, e vinham do nada. São bichos pequenos, eu disse, e magros. O céu é bem vasto e azul então, de repente, lá estavam. Como vindas de lugar nenhum.

Dezenas de milhares.

Acompanhei as libélulas até mais longe que meu destino. Olhava pra elas voando e pensava onde iam, mas sumiam tão breve como surgiam, desaparecendo magrelas no céu imenso.

Cheguei a uma esquina. Não só minha rua era via libélula como as outras também, e na encruzilhada elas todas tomavam a mesma direção. Sumiam lá longe, num campo enorme pra baixo do chão dessa rua, quase um vale, um descampado de cidade onde ainda existem só árvores e plantas e grama e faltam os homens.

Centenas de milhares. Bichos perfeitamente normais, vindos de lugar nenhum e indo a lugar nenhum.

Enquanto escrevo estas linhas há libélulas passando em frente à minha janela.


dois grãos de arroz e uma cebola
fizeram um ideograma
na tigela em que eu comia

diziam os três:
não, não pense,
não nos olhe

só almoce.

almocei

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

tratado de muriçocologia capítulo segundo


um mosquito passou por aqui, pela minha frente, entre meu rosto e o livro que eu lia. O mosquito passou voando de baixo pra cima, nervoso, bem lento, carregando nas patas um fio de cabelo meu que estava no chão. Esse mosquito pequeno carregava o cabelo dez vezes maior do que ele e voava lento pro alto, pro teto, pro céu branco de concreto. Pensei na hora em um jão-de-barro, em um passarinho, pensei em escravos do egito antigo a carregar coisas grandes pesadas e muito maiores do que eles próprios.

Pra construir a casa da moça, dos filhos, dos deuses, dos reis faraós, depende bastante. Mas todos levando um pedaço de algo de um ponto a outro, igual ao mosquito diante meus olhos.

O mosquito voou cambaleante até o alto do quarto e meus olhos se ofuscaram pela luz acesa. Mosquito sumiu. Não sei aonde foi meu cabelo, não sei onde está o mosquito, não sei se essa luz que me cega é a lâmpada de meu quarto ou o poste de luz da casa desse mosquito.

Não sei de nada disso, mas vi um mosquito carregando um fio de cabelo.

sábado, 1 de outubro de 2011

cello 35


Ela era uma musicista de mão cheia e ele foi ridículo ao dizer a ela o que ele disse. Ele disse algo do tipo "arrume o microfone", "vire a cadeira pro público", "tire a cortina da frente", "sorria para mim".

Sorria-para-mim foi o que ele quis dizer. O resto do público não importava. Ela era linda, os olhos brilhavam e mesmo antes de tocar ele ouvira sua voz macia. Até por isso tinha sido ridículo: precisava iniciar conversa, ouvir dela fosse o que fosse.

Ela felizmente lhe falou. Disse "Claro, vou virar ao público. Estarei de frente assim que começar o show. Fique tranquilo".

Ele ficou.