quarta-feira, 23 de outubro de 2013

carreguem
a primavera no coração
não digam que não
silenciem para ouvir
a flor que brota
o broto
que passeia entre os orvalhos
em meio às gotas
de surpresa e desespero
infinito encantamento

carreguem o canto e o rumor
do riacho
riam sem gravidade
também sem apego
ao motivo do riso
ao desejo

sejam
simples e efêmeros
como quem carrega
no coração
mais do que espelhos

[para Gary Snyder, poema na viagem pras três pontas]

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somos só
eu e meu amor no mundo
somos vagabundos caminhando
sem parar
somos pés, mapa, estradas
neblina em que na alta madrugada
sumiremos
eu e meu amor no mundo
somos eu e meu amor no mundo
cremos eu e meu amor no mundo
que virá

[para Jack Kerouac, poema na viagem pras três pontas]

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"Vida,para nossa eternidade,é agora"
(E.E.Cummings)

"O essencial é vivido na presença, as objetividades no passado."
(Martin Buber)

"dita a palavra essencial, amanhecerei árvore"
(Murilo Mendes)

"Eu considero uma árvore."
(Martin Buber)

"Fico feliz de pertencer a uma religião que louva uma árvore"
(Stephen Batchelor)

"Viva!"
(eu)

"Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente."
(Murilo Mendes)

"Ave, árvre"
(eu)

"Ave Sangria"
(Marco Polo)

"Marcooo..."
(Niccolò e Maffeo Polo)

"... Polooo!"
(Marco Polo)

"Lá e de volta outra vez"
(Livro Vermelho do Marco Ocidental)

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entre inferno e inferninho prefiro o segundo
que lá eles têm cachaça pizza e se você reparar bem
até saem murros em briga de bar

o inferno não é lugar para diversão

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as fotos do meu casamento
se queimaram quando a câmera abriu
as fotos do meu casamento
caíram no rio com fotógrafa e tudo
as fotos do meu casamento
estiveram todas fora de enquadro
as fotos do meu casamento
mostravam pessoas com cabeças cortadas
as fotos do meu casamento
mostravam chifrinhos caretas e olhos vermelhos
as fotos do meu casamento
estavam com o flash ligado e inútil
as fotos do meu casamento
estavam no escuro as fotos do meu casamento
as fotos do meu casamento
que nunca existiu
nunca existiram

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a estética é uma ética e vice-versa

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natureza humana
microconto-paródia-chiste de Leandro Durazzo, baseado no microconto-paródia-chiste de Diego Callazans

Certa manhã, acordando de sonos intranquilos, Gregor Samsa se viu metamorfoseado em um horrendo inseto. Como ainda tivesse tempo, virou para o lado e dormiu um pouco mais.

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hell
p
me

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arremedo desterro
arre
medo
dest
erro

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a poesia não tem pressa
não tem pés
nem vai de rodas
a parte alguma
a poesia não se enfurna
em canto algum
nem na caverna nem no ideário
mundo ideal a poesia não
te faz bem não te faz mal a
poesia sincera
mente não existe
a poesia se arrasta pela terra
mesmo na serra neblina mesmo naqu
ela colina em que voa
no ar
a poesia é só
respirar
o resto
é escrito
esquecimento
e pó

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eu sinto saudades tuas
mas não as tuas saudades
?tu sente saudades minhas

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dita
:du.ra

soletra
:dê i tê a dê u érre a

agora façam o cabeçalho
:rio de janeiro, 22 de outubro de 1964

-tia, posso desenhar um solzinho?

"pode, filho"

-solzinho entre nuvens.

"que horas são?"

-hora de voltar no tempo!

"pra qual, crianças?"

-pro pior.

<>

-ah, não?

<>

-parece.

...solzinho entre nuvens...

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a questão das biografias
agora
nos proíbe
de chamar de filhos da puta
os filhos da puta
sem sua prévia autorização
de suas mães
ou senhoras
e agora?

filha da puta é a legislação
- você me permite, constituição,
dizer assim, você permite? -

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se a ignorância for fruto da preguiça
ela é má vontade

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menos mídia
mais amida

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